QUARESMA: INQUIETAÇÃO DE MUDAR
A Quaresma não serve para resolver nada. Ela é apenas inquietação. Inquietação incómoda, rezingona, baralhando-me, desarrumando as minhas certezas, as minhas ideias, a minha fé certinha e instalada, com uma pergunta insinuando-se: Já alguma vez te deixaste realmente encontrar por Deus? Já alguma vez...
Por Elias Couto
1. João apareceu no deserto da Judeia, pregando a penitência e baptizando aqueles que se deixavam converter pelas suas palavras. Certo dia, apareceu Jesus, vindo da sua aldeia de Nazaré, para ser baptizado. Apesar da relutância de João, Jesus insistiu e foi baptizado (cf. Mateus 3, 13-15). Então, Jesus foi levado pelo Espírito para o deserto, para ser tentado pelo diabo, tendo jejuado durante quarenta dias e quarenta noites (Mateus 4, 1-2).
Jesus assumia e confirmava, deste modo, a tradição mais antiga do seu povo: povo nascido nos grandes espaços desérticos, aí conduzido por Deus para se converter das suas infidelidades, caminhando por quarenta anos, até estar preparado para entrar na Terra Prometida; e assumia também a tradição dos grandes profetas de Israel, que procuravam no deserto o tempo e o lugar propícios para melhor conhecer a vontade de Deus: Moisés, no alto do monte, antes de receber as Tábuas da Lei, jejuando durante quarenta dias e quarenta noites; Elias, caminhando durante quarenta dias e quarenta noites, até à montanha de Deus (1 Reis 19)...
2. Na Bíblia, o deserto é o lugar terrível onde nada prende o homem à vida, onde até a pele e a carne ameaçam abandonar-lhe os ossos. Deixado aí à sua sorte, brevemente será pasto das feras, roído pelo ardor do Sol, apagado pelas areias até nada restar da sua presença. Lugar tremendo, onde poucos se aventuram, o deserto é também o espaço privilegiado para o encontro com Deus, onde os profetas e os santos procuram escutar a Voz daquele que os chamou. Porque o deserto põe o homem diante de si e da sua fragilidade. E aí, bem fundo, onde nada esconde o homem de si, Deus pode falar.
No deserto, mostra-se a pobreza radical de cada ser humano. Lá, ele entende que não é apenas “pobre criatura”, finita e sempre à beira do fim – é ainda menos, porque nem consciência tem de quanto é “pobre”, de como é incapaz de dar um passo para escapar àquilo que é.
3. Não se escapa ao deserto. Ele revela-se a cada um, mais tarde ou mais cedo. Para muitos, talvez, tarde demais – mas quem pode, de entre os homens, ser juiz? Há muitas formas de enfrentar o deserto: desesperadamente sós diante do inevitável – e então, apenas resta dizer como Elias: Agora basta, Senhor. Tira-me a vida, porque não sou melhor que meus pais (1 Reis 19, 4); ou inesperadamente acompanhados por Alguém vindo ao encontro de quem já não se conforma em viver apenas, mas deseja viver com qualidade humana e cristã – e então, é altura de gritar como o cego, na beira da estrada: Jesus, filho de David, tem compaixão de mim (Lucas 18, 38).
Se, no deserto, for capaz de gritar assim a minha pobreza, ao jeito de Elias ou do cego de Jericó, Deus escutará o meu grito e não poderá deixar de responder – até o juiz iníquo atendeu à insistência da viúva indefesa, quanto mais o Pai do Céu!... (cfr. Lucas 18, 1-8). Aí, no deserto, serei atendido. Mas é preciso perseverar aí, sem me deixar atemorizar, à vista da solidão, perante a falta de água, perdido entre ravinas e montanhas desoladas. É preciso perseverar, diante das serpentes pressentidas, do uivo das feras, do vazio das noites e do ardor dos dias. É preciso perseverar, quarenta dias, quarenta anos, uma vida inteira, aí, no deserto.
4. Não caminharei sozinho – nem sequer serei eu a caminhar. Verdadeiramente, só preciso de chegar ao deserto – isso ninguém o pode fazer por mim; nem Deus, que respeita infinitamente a liberdade da suas criaturas, ao ponto de não forçar ninguém a ir ter com Ele. Mas, chegado ao deserto, sem nada e sem ninguém, gritando por Deus, Ele encarregar-se-á de tudo – os seus anjos não tardarão a chegar com água e pão, e serei alimentado, como o profeta Elias, até chegar ao monte de Deus.
Assim perseverante, Deus poderá ouvir-me, porque estarei plenamente despojado para Lhe falar. Então, serei eu a falar e não as minhas preocupações, as mil e uma coisas que me ocupam e com as quais me sinto importante, tão importante ao ponto de nem sequer pensar em gritar por Deus – mas se não gritar, como poderá Ele responder-me? No deserto, não tendo nada a que me agarrar, estarei pronto para Deus. E Deus, pronto para mim desde toda a eternidade, encontrará a brechazinha de que precisa para Se fazer ouvir, realizando maravilhas na minha vida...
5. A Quaresma é apenas um sinal, em jeito de proposta: se quiseres, poderás ir à descoberta de Deus, no deserto; tens o exemplo dos profetas, dos santos (pecadores convertidos); tens, acima de todos e como exemplo para todos, Jesus Cristo – também Ele precisou de percorrer os seus quarenta dias de deserto, firmando-Se na missão que o Pai lhe confiara. Se quiseres, podes começar a treinar já este ano. Ou, quem sabe, talvez no próximo? Mas não esperes demais, porque há muito caminho a percorrer. O deserto é longo, e só saberás quanto, quando olhares para trás e puderes ver o rasto dos teus passos a perder de vista – então perceberás o quanto te falta ainda caminhar…
6. A Quaresma não serve para resolver nada. Ela é apenas inquietação. Inquietação incómoda, rezingona, baralhando-me, desarrumando as minhas certezas, as minhas ideias, a minha fé certinha e instalada, com uma pergunta insinuando-se: Já alguma vez te deixaste realmente encontrar por Deus? Já alguma vez... Porque, de facto, esta é a questão essencial: Deus quer encontrar-se comigo, desde toda a eternidade. Para isso, só precisa, mas precisa mesmo, que eu O deixe. E eu, para deixar, primeiro tenho de encontrar-me comigo, deixando a multidão de coisas que coloquei entre mim e Ele. É assim a Quaresma: inquietação de partir, mesmo quando sou incapaz de dar um passo.
