Integrar Alpha na Igreja… em paróquia
“... um dos momentos mais significativos do ‘curso Alpha’ é o tempo do fim-de-semana, no qual tomamos consciência e damos oportunidade à revelação e ao mergulho do Espírito Santo na nossa vida”.
Por Sílvio Couto
Sendo um processo de evangelização – com presença já em mais de cem países – e numa expressão querigmática – isto é, de primeiro anúncio de Jesus Cristo – o curso Alpha lança as bases de adesão à Pessoa de Jesus Cristo numa consciencialização daquilo que é ser, de facto, cristão... em Igreja.
Embora destinado a pessoas que não têm uma prática frequente da sua fé, no entanto, muitos cristãos (ditos) praticantes têm encontrado no curso Alpha uma resposta para algumas dúvidas, para as bases um tanto incipientes da sua fé católica e ainda para retomar a vivência cristã mais assumida.
Cada sessão do ‘curso Alpha’ tem três momentos claros, complementares e progressivos: refeição (jantar, normalmente), um tema e a partilha/discussão. Tudo isto acontece em mesas estáveis – com cerca de dez pessoas, onde há um casal responsável e (quando possível) ou outro co-responsável – durante doze semanas, isto é, dois meses e meio.
Os temas apresentados abordam as questões mais elementares da fé cristã: quem é Jesus, porque morreu Jesus, como estar certo da minha fé, ler a Bíblia, rezar: como e porquê, como é que Deus nos conduz.
Um momento central é o fim-de-semana, que decorre, após a sexta semana, e que aborda só o tema do Espírito Santo – quem é, qual a sua obra e como ser cheio do Espírito Santo. Após esse momento significativo de vivência pessoal e comunitária, seguem-se os temas: como resistir ao mal, falar aos outros, Deus cura ainda hoje, a Igreja e – no encerramento de um curso e a apresentação do seguinte – como tirar partido do resto da minha vida.
Partindo da vivência de cada elemento – é sempre mais rico quando sintonizado em casal – é feita a proposta a outros para viverem a graça de encontrar Deus através do curso Alpha. Os convites são, assim, multiplicados em função do testemunho de cada um dos participantes a outros mais próximos... sempre numa abertura à evangelização.
Numa análise da incidência do curso Alpha ao nível da paróquia fizemos, na última conferência nacional do Alpha, em Cantanhede, uma reflexão, que aqui deixamos despretensiosamente.
1. Paróquia e identidade do cristão
Partindo da definição de «paróquia», poderemos encontrar três grandes áreas da nossa identidade: o cristão crê (Palavra); o cristão celebra (Liturgia); o cristão serve/compromete-se (Caridade).
* Definição descritiva
«A Paróquia é uma certa comunidade de fiéis, constituída estavelmente na Igreja particular, cuja cura pastoral, sob a autoridade do bispo diocesano, está confiada ao pároco, como a seu pastor próprio» (CIC, cân. 515, § 1). É o lugar onde todos os fiéis podem reunir-se para a celebração dominical da Eucaristia. A paróquia inicia o povo cristão na expressão ordinária da vida litúrgica e reúne-o nesta celebração; ensina a doutrina salvífica de Cristo; e pratica a caridade do Senhor em obras boas e fraternas (Catecismo da Igreja Católica, n.º 2179).
«A paróquia é a comunidade eucarística e o coração da vida litúrgica das famílias cristãs; é o lugar privilegiado da catequese dos filhos e dos pais» (CEC, n.º 2226).
A paróquia é, antes de tudo, um espaço espiritual, pois os limites territoriais de antanho como que foram estilhaçados pelos novos meios de comunicação – tanto as vias como as artes deste sector social, v.g., internet, tv’s ou rádios – que, quase diariamente, estão desactualizados tanto na forma como no conteúdo.
Ora, ao nível da Igreja Católica, temos de saber usar a proximidade entre as pessoas, criando laços de amizade, de partilha e de comum/unidade. Estes aspectos não são fáceis de viver no anonimato de uma paróquia ao jeito tradicional, onde os serviços se confundem – quantas vezes – com as necessidades e as respostas com as conveniências, tanto dos que procuram como dos que lhes correspondem.
* Deficiências de ‘consumo’
Por outro lado, a falta de conhecimentos em questões de fé faz com que tenhamos (mais do que seria desejável) pessoas ‘desequilibradas’ cultural e religiosamente. Pois, acabado o percurso de ‘catequese’ – termo inadequado para exprimir os dez anos de escolarização catequística – normal, quase todos se sentem ‘doutorados’ (carimbados com todas as comunhões!) nos conhecimentos e lançados à deriva na interpretação das coisas da vida à luz da fé em Cristo, na Igreja.
Há, no entanto, questões que não podem ficar reduzidas às ‘respostas’ aprendidas na adolescência. Com o devido respeito: seria como se tentássemos vestir mais tarde o ‘fato da 1.ª comunhão’, onde já não caberíamos! Há problemas que exigem mais do que conhecimentos recauchutados nas páginas de infância. Há matérias assaz complexas às quais já não se pode responder com ‘mesinhas’ rituais nem a roçar a superstição...
* Lacunas: como colmatá-las?
Cada vez mais pode concluir-se que bastante poucos – sobretudo em certas regiões do nosso país – tiveram a ‘sorte’ de lhes ter sido semeado – no tal processo de ‘catequese’ – algo mais do que a indiferença de tantos dos nossos (pais e educadores) contemporâneos. Muitos pais negligenciaram a educação religiosa de seus filhos, deixando-os caminhar sem o conhecimento mínimo de Deus. Hoje, somos confrontados com tantos/as jovens que nem ouviram falar de Jesus e da Igreja têm flashes sobretudo de maledicência. Por isso, a vida em paróquia como que se tornou algo sem valor, pois o ginásio ou a escola de música ocuparam o espaço e o tempo que, em tempos mais recuados, eram ocupados pela formação ministrada na Igreja... mesmo que incipiente!
Há pais que ainda vão tentando transmitir – com que custo! – as suas vivências aos filhos/as crianças e adolescentes. Desses será oportuno escutar quem fez a experiência de ser convidado para o Alpha.
* Espaço de inter-comunhão
Progressivamente, a paróquia tem vindo a tornar-se uma espécie de placa giratória de razoáveis sensibilidades... umas abertas à novidade, outras mais resistentes à mudança e, na sua maioria, vivendo uma certa indiferença: quantos cristãos sem o mínimo de evangelização se abeiram dos sacramentos... rotineira e inconscientemente!
Quantas vezes, o plano pastoral diocesano não é tido na devida conta! Talvez não sejam muitas as paróquias que elaborem um plano pastoral em consonância com o plano e programa diocesano e até em concretização do plano da Igreja universal! Talvez não seja fácil articular os vários grupos, movimentos e serviços em ordem a que todos pareçam servir a (mesma) Igreja!
Numa época em que se exige boa coordenação de sinergias, torna-se ousado pretender fazer de cada paróquia um espaço onde os três vectores eclesiais estejam (minimamente) articulados. A dimensão sacerdotal, por vezes, torna-se (essencialmente) clerical. A dimensão profética reveste-se mais de incidência denunciadora (à maneira de uma visão sindical). A dimensão real nem sempre tem expressão na verdadeira caridade... cristã!
Neste contexto falar do ‘curso Alpha’ será uma novidade que tem de saber ocupar o seu espaço, tanto ao nível teórico como na sua expressão prática.
2. Da evangelização à força de profecia... no ‘curso Alpha’
«Os leigos realizam a sua missão profética também pela evangelização, isto é, pelo anúncio de Cristo, concretizado no testemunho da vida e na palavra. Para os leigos, “esta acção evangelizadora (...) adquire um carácter específico e uma particular eficácia, por se realizar nas condições ordinárias da vida secular” (LG 35). Este apostolado não consiste só no testemunho da vida: o verdadeiro apóstolo procura todas as ocasiões de anunciar Cristo pela palavra, tanto aos não-crentes (...) como aos crentes (AA 6)» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 905).
De facto quem já entrou na vivência do ‘curso Alpha’ apercebeu-se que ele se destina «às ovelhas perdidas da casa de Israel» e também para tantos outros que nunca ouviram falar de Jesus ou que, da Igreja católica, apresentam queixumes, feridas ou más experiências.
Tendo uma implantação – pelo menos daquilo que temos visto em Portugal – marcadamente paroquial, o ‘curso Alpha’ não pode ser olhado nem entendido como uma forma de fazer regressar à Igreja alguns dos que se afastaram... entendendo as mais díspares desculpas e/ou razões.
* Breves notas do carácter evangelizador do ‘curso Alpha’:
– é uma forma simples de apresentar Jesus: Ele é uma Pessoa com Quem cada um de nós trata também pessoalmente e não uma ideia ou uma teoria doutrinal;
– mais do que saber coisas de Jesus, é preciso conhecê-lo com o coração, amando-o e fazendo-o descer da cabeça para a prática do dia-a-dia;
– a descoberta da salvação trazida por Jesus é feita a partir de um anúncio (querigma) traduzido em vida na vida de quem O apresenta, porque Jesus tocou – efectiva, afectiva e intensivamente – a vida do comunicador... irmão na caminhada, mais do que alguém que pretende ensinar;
– a refeição faz-se comunhão: come-se e cresce-se ao ritmo da abertura a Deus e à fé... bebendo as partilhas fraternas em tragos pequenos;
* Aspectos da dimensão profética actualizada:
– mais do que uma iniciativa fechada, o ‘curso Alpha’ envolve (ou deve envolver) toda a paróquia na sua perspectiva de dinâmica espiritual e força irradiadora de interpelação... muito para além do reduto territorial de freguesia ou do som do campanário;
– quantas vezes da vivência de uma pessoa – as mais difíceis são as que mais frutos posteriores podem vir a dar! – se vai irradiar a capacidade de testemunho. Se me fez bem a mim, poderá fazer bem a outros!
– a cadeia de sinais – a descoberta e a atenção passa a marcar muitas vidas – vai crescendo na medida em que – tal como os profetas da Bíblia – se dá importância àquilo que antes parecia sem grande valor espiritual e divino ou mesmo cultural;
3. ‘Curso Alpha’: convergência dinamicamente carismática
Atendendo à (nossa) experiência – parca, mas singular! – o ‘curso Alpha’ pode tornar-se, quando vivido na sua intensidade mais genuína, um motor propulsor da vida de uma paróquia, tendo em conta a sua proposta evangelizadora, a convergência cristológica e a dinâmica carismática.
* Sobre a força de evangelização que o ‘curso Alpha’ tem na sua génese, já nos referimos acima. No entanto, numa linguagem trinitária, poderemos considerar que este método de evangelização nos reporta ao essencial na relação com Deus Pai... de Jesus Cristo.
* A quem pode viver a caminhada do ‘curso Alpha’ é-lhe proporcionada uma descoberta de Jesus vivo e ressuscitado sintonizando-se com a linguagem do Jesus do Evangelho, que é o mesmo de sempre: ontem, hoje e no futuro.
Poder-se-á considerar que o ‘curso Alpha’ é uma das correntes de nova evangelização com que o Papa João Paulo II – e, na sua esteira, Bento XVI – nos convocou para vivermos o terceiro milénio do cristianismo: nova no ardor, nova nos métodos e nova na expressão!
* De facto, um dos momentos mais significativos do ‘curso Alpha’ é o tempo do fim-de-semana, no qual tomamos consciência e damos oportunidade à revelação e ao mergulho do Espírito Santo na nossa vida. Nalguns casos dá-se mesmo uma efusão do Espírito Santo em tantos/as dos participantes. Descoberta a vida do Espírito Santo em nós e na vida da Igreja, tudo se torna novo... até o olhar sobre Deus, o mundo e nós mesmos.
Conclusão: Alpha no centro da pastoral da paróquia
Pelos frutos nos reconhecerão. Poderá ser este o princípio de quem faz – o início do caminho – o ‘curso Alpha’.
– Quando muitos dos afastados reencontram a vida da Igreja... de forma consciente e activa;
– Quando quem dizia mal da Igreja, agora fala dela com entusiasmo e interesse;
– Quando as famílias se vão convertendo pela decisão de alguém tocado por Jesus;
– Quando nos vamos deixando sair da mediocridade e damos testemunho;
– Quando os filhos percebem o sentido do matrimónio dos pais;
– Quando muitas coisas se vão renovando séria, serena e ousadamente.
Então, poderemos considerar que o ‘curso Alpha’ já está a dar frutos... para a glória de Deus e a edificação dos irmãos.
