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Para os «tempos longos» da humanidade – I
O fracasso apostólico

por Elias Couto

Os nossos autores de referência foram os filósofos – em grande parte, ateus – e não os Santos Padres. O nosso livro de cabeceira foi qualquer um, menos a Bíblia. E hoje somos uma Igreja, na Europa, pelo menos à primeira vista, votada ao fracasso, destinada a tornar-se peça de museu – e nem como tal muito considerada.

Por Elias Couto


Face ao novo milénio
1.
Depois do Grande Jubileu do Ano 2000, sem paralelo na vida da Igreja, João Paulo II afirmava que «o grande legado» da experiência jubilar residia «na contemplação do rosto de Cristo, considerado nos seus traços históricos e no seu mistério, acolhido na sua multiforme presença na Igreja e no mundo, confessado como sentido da história e luz do nosso caminho» (Novo millennio ineunte, 15). É sabido como João Paulo II sonhou o Jubileu do Ano 2000 quase como um momento de transformação histórica – e empenhou-se pessoalmente para que tal pudesse acontecer. As esperanças do Papa, porém, eram da ordem da profecia – mais do que ao presente, embora enraizadas no presente, dirigiam-se «aos tempos longos da humanidade», como ele escreverá, em Outubro de 2004:

2. «Não tinha ilusões, por certo, de que uma simples data cronológica, apesar de sugestiva, pudesse por si mesma comportar grandes mudanças. Os factos encarregaram-se, infelizmente, de pôr em evidência, após o início do milénio, uma espécie de crua continuidade com os acontecimentos anteriores e frequentemente com os piores dentre eles. Foi-se delineando assim um cenário que, a par de reconfortantes perspectivas, deixa entrever opacas sombras de violência e de sangue que não cessam de nos entristecer. Mas, ao convidar a Igreja para celebrar o Jubileu dos dois mil anos da Encarnação, eu estava perfeitamente convencido – e ainda o estou mais agora! – de trabalhar para os “tempos longos” da humanidade» (Mane nobiscum Domine, 6).

3. Foi este pano de fundo histórico que serviu de contexto às duas iniciativas seguintes do Papa: o Ano do Rosário e o Ano da Eucaristia, os quais o Pontífice situou sempre na sequência do Grande Jubileu e daquilo que ele representara para a Igreja: «Não é a uma vida quotidiana cinzenta que regressamos, depois do entusiasmo jubilar. Pelo contrário, se foi autêntica a nossa peregrinação, esta terá como que desentorpecido as nossas pernas para o caminho que nos espera. Devemos imitar o entusiasmo do apóstolo Paulo: “Avançando para o que está adiante, prossigo em direcção à meta, para obter o prémio a que Deus nos chama em Cristo Jesus”» (Novo millennio ineunte, 59). Ao anunciar o Ano Paulino que começamos a viver a 29 deste mês de Junho, Bento XVI tinha certamente diante de si esta perspectiva de uma continuidade com as celebrações anteriores e os seus possíveis desenvolvimentos. Mais do que nunca, a Igreja é actualmente chamada a «pensar globalmente para agir localmente» – e estes «anos» são oportunidade únicas para o fazer.

O fracasso apostólico
4.
As palavras citadas de João Paulo II constituem o pano de fundo para algumas reflexões, a propósito do Ano Paulino – a continuar nos próximos meses. E começo pelo fracasso apostólico da Igreja numa Europa – e num Portugal – cada vez mais cristofóbica e imunizada contra o Evangelho.

5. Paulo conheceu este fracasso, quando menos o esperava. Missionário experiente, sentia-se culturalmente, preparado para anunciar o Evangelho aos auditórios mais exigentes. Chega a Atenas neste estado de espírito. Atenas, cidade símbolo do saber, do uso da razão para indagar da causa das coisas, cidade onde um homem brilhante podia esperar sucesso... Atenas nada teve para Paulo senão riso e desprezo (cf. Actos dos Apóstolos, 17, 16-33). É o fracasso apostólico, em toda a linha. Paulo, espírito agudo e atento ao Mestre, percebe-o imediatamente. Por isso escreverá, mais tarde, aos Coríntios – cidade onde pregou a seguir: «Eu mesmo, quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com o prestígio da palavra ou da sabedoria para vos anunciar o mistério de Deus. Pois não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado» (1 Coríntios, 2, 1-2). Paulo continuou, certamente, a usar todos os seus dotes de comunicador para anunciar Jesus Cristo; mas já não o fazia confiado em si nem no brilho das suas palavras, antes no Espírito, «a fim de que a vossa fé não se baseie sobre a sabedoria dos homens, mas sobre o poder de Deus» (1 Coríntios 2, 5).

Uma Igreja votada ao fracasso?
6. Toda cristianizada há bem mais de um milénio, a Europa actual não olha propriamente o nome de Jesus e o seu Evangelho como uma Boa Nova. Pelo contrário, entre amplas camadas da população e sobretudo entre os decisores políticos desta Europa verifica-se uma «crise da memória e herança cristãs, acompanhada por uma espécie de agnosticismo prático e indiferentismo religioso, fazendo com que muitos europeus dêem a impressão de viver sem substrato espiritual e como herdeiros que delapidaram o património que lhes foi entregue pela história. Por isso, não devem surpreender demasiado as tentativas de dar à Europa um rosto que exclui a sua herança religiosa, e de modo particular a sua profunda alma cristã, fundando os direitos dos povos que a compõem sem enxertá-los no tronco irrigado pela seiva vital do cristianismo» (João Paulo II, Ecclesia in Europa, 7).

7. Lenta mas inexoravelmente, esta indiferença torna-se rejeição activa do cristianismo, julgado expressão de uma humanidade ainda imersa no erro da crença religiosa e também causa de grande parte dos males que afligiram e afligem a humanidade. «Muitos já não conseguem integrar a mensagem evangélica na experiência diária; aumenta a dificuldade de viver a própria fé em Jesus num contexto social e cultural onde é continuamente desafiado e ameaçado o projecto de vida cristã; em vários sectores da vida pública, é mais fácil definir-se agnóstico que crente; tem-se a impressão de que o normal é não crer, enquanto o acreditar teria necessidade de uma legitimação social não óbvia nem automática» (Ecclesia in Europa, 7).

8. Na instauração desta desconfiança cultural face ao cristianismo têm um papel fundamental os grandes meios de comunicação social, a literatura, o cinema... É, a propósito, significativo o acolhimento das massas à enxurrada de obras com pretensões literárias que, sob a capa da ficção, constituem verdadeiras tentativas de falsificação da história do cristianismo e da figura de Jesus, apresentando dos cristãos, e da Igreja Católica em particular, uma imagem profundamente negativa, quando não anti-social – só encontro paralelo na «literatura» panfletária anti-semita dos séculos XIX e XX, alimento cultural da judeofobia que desembocou no holocausto nazi.

9. Devotadas à eliminação de todas as discriminações, as democracias europeias têm-se vindo a constituir no terreno onde mais facilmente medra a única discriminação democraticamente aceitável: a discriminação dos cristãos. Os exemplos são variados e do passado recente e não é necessário enumerá-los – basta lembrar a recusa obstinada dos autores da defunta “Constituição Europeia” em fazer qualquer referência às raízes cristãs da Europa. Os símbolos cristãos, entretanto, são expulsos da praça pública, em nome de um laicismo travestido de laicidade, e as crenças cristãs são impunemente insultadas em público, em nome da liberdade de expressão... Em alguns casos, começa até a vislumbrar-se o advento de novas perseguições, por via judicial, sob o argumento de que, em nome das suas crenças, os cristãos discriminam outros cidadãos.
10. Na raiz desta discriminação, não já latente, mas claramente activa está «a tentativa de fazer prevalecer uma antropologia sem Deus e sem Cristo. Esta forma de pensar levou a considerar o homem como “o centro absoluto da realidade, fazendo-o ocupar falsamente o lugar de Deus e esquecendo que não é o homem que cria Deus, mas é Deus que cria o homem. O esquecimento de Deus levou ao abandono do homem”, por isso “não admira que, neste contexto, se tenha aberto amplo espaço ao livre desenvolvimento do niilismo no campo filosófico, do relativismo no campo gnoseológico e moral, do pragmatismo e também do hedonismo cínico na configuração da vida quotidiana”. A cultura europeia dá a impressão de ser uma “apostasia silenciosa” por parte do homem auto-suficiente, que vive como se Deus não existisse» (Ecclesia in Europa, 9).

O fracasso apostólico e a cruz de Cristo
11.
Fomos uma Igreja poderosa em palavras e também em obras sociais e outras. Fomos uma Igreja poderosa em sabedoria humana, até para proceder à «desmitologização» da própria fé. Fomos uma Igreja capaz de dialogar com o mundo e até de ser mais do mundo do que de Deus. Durante décadas, fizemos teologia a pensar naquilo que o mundo gostaria de ouvir e não naquilo que tínhamos para anunciar ao mundo. Os nossos autores de referência foram os filósofos – em grande parte, ateus – e não os Santos Padres. O nosso livro de cabeceira foi qualquer um, menos a Bíblia. E hoje somos uma Igreja, na Europa, pelo menos à primeira vista, votada ao fracasso, destinada a tornar-se peça de museu – e nem como tal muito considerada. Onde encontrar uma explicação para tal. Referindo-se à coragem dos mártires dos primeiros séculos, escrevia o Cardeal John Henry Newman, no final do séc. XIX: «Donde proveio o espírito tremelicas, receoso e, além disso, ofensivo, a crítica entediosa dos nossos dias molificativos?» (Ensaio a Favor de uma Gramática do Assentimento, p. 464). Pergunta poderosa, porque reveladora de como a Igreja, quando se acomoda ao mundo e perde a coragem do martírio, rapidamente deixa de ser escutada, mesmo se as suas palavras são eloquentes e plenas de sabedoria humana.

12. O século XX foi, é certo, um século de martírio e de mártires cristãos (cf. Ecclesia in Europa, 13), em muitas partes do mundo e também na Europa. Mas nem o sangue dos mártires conseguiu vencer a anemia progressivamente instalada nas Igrejas de uma Europa cansada de si, descrente quanto ao seu futuro, porque inimiga do seu passado: «Muitos baptizados vivem como se Cristo não existisse: repetem-se gestos e sinais da fé sobretudo por ocasião das práticas de culto, mas sem a correlativa e efectiva aceitação do conteúdo da fé e adesão à pessoa de Jesus. Para muitos, as grandes certezas da fé foram substituídas por um sentimento religioso vago e pouco comprometido; difundem-se várias formas de agnosticismo e de ateísmo prático que concorrem para agravar a divergência entre a fé e a vida; muitos deixaram-se contagiar pelo espírito de um humanismo imanentista que enfraqueceu a sua fé, levando-os com frequência, infelizmente, a abandoná-la completamente; assiste-se a uma espécie de interpretação secularista da fé cristã, que a corrói, suscitando uma profunda crise da consciência e da prática moral cristã. Os grandes valores, que inspiraram amplamente a cultura europeia, foram separados do Evangelho, perdendo assim a sua alma mais profunda e dando lugar a vários desvios» (Ecclesia in Europa, 47).

13. O fracasso apostólico! Não há como não passar por aí, até se chegar a ser verdadeiro apóstolo. Não há como não passar por aí para se ser verdadeira Igreja de Cristo. Que Igreja somos na Europa, neste início de Ano Paulino, quando somos convidados a aprender com o Apóstolo: «sede meus imitadores como eu sou de Cristo» (cf. 1 Coríntios 10, 23? O certo é que na Europa actual se desenvolve uma sociedade, em muitos casos, imune ao cristianismo, na qual este parece incapaz de penetrar e se fazer escutar na originalidade do seu dizer: «“Quando o Filho do Homem voltar, encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18, 8). Encontrá-la-á sobre estas terras da nossa Europa de antiga tradição cristã? É uma questão em aberto que indica claramente a profunda dramaticidade de um dos mais sérios desafios que as nossas Igrejas são chamadas a enfrentar. Pode-se dizer, [...], que frequentemente este desafio não consiste tanto em baptizar os novos convertidos, mas em levar os baptizados a converterem-se a Cristo e ao seu Evangelho: nas nossas comunidades, é preciso preocupar-se seriamente em levar o Evangelho da esperança àqueles que estão longe da fé ou se afastaram da prática cristã» (Ecclesia in Europa, 47).

14. A Igreja, depois de ter tentado seduzir e convencer os Europeus do século XX com a sabedoria dos seus discursos, com a força dos seus argumentos ou de, como estratégia de sobrevivência, se ter, em alguns casos, deixado vencer pelo espírito do mundo, a Igreja do século XXI é chamada a apresentar-se aos Europeus sem força nem argumentos de sabedoria humana, sabendo apenas Cristo, e Cristo crucificado: «é necessária uma sólida fidelidade ao próprio Evangelho. Por isso, a pregação da Igreja, em todas as suas formas, deve ser cada vez mais centrada na pessoa de Jesus e orientar sempre mais para Ele. É preciso vigiar para que seja apresentado na sua integridade: não só como modelo ético, mas primariamente como o Filho de Deus, o Salvador único e necessário de todos, que vive e actua na sua Igreja» (Ecclesia in Europa, 48). E assim regressamos a Paulo.

Elias Couto nasceu em 1964. É licenciado em Teologia e Mestre em Filosofia, pela Universidade Católica Portuguesa. Trabalha numa Editorial Católica e colabora habitualmente com a “Agência Ecclesia”. É casado e pai.