O papel decisivo da educação na discussão dos temas
'fracturantes'
Em tempos
de vidas e razão fragmentadas, sem interioridade,
alteridade e transcendência, urge educar para a
construção de um homem espiritual que consiga
experienciar este encontro unificador quando, num mesmo
movimento, mobiliza interioridade reconciliada e radical
abertura à alteridade, imanência finita e encontro com o
“rosto” infinito do Outro.
1. O espaço público mediático dos últimos tempos tem sido
continuadamente inundado com temas ditos ‘fracturantes’,
nomeadamente os que visam inscrever na agenda política
das eleições que se avizinham referendos vários, entre os
quais o da eutanásia e do casamento de pessoas de
tendência homossexual, depois de já se ter referendado a
legalização da interrupção voluntária da gravidez. Esta
dinâmica comunicacional acaba, invariavelmente, por
delimitar os campos dos ‘progressistas’ – pró – e dos
‘conservadores’ – contra –, indexando-se a Igreja a este
último grupo. A nosso ver, a toda a discussão substantiva
dos temas devia preceder uma reflexão dos fundamentos
antropológicos e civilizacionais que subjazem aos
argumentos dos disputantes. E se essa discussão serena é
difícil de fazer na arena política mediatizada, de ciclos
curtos e ideias marteladas, o discernimento lúcido
faz-nos crer que a esperança deste aprofundamento pode
estar no espaço da educação e na preparação dos seus
protagonistas. Nesse espaço percebemos o que nos separa e
o que nos une ao nível dos fundamentos. O espaço
educativo constitui o lugar desta batalha cultural, no
sentido de uma conflitualidade saudável de reconfiguração
de identidades (culturais), por via do diálogo de uma
comunidade argumentativa, em ordem a alcançar consensos
sociais para uma vida de paz.
2. É neste contexto que propomos uma breve incursão sobre
a premência de uma educação que aponte para a necessidade
da transcendência como constitutiva do ser humano, ou
seja, cremos que os temas acima citados não podem ser
discutidos somente no registo da razão monológica da
Ilustração europeia, mas carecem da contribuição da
corrente de pensamento judaico-cristã deliberadamente
colocada sobre pressão na esfera pública. É nossa
intenção problematizar brevemente a noção de “Homem
espiritual” que se situa, desde logo, no horizonte de uma
noção de educação entendida como ‘realização
antropológica’ – a humanização do homem – revestida de
uma intencionalidade pedagógica, mas neste texto
filosoficamente explicitada. Ou seja, a problemática do
‘Homem espiritual’ que desejamos abordar assume-se sob o
olhar da filosofia da educação entendida como um discurso
reflexivo sobre os fundamentos, os fins e os valores do
acto educativo.
Numa época caracterizada, por um lado, pela razão plural
e fragmentada e, por outro lado, pelo recrudescimento
espiritualista difuso, será legítimo perguntar-se se uma
das finalidades da educação poderá consistir na
construção do “Homem espiritual” e em que medida tal
construção pode ter repercussões positivas na discussão
dos temas supra citados. Se considerarmos esta uma
tentativa que vale a pena fazer, devem-se trazer à
reflexão os paradigmas antropológicos, aparentemente
contraditórios, que subjazem aos projectos educativos
contemporâneos na construção deste ‘Homem espiritual’,
para que o debate se realize sobre pressupostos
antropológicos e ontológicos transparentes. E se esta
intencionalidade resistir e persistir, então, uma
pergunta/desafio se impõe: Pode a educação ignorar ou
escamotear o desejo infinito do espírito humano na sua
busca radical do sentido último e unificador da
existência que, num movimento de transcendência, define o
Homem como relação e abertura ao Ser?
3.
Nos nossos dias, a noção de pessoa humana encontra-se à
deriva de significado, fruto do impasse paradigmático
resultante da discussão acesa entre correntes humanistas
e anti-humanistas. Mais radicalmente, a pessoa
encontra-se hoje, sobretudo, numa crise profunda de
projecto existencial, vital e de sentido, com reflexos
visíveis nos impasses antropológicos de que a pluralidade
dos paradigmas educativos são espelho. Uma breve
fenomenologia da condição humana actual não resiste à
constatação da ausência de transcendência no existir
humano e que se caracteriza, a nosso ver, a três níveis:
A ausência de interioridade que faz a pessoa oscilar
entre dois mundos: fechada num racionalismo cartesiano, a
pessoa entende-se a si mesma como fundamento de si; mas,
não sendo origem de si, percebe na sua vulnerabilidade a
carência relacional para si e para o outro. Numa vida
frenética e monológica não encontra tempo para a solidão
fecunda que responda à pergunta formulada por Virgílio
Ferreira “Quem me habita?”.
A ausência de alteridade resulta de uma ‘coisificação do
outro’ nas relações quotidianas, tornando o outro
instrumento da sua realização em função dos seus desejos
e caprichos. Quando se relaciona com o outro ‘feito
coisa’ frustra-se numa pobreza que não o personaliza.
Esta é a alienação do homem neoliberal: espera que a
posse e uso de pessoas, instrumentos e artefactos lhe
forneçam um sentido de vida. Na verdade, carece da
experiência ética primeira que é o encontro com o “rosto
do outro” na sua alteridade, condição constituinte da
espiritualidade, de produção de sentido humano e de
aprofundamento da interioridade.
A crise de transcendência de que padece o homem
contemporâneo resulta de um tríplice equívoco: do seu
endeusamento, em que não tem olhos para perscrutar o Alto
(Outro-Absoluto); da sua vida frenética, em que não se
atreve a olhar mais Fundo (interioridade); do seu egoísmo
que impede a generosidade para olhar para o Lado
(Alteridade).
4.
Esta fenomenologia crítica do homem contemporâneo, os
consequentes desvios de que padece, exige o resgate da
integralidade do ser humano através da esfera educativa e
a necessidade de revisitar as suas bases antropológicas
fundacionais. Neste pressuposto, as diversas concepções
de ‘Homem’ que emergiram na história do pensamento
ocidental constituíram a base axiológica e os paradigmas
dos vários projectos educativos que deram corpo às mais
variadas práticas pedagógicas da sua história. O espaço
sócio-cultural e a noção de história pela qual nos
designamos de Ocidente resultaram da mestiçagem axiologia
proveniente de Atenas, Jerusalém e Roma e encontraram no
campo da educação terreno fértil para a sua germinação.
Porque imbricados nas mentalidades, a destrinça dos seus
traços diferenciadores é hoje filosoficamente complicada,
mas pode-se afirmar uma distinção radical de origem nas
leituras de homem e de mundo que inspiraram as duas
grandes correntes filosóficas que ainda hoje se encontram
em tensão e conflito: de um lado o espírito greco-romano
e, do outro lado, o mundo representado pela concepção
judaico-cristã. Dizendo de outra forma e numa linguagem
filosófica, o Ocidente resulta do encontro e fusão de
horizontes entre a Metafísica da Natureza (grega) e a
Metafísica da Liberdade (judaico-cristã), entre a razão
cósmica e a razão histórica. Sem tempo para aprofundar
estas ideias neste espaço, cremos, sem sombra de dúvidas,
serem estas linhas diferenciadoras as bases dos dois
projectos antropo-ontológicos que se enfrentam no espaço
público contemporâneo e que podem, em sede de educação,
tornar mais transparentes os seus princípios inspiradores
e que têm fortes repercussões nos modelos educativos que
visam a construção do ‘Homem espiritual’.
5.
Não obstante a diversidade destas concepções clássicas de
‘Homem’, subjaz às mesmas uma utopia do humano que
incorpora uma dimensão ‘transcendental’ do mesmo homem,
um iniludível desejo de transcendência inscrito nas
profundezas do coração humano, uma aspiração à felicidade
incondicionada que impregnou os ideais educativos do
Ocidente nas suas mais variadas correntes. Contudo, se
estas concepções antropológicas aparentam essa sede de
‘realização antropológica’ que as une, a visão de mundo
que as sustenta divide ainda hoje – e muitas vezes sem
disso terem consciência – os mais diversos actores
educativos. Na óptica da filosofia da educação, todo o
discurso e os respectivos temas – neste caso, o ‘homem
espiritual’ – deve ser compreendido dentro da história
dos discursos, na diversidade e pluralidade discursiva
que interroga a noção e o alcance da transcendência do
Homem. É aqui que se inicia uma divergência de fundo…
6. Em tempos de vidas e razão fragmentadas, sem
interioridade, alteridade e transcendência, urge educar
para a construção de um homem espiritual que consiga
experienciar este encontro unificador quando, num mesmo
movimento, mobiliza interioridade reconciliada e radical
abertura à alteridade, imanência finita e encontro com o
“rosto” infinito do Outro. Só esta experiência é
constitutiva da sua identidade ontológica, porque
profundamente humana, aquela que não consegue pensar a
felicidade e a eternidade senão como prolongamento, de
forma infinita, dessa experiência plena de sentido.
Cumprir, assim, o objectivo educativo maior de “acordar a
interioridade” pode constituir a pedra de toque para o
desencadear da “atracção íntima necessária às escolhas
verdadeiramente humanas” de que a vida social e política
tanto carecem. Para que esta realização antropológica se
efective, devem-se cultivar, em sede educativa, espaços
de interiorização, silêncio, integração da transcendência
que há em nós e encontro autênticos com a alteridade.
Habituar o olhar à paciência contemplativa pode ser um
caminho que leve a uma discussão pública dos temas
‘fracturantes’ a partir de um outro ângulo…
