Cristo e a Cidade
1. Há, hoje, em
Portugal e na generalidade dos países europeus, uma
intensa campanha ideológica e mediática visando
expulsar os cristãos (e de modo particular os
católicos) da praça pública. Por agora, esta campanha
limita-se à erradicação dos símbolos cristãos do espaço
público gerido pelo Estado e à afirmação de que as
opiniões dos cristãos, enquanto tais, não devem merecer
consideração pública – ficando limitadas às paredes das
suas igrejas. E mesmo no interior das igrejas, começa a
ser problemático falar sobre determinados assuntos numa
perspectiva especificamente religiosa (veja-se o caso
da homossexualidade), sob pena de tais intervenções
serem entendidas como incitamento à discriminação ou
qualquer coisa do género. Nesta sociedade altamente
sensível à discriminação, a única discriminação
autorizada e até promovida é a dos cristãos A seu
tempo, nem sequer é de excluir um regresso à
clandestinidade – pelo menos quanto à expressão da
doutrina cristã sobre alguns assuntos mais acarinhados
e zelosamente promovidos pela ideologia do momento.
2.
Numa
sociedade idealmente democrática, este laicismo seria
uma ideologia em livre concorrência com outras e com as
convicções religiosas – concorrência perfeitamente
legítima. Na sociedade real, as coisas funcionam de
modo diferente. O laicismo de exclusão tem uma
tendência inata para assumir formas organizadas de
conquista do poder político – o que não sucede com as
confissões religiosas, felizmente. E quando tal
acontece, em nome da neutralidade do Estado, é tudo
menos neutro. Pelo contrário, é obstinadamente
anticristão e activamente promotor de quaisquer
ideologias que também o sejam. Fala de “separação”
entre religião e Estado e considera-se dono do
conceito, pretendendo ignorar que este só ganhou forma
no contexto da civilização ocidental devido às raízes
judaico-cristãs da mesma. Nesta tradição está inscrita
a mais radical separação entre o poder “deste mundo” e
o “poder de Deus” – e, por isso, nenhuma teocracia pode
nela vingar, seja de raiz religiosa, seja de raiz
laica. Do evangélico “dai a César o que é de César e a
Deus o que é de Deus” (Lucas
20, 25), o
laicismo de exclusão apenas conserva a primeira parte:
«dai a César o que é de César” – e tudo é “de César”,
até a ética e a moral. O laicismo de exclusão torna-se,
assim, um inimigo da liberdade e um perigo para a
democracia.
3.
Como
escrevia um Autor dos primeiros séculos do Cristianismo
(Carta a
Diogneto), nós,
cristãos, não vivemos em cidades separadas, não usamos
roupas diferentes, não falamos uma língua diferente,
somos cidadãos de qualquer cidade... Quem nos olha,
nada sabendo da origem da esperança que nos habita, não
pode deixar de nos considerar «estrangeiros» no meio da
cidade. Em alguns casos, até pode querer expulsar-nos
da cidade, porque andamos tantas vezes ao arrepio do
política e culturalmente “correcto”. Esta, porém, é a
nossa cidade – por isso, não vamos a lado nenhum. As
suas praças, são as nossas praças – vivemos aqui e aqui
testemunhamos a nossa diferença. E, no contexto de
ideologias que se pretendem totalizantes e, tantas
vezes, são totalitárias, o nosso testemunho e a nossa
linguagem abrem espaço para modos de vida alternativos,
humanos e humanizantes, porque respeitadores da
dignidade inscrita pelo Criador nas suas criaturas.
4.
“Cristo e a
Cidade”, como revista digital, surge neste contexto de
discussão aberta. Trata-se de uma iniciativa de
cristãos que não renunciam a pensar a sua cidade nem
renunciam aos seus direitos de cidadania. Embora a
germinar há longos meses, este projecto agora
concretizado acaba por ser também resposta ao desafio
do Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, no
discurso de abertura da última Assembleia Plenária dos
Bispos Portugueses: “... os cristãos, como exigência da
fé, devem acordar para uma maior responsabilidade
sócio-política e, neste contexto de pós-modernidade,
afirmar a sua capacidade de intervenção, não tendo medo
de congregar ideias, suscitar iniciativas e delinear
uma cultura”. Ecuménico na sua origem, este
sítio
é um espaço
aberto a quantos partilhem estas preocupações e
comunguem o desejo de levar por diante as tarefas
culturais próprias dos cristãos, numa sociedade que só
será democrática se puder respirar a liberdade da
diferença.
Elias
Couto nasceu em 1964. É licenciado em Teologia e Mestre
em Filosofia, pela Universidade Católica Portuguesa.
Trabalha numa Editorial Católica e colabora
habitualmente com a “Agência Ecclesia”. É casado e
pai.
