Onde está o teu irmão?
“Como viver de um modo digno da mulher ou do homem que cada um de nós é?” A resposta, para ser digna de cada um de nós, não poderá ignorar a dimensão ética da existência humana, dimensão que se diz primeiro em termos de responsabilidade – responsabilidade pelo outro que é o meu próximo. Pelo menos nisto, ninguém me pode substituir e todos somos insubstituíveis...
Por Elias Couto
“Acaso sou responsável pelo meu irmão?”
1. O Livro do Génesis leva-nos aos primórdios da humanidade, tal como os povos semitas do segundo e primeiro milénios antes de Cristo entendiam estes começos. Trata-se, portanto, de uma tradição cultural já muito afastada de nós e do nosso modo de pensar, marcado pela ciência e pela técnica. Mas, ao mesmo tempo, estes textos tão antigos estão marcados por uma originalidade inquestionável – que os crentes atribuem à revelação do próprio Deus e que os não crentes não deveriam desdenhar. É o caso do episódio de Caim e Abel.
Diz-se no capítulo 4 do Génesis: Deus preferiu as oferendas de Abel, em vez das de Caim. Caim ficou cheio de ódio contra Abel, seu irmão. E “quando estavam no campo, Caim lançou-se sobre seu irmão Abel e matou-o. Deus disse a Caim: ‘Onde está o teu irmão Abel?’ Ele respondeu: ‘Não sei. Acaso sou eu guarda do meu irmão?’” (Gn 4, 8-9).
Fixemo-nos no jogo de perguntas e respostas. Deus pergunta: “Onde está o teu irmão?” Como a criança apanhada em falta, que nega a sua culpa, dizendo: “Não fui eu!”, Caim responde: “Não sei”. Logo de seguida, porém, pergunta: “Serei eu o guarda do meu irmão?” Caim não nega o assassínio do irmão, nem recusa assumir a responsabilidade por esse seu acto. O que ele recusa é ser responsável pelo irmão, uma responsabilidade que seria anterior a qualquer coisa por ele feita, uma responsabilidade que lhe diria respeito desde o princípio, desde o momento em que passou a ter um irmão. Senhor de si e dos seus actos, responsável por si e pelos seus actos, Caim, afirma João Paulo II, na encíclica Evangelium vitae, “recusa-se a assumir aquela responsabilidade que cada homem tem pelo outro”(1). E acrescenta o Papa: “Ocorrem espontaneamente ao pensamento as tendências actuais para sonegar a responsabilidade do homem pelo seu semelhante, de que são sintomas, entre outros, a falta de solidariedade com os membros mais débeis da sociedade – como são os idosos, os doentes, os imigrantes, as crianças –, e a indiferença que tantas vezes se regista nas relações entre os povos, mesmo quando estão em jogo valores fundamentais como a sobrevivência, a liberdade e a paz”(2).
2. O projecto ético do indivíduo autónomo, que se dá a si mesmo as razões do seu proceder, não ignora, de modo algum, a responsabilidade. Pelo contrário, afirma que a liberdade é condição da responsabilidade, ou seja, que não se pode ser eticamente responsável por acções não livres; e que, inversamente, toda a acção plenamente livre implica plena responsabilidade ética por parte de quem a pratica.
Esta afirmação da responsabilidade permanece, no entanto, centrada no sujeito e na sua liberdade. O sujeito livre é eticamente responsável pelos seus actos; se plenamente livre, é plenamente responsável. Mas responsável de quê? Dos seus actos... Como me dizia um aluno: “Isso significa que posso fazer o que entender, desde que assuma as consequências dos meus actos. Sou livre para fazer e assumo as consequências do que faço!”. Deste modo, a noção de responsabilidade, que parecia destinada a vencer o egoísmo do eu centrado em si próprio e na edificação da sua liberdade, acaba confundindo-se com esse eu egoísta, incapaz de sair de si.
Ora, o importante é tomar consciência de que não posso fazer o que entender, mesmo assumindo as consequências. O episódio de Caim e Abel afirma-o claramente, colocando em jogo a responsabilidade pelo outro, anterior e não redutível à responsabilidade por aquilo que faço ao outro. Trata-se de um elemento novo, capaz de alterar radicalmente o modo de realização do sujeito livre, tal como a Modernidade o entendeu.
3. Diante do outro, humano como eu, e, no entanto, totalmente diferente de mim, sou, em primeiro lugar, responsável: responsável não apenas por aquilo que lhe faço ou deixo de fazer, mas sobretudo responsável por ele, pelo que ele sofre, pela sua miséria – responsável por alguém que não depende de mim, porque é outro diferente de mim, e, apesar disso, totalmente à mercê daquilo que eu possa decidir em relação a esta responsabilidade... Diante do outro, sou chamado, sou pro-vocado (ao jeito de uma vocação) e, deste modo, sou posto em causa, no meu projecto de sujeito livre e autónomo. Emmanuel Lévinas afirma: “acolher o Outro é colocar a minha liberdade em questão”(3). Ou seja: o acolhimento do outro é o primeiro passo para questionar a dimensão primeira da liberdade do sujeito e a sua autonomia absoluta; é, portanto, na perspectiva de Lévinas, o primeiro passo para a possibilidade da relação humana ser aquilo que deve: uma relação ética(4).
4. Caim pergunta: “Serei eu responsável pelo meu irmão?”. A resposta é: “Sou! Sou responsável, com uma responsabilidade só minha, na qual ninguém pode substituir-me, pois sou eu que estou diante do outro e mais ninguém”. Lévinas traduz esta situação do eu diante do outro com uma frase de Dostoievsky: “Somos todos culpados de tudo e de todos perante todos, e eu mais do que os outros”(5). E se somos todos culpados, também somos todos responsáveis – e eu mais do que os outros. Mas para que esta responsabilidade não acabe por ser uma abstracção tão inconsequente como outras, convém perceber que o outro tem um rosto, particularmente expressivo quando é o rosto do necessitado. A Bíblia, no Antigo Testamento, fala do estrangeiro, do órfão e da viúva como aqueles por quem o povo de Deus se há-de considerar particularmente responsável, dada a sua situação de extrema fragilidade... Hoje poderíamos falar do emigrante, do refugiado, do excluído da sociedade de consumo, do doente, da criança, de modo particular, aquela ainda não nascida... Com uma palavra só, podemos dizer que o outro por quem sou responsável é o próximo, o meu próximo.
“Quem é o meu próximo?”
1. Um sábio foi ter com Jesus e perguntou-Lhe o que devia fazer para ter a vida eterna. Jesus perguntou-lhe o que está escrito na Lei. Ele respondeu: “Amarás a Deus com todo o teu coração e ao próximo como a ti mesmo”. E, para justificar a pergunta, acrescentou: “E quem é o meu próximo?”. Jesus disse: “Um homem ia de Jerusalém para Jericó. No caminho, foi assaltado, espancado e abandonado como morto. Passou um sacerdote, mas, cheio de pressa, seguiu o seu caminho; veio depois um funcionário do templo, e nem sequer parou para ver o que acontecera. Passou então um estrangeiro: viu o homem assaltado, aproximou-se, levou-o consigo até à estalagem mais próxima, pagou para que fosse tratado e alojado até se recuperar...”. E Jesus perguntou: “Destes três, qual foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” (cfr. Lc 10, 25-37).
Este texto, com algumas adaptações, é a conhecida parábola evangélica “do Bom Samaritano”. Na origem da parábola está a pergunta: “Quem é o meu próximo?”. Ao terminar a parábola, Jesus pergunta: “Quem foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos assaltantes?” Convém ter presente estas duas perguntas, porque elas traduzem dois modos diferentes de pensar.
2. “Quem é o meu próximo?” As coisas ficam sempre mais fáceis quando conheço as minhas obrigações. Daí a pergunta do escriba: “Se eu souber quem é o meu próximo, saberei quem devo amar, cumprindo a lei de Deus” – pensou. É um método que funciona por exclusão: os da minha família, os meus amigos mais íntimos, os membros do meu clube, os da minha raça, os que partilham as minhas ideias, a minha religião... A esses devo amar, para cumprir a Lei. Os restantes, logo se verá o que fazer com eles...
“Quem foi o próximo daquele que estava em necessidade?” – perguntou Jesus. Já não se trata de excluir ninguém, pois quem está em causa sou eu. Neste sentido, cada um dos três que passou era o possível “próximo” daquele que estava caído no caminho. Mas só um assumiu essa condição. Ou seja, todos os que passaram eram responsáveis por aquele homem caído na valeta – mas só um escutou o grito que o chamava à responsabilidade.
Percebemos assim que esta responsabilidade pelo próximo, sendo anterior à liberdade do sujeito, não anula a liberdade. O grito daquele que pede auxílio diz-me respeito, responsabiliza-me – porque faz-me próximo dele; mas depende de mim assumir ou não esta proximidade, responder ou não ao pedido de auxílio – porque isso depende da minha liberdade. Não sou livre de escutar, mas sou livre para responder... Lévinas diz isto de um modo muito significativo: “A exigência ética não é uma necessidade ontológica. A proibição de matar não torna impossível o homicídio. Mas a autoridade da proibição mantém-se (e mostra-se) na má consciência do mal feito – (ou seja, na) malignidade do mal”(6).
Somos, portanto, livres, mas esta liberdade, não anula a responsabilidade que lhe é anterior, antes a torna mais grave... Na verdade, por que razão haveria eu de me sentir constrangido diante de alguém que sofre, se tivesse em conta apenas a minha liberdade diante dele? Se sou simplesmente e plenamente livre diante de alguém que sofre, não há razão para qualquer constrangimento. E a minha decisão de o auxiliar ou de o ignorar, não me deverá acrescentar nenhum mérito nem nenhum demérito. Pelo contrário, se anteriormente à minha liberdade já se me impôs a responsabilidade pelo outro, que é inerente à minha condição humana, então tem todo o sentido que o exercício da minha liberdade me condene ou me salve – por isso, Jesus disse a quem O interrogava: “Faz como aquele que socorreu o homem caído no caminho e terás a vida...”.
Conclusão
1. “Como viver de um modo digno da mulher ou do homem que cada um de nós é?” A resposta, para ser digna de cada um de nós, não poderá ignorar a dimensão ética da existência humana, dimensão que se diz primeiro em termos de responsabilidade – responsabilidade pelo outro que é o meu próximo. Pelo menos nisto, ninguém me pode substituir e todos somos insubstituíveis... Eticamente, a responsabilidade antecede e é condição da liberdade – porque o outro, que é o meu próximo, antecede a minha liberdade e faz de mim responsável antes mesmo de eu fazer seja o que for. Antes de ser livre diante do outro, já sou responsável por ele – e é nesta responsabilidade que se afirma a condição humana de cada um de nós.
2. Esta responsabilidade pelo próximo é, em primeiro lugar, responsabilidade pela sua vida. Daí a importância de edificar aquilo que o Papa João Paulo II, de um modo muito feliz, designava “cultura da vida”. Não é possível ignorar a urgência deste apelo – que se vem tornando cada vez mais profético. Nele, não está em causa apenas a questão do aborto — ainda que o modo como se olha esta questão seja paradigmático, relativamente à edificação de uma “cultura da morte” ou de uma “cultura da vida”. Mas para João Paulo II, a questão é bem mais vasta, como escreveu na encíclica Evangelium vitae:
“É urgente uma mobilização geral das consciências e um esforço ético comum para se levar a cabo uma grande estratégia em favor da vida (nº 95). E continua: “Todos juntos, devemos construir uma nova cultura da vida: nova, porque em condições de enfrentar e resolver os problemas inéditos de hoje acerca da vida do homem; nova, porque assumida com convicção mais firme e eficaz por todos os cristãos; nova, porque capaz de suscitar um sério e corajoso confronto cultural com todos”(7).
Trata-se, afinal, de “assumir um novo estilo de vida que se exprime colocando no fundamento das decisões concretas – a nível pessoal, familiar, social e internacional – uma justa escala de valores: o primado do ser sobre o ter, da pessoa sobre as coisas”. É um estilo de vida que “implica (...) a passagem da indiferença ao interesse pelo outro, a passagem da recusa ao seu acolhimento: os outros não são concorrentes de quem temos de nos defender, mas irmãos e irmãs de quem devemos ser solidários; hão-de ser amados por si mesmos; enriquecem-nos pela sua própria presença”(8).
Neste estilo de vida, o próximo não é uma abstracção. É cada um que se cruza comigo, é aquele que vive a meu lado, a quem devo amar e cuidar, de quem sou responsável, antes de qualquer coisa que ele faça ou eu faça. Não é uma ética fácil, nem de meio-termo. Mas o presente e sobretudo o futuro da civilização que estamos a erguer passa necessariamente por aqui.
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Mark JOÃO PAULO II – Carta encíclica sobre o valor da vida humana Evangelium Vitae, n. 8.
2 Ibidem.
3 LÉVINAS, Emmanuel – Totalité et Infini, p. 84.
4 Cfr. LÉVINAS, Emmanuel – Totalité et Infini. Paris: Kluwer Academic / Le Livre de Poche, 1994, pp. 83. Podem ler-se com proveito as páginas 80-89.
5 Cfr. LÉVINAS, Emmanuel – Ética e Infinito. Lisboa: Edições 70, 1988, pp. 87-93.
6 LÉVINAS, Emmanuel - Ética e Infinito, p. 79.
7 JOÃO PAULO II – Evangelium vitae, nº 95.
8 JOÃO PAULO II – Evangelium vitae, nº 98.
