FAZENDO DA COMIDA UMA CELEBRAÇÃO CRISTÃ
ACTULIZADA
Através da
refeição tomada em comum, onde pão e vinho têm
(normalmente) lugar de referência, os vários
intervenientes tornam-se comensais – que comem da mesma
mesa – e chamam-se de ‘companheiros’, isto é, que comem
do mesmo pão... que alimenta as dimensões biológica,
psicológica e espiritual... nesta condição terrena e em
preâmbulo para a vida eterna.
Por
Sílvio
Couto
É durante a refeição, sobretudo se for à mesa que, para
além de nos alimentarmos, nos conhecemos e partilhamos,
crescendo na fraternidade, na comunhão e na
solidariedade. Com a aproximação da ‘noite de consoada’ –
esse quase ritual familiar por cuja ocasião tantas
famílias se reúnem, convivem e confraternizam – talvez
seja oportuno tentarmos uma breve reflexão sobre o
significado da comida e das (suas) implicações religiosas
ou religiosidade da comida... normalmente.
Se há momento em que nos podemos vulgarizar ou
transfigurar é à mesa, pois esse espaço – simbólico e
transcendente – de refeição é muito mais do que uma
obrigação para que nos mantenhamos vivos e de boa saúde.
De facto, nós somos aquilo que comemos, muito para além
dos hábitos alimentares ou aquilo que ingerimos como
substrato da nossa condição de vida... equilibrada ou em
ritmo social, familiar ou cultural. A refeição tem um
significado diferente se é tomada só ou com outras
pessoas, sejam elas acompanhantes ou comensais, ou, como
tantas vezes nos pode acontecer, estarmos com outros a
comer – como nos restaurantes – sem que tenhamos qualquer
relação afectiva.
1.
Da comunhão com o Criador à fraternidade com os
companheiros
Se
tomarmos a expressão ‘comer o pão com alguém’ como uma
forma de exprimir a comunhão com esse com o qual comemos,
então poderemos sentir que nos tornámos ‘companheiros’ da
mesma partilha em virtude de estarmos em fraternidade...
de vida, de espiritualidade e de fé.
Assim como tudo o que o homem/mulher faz, também o tomar
de alimento se encontra na ordem do Criador, pois a
comida, como fruto da terra e do trabalho realizado,
faz-nos participar das bênçãos de Deus... em contínua
manifestação do seu amor para connosco. Quando apreciamos
uma refeição em comum, quem é recebido nessa partilha,
como que entra na dimensão de uma espécie de comunhão com
essa família com quem convive, tanto do alimento como na
dimensão psicológico/espiritual. Por certo que nas
refeições compartilhadas nem sempre estes aspectos estão
assim claros. Com efeito, partilhar a mesma mesa é muito
mais do que estar lado a lado manuseando idênticos
talheres. Nem sequer ao estarmos a saborear o mesmo pitéu
isso significará estarmos efectivamente em igual ritmo de
comum união. As facetas exteriores poderão ajudar a fazer
da refeição uma convivialidade para além das coisas
materiais. No entanto, teremos de saber apreciar aquilo
que nos une em ordem a prosseguir algo mais do que o
alimento consumido.
A refeição está presente desde o livro do Génesis até ao
livro do Apocalipse e tem uma dimensão muito importante
em todo o itinerário bíblico: desde a refeição de Abraão
com os misteriosos visitantes até à descoberta da eterna
liturgia celeste, podemos e devemos enquadrar a refeição
pascal, tanto do povo de Israel como em Jesus, durante a
sua vida terrena. Efectivamente, é à mesa que nos
entendemos (ou procuramos entender) e damo-nos a conhecer
reciprocamente, partilhando o pão, aprofundando a
fraternidade e gerando (mais e melhor) a comunhão com
Deus e uns com os outros.
2.
Dinâmica comunional: da refeição ritual à fé comprometida
Se
tomarmos por referência o pão e o vinho, poderemos
interpretá-los como ingredientes de partilha em comunhão
– veja-se a expressão máxima destes elementos na última
ceia/eucaristia – tanto uns para com os outros como de
todos para com Deus.
Resultado do esforço, que se exprime no ‘suor do rosto’,
o pão – enquanto símbolo daquilo que se come –
consubstancia tudo quanto apreciamos como dom de Deus
para connosco: como alimento diário é sinal de todos os
dons divinos, apesar das duras condições com que é
amassado, cuidado e digerido. Por seu turno, o vinho
é-nos apresentado no contexto bíblico como símbolo da
vida, da sabedoria e do conhecimento, da alegria e da
festa, do banquete messiânico e da eucaristia.
Pão e vinho são muito mais do que meros elementos de
alimentação. Eles prefiguram a nossa participação na obra
criadora de Deus e manifestam a nossa vivência divinizada
com os outros. Através da refeição tomada em comum, onde
pão e vinho têm (normalmente) lugar de referência, os
vários intervenientes tornam-se comensais – que comem da
mesma mesa – e chamam-se de ‘companheiros’, isto é, que
comem do mesmo pão... que alimenta as dimensões
biológica, psicológica e espiritual... nesta condição
terrena e em preâmbulo para a vida eterna.
3.
Breves propostas evangelizadoras/catequéticas
Apresentamos
agora algumas propostas de evangelização e de catequese,
onde a temática da refeição/comida está presente. À volta
da mesa também se podem criar raízes e laços de anúncio
de Jesus, pela palavra anunciada e pelo pão partilhado...
fraterna e simplesmente.
– Evangelizar comendo, aprendendo e partilhando (‘curso
Alpha’)
Este método de evangelização com cerca de três décadas –
primeiro fora e depois dentro da Igreja Católica – está
presente em cento e setenta países e em Portugal desde o
início do terceiro milénio. Sendo um projecto de
evangelização, consta de três partes em cada sessão
semanal, durante doze semanas: refeição, tema/palestra e
discussão deste nas mesas. As vertentes querigmáticas
apresentadas alimentam e são alimentadas à volta da
mesa... numa crescente abertura aos outros e a Deus. O
‘curso Alpha’ é um método de evangelização onde cada
comensal se torna – normalmente – um companheiro de
caminhada na fé, na vida e no compromisso em Igreja.
– ‘Liturgia familiar da ressurreição’
Após
uma semana de trabalho, recordam-se os seis dias da
Criação e o descanso de Deus ao sétimo dia, para
contemplar a obra que tinha feito. Fazendo memorial da
criação, “em vista do culto e da adoração de Deus”
(Catecismo da Igreja Católica, n. 347), dá-se graças pela
providência divina no contexto da vida familiar. Deste
modo se retoma o sopro espiritual, excluindo os grilhões
da servidão do trabalho e do culto do dinheiro. Ao
regozijarmo-nos pela presença do grande dom do Filho de
Deus, faz-se memória da sua morte e da sua saída do
túmulo, pela sua Ressurreição, como o centro da nova e
eterna aliança. Ao santificarmos o trabalho naquilo que
ele tem de redentor, à imitação do que fez Jesus. Ao
anteciparmos a vinda do Reino no qual conheceremos o
‘repouso eterno’ no Espírito Santo, refazendo a unidade
dos membros da família, que se encontravam dispersos pelo
trabalho da semana.
Esta ‘liturgia familiar da ressurreição’, na noite de
sábado, é constituída: pela bênção da luz, feita pela
mãe; através dos hinos e salmos rezados ou cantados por
todos os elementos da família; pela bênção dos filhos,
feita pelos pais; através da bênção do pão, feita pelo
pai, e a partilha do mesmo pão (como sinal da paz)... e
procurando fazer da casa de família um espaço à volta da
mesa e com Deus entre todos os membros da família cristã.
A.
Sílvio Couto
nasceu em 1959, em Forjães (Esposende). Fez os estudos
eclesiásticos nos Seminários Arquidiocesanos de Braga.
Foi ordenado padre em 1983. Fez a licenciatura e o
mestrado em Teologia Sistemática na UCP. É, desde 1997,
pároco em Santiago, Sesimbra. É autor de mais de duas
dezenas de publicações.
