Cristo e a Cidade
Um sítio ecuménico que não representa nenhuma Igreja cristã particular; sítio de cristãos empenhados em contribuir, de modo sereno mas eficaz, para tornar presente no espaço público a voz da Igreja de que são membros, na fidelidade ao seu Magistério, propondo-se fazê-lo sem renunciar às exigências da razão nem às da fé cristã.

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O papel decisivo da educação na discussão dos temas 'fracturantes'

Em tempos de vidas e razão fragmentadas, sem interioridade, alteridade e transcendência, urge educar para a construção de um homem espiritual que consiga experienciar este encontro unificador quando, num mesmo movimento, mobiliza interioridade reconciliada e radical abertura à alteridade, imanência finita e encontro com o “rosto” infinito do Outro.

Por José Luís Gonçalves


1. O espaço público mediático dos últimos tempos tem sido continuadamente inundado com temas ditos ‘fracturantes’, nomeadamente os que visam inscrever na agenda política das eleições que se avizinham referendos vários, entre os quais o da eutanásia e do casamento de pessoas de tendência homossexual, depois de já se ter referendado a legalização da interrupção voluntária da gravidez. Esta dinâmica comunicacional acaba, invariavelmente, por delimitar os campos dos ‘progressistas’ – pró – e dos ‘conservadores’ – contra –, indexando-se a Igreja a este último grupo. A nosso ver, a toda a discussão substantiva dos temas devia preceder uma reflexão dos fundamentos antropológicos e civilizacionais que subjazem aos argumentos dos disputantes. E se essa discussão serena é difícil de fazer na arena política mediatizada, de ciclos curtos e ideias marteladas, o discernimento lúcido faz-nos crer que a esperança deste aprofundamento pode estar no espaço da educação e na preparação dos seus protagonistas. Nesse espaço percebemos o que nos separa e o que nos une ao nível dos fundamentos. O espaço educativo constitui o lugar desta batalha cultural, no sentido de uma conflitualidade saudável de reconfiguração de identidades (culturais), por via do diálogo de uma comunidade argumentativa, em ordem a alcançar consensos sociais para uma vida de paz.

2. É neste contexto que propomos uma breve incursão sobre a premência de uma educação que aponte para a necessidade da transcendência como constitutiva do ser humano, ou seja, cremos que os temas acima citados não podem ser discutidos somente no registo da razão monológica da Ilustração europeia, mas carecem da contribuição da corrente de pensamento judaico-cristã deliberadamente colocada sobre pressão na esfera pública. É nossa intenção problematizar brevemente a noção de “Homem espiritual” que se situa, desde logo, no horizonte de uma noção de educação entendida como ‘realização antropológica’ – a humanização do homem – revestida de uma intencionalidade pedagógica, mas neste texto filosoficamente explicitada. Ou seja, a problemática do ‘Homem espiritual’ que desejamos abordar assume-se sob o olhar da filosofia da educação entendida como um discurso reflexivo sobre os fundamentos, os fins e os valores do acto educativo.
Numa época caracterizada, por um lado, pela razão plural e fragmentada e, por outro lado, pelo recrudescimento espiritualista difuso, será legítimo perguntar-se se uma das finalidades da educação poderá consistir na construção do “Homem espiritual” e em que medida tal construção pode ter repercussões positivas na discussão dos temas supra citados. Se considerarmos esta uma tentativa que vale a pena fazer, devem-se trazer à reflexão os paradigmas antropológicos, aparentemente contraditórios, que subjazem aos projectos educativos contemporâneos na construção deste ‘Homem espiritual’, para que o debate se realize sobre pressupostos antropológicos e ontológicos transparentes. E se esta intencionalidade resistir e persistir, então, uma pergunta/desafio se impõe: Pode a educação ignorar ou escamotear o desejo infinito do espírito humano na sua busca radical do sentido último e unificador da existência que, num movimento de transcendência, define o Homem como relação e abertura ao Ser?

3. Nos nossos dias, a noção de pessoa humana encontra-se à deriva de significado, fruto do impasse paradigmático resultante da discussão acesa entre correntes humanistas e anti-humanistas. Mais radicalmente, a pessoa encontra-se hoje, sobretudo, numa crise profunda de projecto existencial, vital e de sentido, com reflexos visíveis nos impasses antropológicos de que a pluralidade dos paradigmas educativos são espelho. Uma breve fenomenologia da condição humana actual não resiste à constatação da ausência de transcendência no existir humano e que se caracteriza, a nosso ver, a três níveis:
A ausência de interioridade que faz a pessoa oscilar entre dois mundos: fechada num racionalismo cartesiano, a pessoa entende-se a si mesma como fundamento de si; mas, não sendo origem de si, percebe na sua vulnerabilidade a carência relacional para si e para o outro. Numa vida frenética e monológica não encontra tempo para a solidão fecunda que responda à pergunta formulada por Virgílio Ferreira “Quem me habita?”.
A ausência de alteridade resulta de uma ‘coisificação do outro’ nas relações quotidianas, tornando o outro instrumento da sua realização em função dos seus desejos e caprichos. Quando se relaciona com o outro ‘feito coisa’ frustra-se numa pobreza que não o personaliza. Esta é a alienação do homem neoliberal: espera que a posse e uso de pessoas, instrumentos e artefactos lhe forneçam um sentido de vida. Na verdade, carece da experiência ética primeira que é o encontro com o “rosto do outro” na sua alteridade, condição constituinte da espiritualidade, de produção de sentido humano e de aprofundamento da interioridade.
A crise de transcendência de que padece o homem contemporâneo resulta de um tríplice equívoco: do seu endeusamento, em que não tem olhos para perscrutar o Alto (Outro-Absoluto); da sua vida frenética, em que não se atreve a olhar mais Fundo (interioridade); do seu egoísmo que impede a generosidade para olhar para o Lado (Alteridade).

4. Esta fenomenologia crítica do homem contemporâneo, os consequentes desvios de que padece, exige o resgate da integralidade do ser humano através da esfera educativa e a necessidade de revisitar as suas bases antropológicas fundacionais. Neste pressuposto, as diversas concepções de ‘Homem’ que emergiram na história do pensamento ocidental constituíram a base axiológica e os paradigmas dos vários projectos educativos que deram corpo às mais variadas práticas pedagógicas da sua história. O espaço sócio-cultural e a noção de história pela qual nos designamos de Ocidente resultaram da mestiçagem axiologia proveniente de Atenas, Jerusalém e Roma e encontraram no campo da educação terreno fértil para a sua germinação. Porque imbricados nas mentalidades, a destrinça dos seus traços diferenciadores é hoje filosoficamente complicada, mas pode-se afirmar uma distinção radical de origem nas leituras de homem e de mundo que inspiraram as duas grandes correntes filosóficas que ainda hoje se encontram em tensão e conflito: de um lado o espírito greco-romano e, do outro lado, o mundo representado pela concepção judaico-cristã. Dizendo de outra forma e numa linguagem filosófica, o Ocidente resulta do encontro e fusão de horizontes entre a Metafísica da Natureza (grega) e a Metafísica da Liberdade (judaico-cristã), entre a razão cósmica e a razão histórica. Sem tempo para aprofundar estas ideias neste espaço, cremos, sem sombra de dúvidas, serem estas linhas diferenciadoras as bases dos dois projectos antropo-ontológicos que se enfrentam no espaço público contemporâneo e que podem, em sede de educação, tornar mais transparentes os seus princípios inspiradores e que têm fortes repercussões nos modelos educativos que visam a construção do ‘Homem espiritual’.

5. Não obstante a diversidade destas concepções clássicas de ‘Homem’, subjaz às mesmas uma utopia do humano que incorpora uma dimensão ‘transcendental’ do mesmo homem, um iniludível desejo de transcendência inscrito nas profundezas do coração humano, uma aspiração à felicidade incondicionada que impregnou os ideais educativos do Ocidente nas suas mais variadas correntes. Contudo, se estas concepções antropológicas aparentam essa sede de ‘realização antropológica’ que as une, a visão de mundo que as sustenta divide ainda hoje – e muitas vezes sem disso terem consciência – os mais diversos actores educativos. Na óptica da filosofia da educação, todo o discurso e os respectivos temas – neste caso, o ‘homem espiritual’ – deve ser compreendido dentro da história dos discursos, na diversidade e pluralidade discursiva que interroga a noção e o alcance da transcendência do Homem. É aqui que se inicia uma divergência de fundo…

6. Em tempos de vidas e razão fragmentadas, sem interioridade, alteridade e transcendência, urge educar para a construção de um homem espiritual que consiga experienciar este encontro unificador quando, num mesmo movimento, mobiliza interioridade reconciliada e radical abertura à alteridade, imanência finita e encontro com o “rosto” infinito do Outro. Só esta experiência é constitutiva da sua identidade ontológica, porque profundamente humana, aquela que não consegue pensar a felicidade e a eternidade senão como prolongamento, de forma infinita, dessa experiência plena de sentido. Cumprir, assim, o objectivo educativo maior de “acordar a interioridade” pode constituir a pedra de toque para o desencadear da “atracção íntima necessária às escolhas verdadeiramente humanas” de que a vida social e política tanto carecem. Para que esta realização antropológica se efective, devem-se cultivar, em sede educativa, espaços de interiorização, silêncio, integração da transcendência que há em nós e encontro autênticos com a alteridade. Habituar o olhar à paciência contemplativa pode ser um caminho que leve a uma discussão pública dos temas ‘fracturantes’ a partir de um outro ângulo…