Cristo e a Cidade
Um sítio ecuménico que não representa nenhuma Igreja cristã particular; sítio de cristãos empenhados em contribuir, de modo sereno mas eficaz, para tornar presente no espaço público a voz da Igreja de que são membros, na fidelidade ao seu Magistério, propondo-se fazê-lo sem renunciar às exigências da razão nem às da fé cristã.

Imprimir esta página

Prudentes como as serpentes e simples como as pombas

Bom… prudente como as serpentes deveria ter sido, com todo o respeito e em espírito de correcção fraterna, o Sr. D. Januário, não aceitando o convite que lhe terá sido feito.

Por Pedro Miranda

Em Mt 10, 16-23, Nosso Senhor, depois de escolher os doze e de os enviar em missão à sua frente, expôs-lhes várias advertências úteis à execução da mesma missão; e abre logo com a seguinte, bem familiar aos nossos ouvidos: “Envio-vos como ovelhas para o meio de lobos; sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas” E ainda: “Tende cuidado com os homens…” O contexto desta sentença conduz naturalmente a sua interpretação para a inevitabilidade, na condição do discípulo de Cristo, de se tornar frequentemente sinal de contradição, à maneira do próprio Jesus, que sem fugir ao debate e ao confronto franco e aberto umas vezes, outras se soube demarcar para não ficar comprometido com aquilo que é ambíguo e indefinido; recorde-se o caso do debate sobre o tributo a César, na Liturgia da Palavra num destes últimos domingos.

O que me fez lembrar aquela advertência do Evangelho foi uma intervenção de opinião da Drª Maria de Belém, ex-ministro da Saúde, actualmente deputada do Partido Socialista. A intervenção acontecia num programa matinal da Antena 1 da RDP, de grande audiência, a propósito da homenagem (uma condecoração do Estado) promovida pelo Presidente da República aos 4 principais pioneiros da Bioética em Portugal, com actuação relevante também internacionalmente: os Drs Daniel Serrão, Walter Osvald, Jorge Biscaia e o Padre Luís Archer, jesuíta. Quem se interessa por estas coisas sabe que, coincidência ou não, todas estas pessoas, de facto e sem dúvida os fundadores da Bioética em Portugal, são católicos assumidos e sem fingimento, mesmo sem andarem sempre com essa bandeira à frente, porque não é isso o que ali importa, mas sim a defesa e promoção dos valores éticos ao serviço do superior interesse de toda a pessoa. A Drª Maria de Belém também o sabe e, provavelmente por isso, depois de realçar a plena justiça desta homenagem, referiu ainda outros contributos mais recentes, ao mesmo tempo que dava ênfase especial à natural falta de unanimidade, quanto mais não seja naquilo que ela definiu como a parte subjectiva, que seria a interpretação dos princípios ético-morais para os aplicar à realidade. Nesse contexto, referiu o próximo lançamento de um livro do Dr. Miguel Oliveira e Silva, médico obstetra, a assinalar a passagem de 40 anos sobre a edição da profética encíclica de Paulo VI “Humanae Vitae”, sobre o valor da vida humana e as incidências ético-morais na vida sexual, na família e, muito concretamente nos métodos de regulação dos nascimentos; é a directamente antecessora da “Evangelium Vitae”, de João Paulo II. Ora, o autor deste livro, tanto como a própria Drª Maria de Belém, foram, cada um a seu modo, públicos e notórios promotores e defensores da liberalização do aborto em Portugal até às dez semanas de gestação pago pelo Serviço Nacional de Saúde; perfilhando opiniões directamente contrárias à Humanae Vitae, pertencem, como o mostraram abundantemente, ao grupo dos que conseguem interpretar o princípio da inviolabilidade da vida humana para o adequar à realidade de modo a ele ser compatível com a eliminação de seres humanos indefesos e sem voz. É, por isso, significativo que a Drª Maria de Belém tenha escolhido para referir como um dos apresentadores do livro o Sr. D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas. Não lhe serviu para engrandecer a importância do acontecimento e do livro o outro apresentador, o Dr. Albino Aroso, pai do planeamento familiar do Serviço Nacional de Saúde e também importante paladino do aborto a pedido.

Quem são os simples como as pombas? São os leigos que, muitos ou poucos, Deus sabe, nos serviços de saúde, nas escolas, nas Associações de Pais, nas instituições de apoio às mulheres grávidas e aos recém-nascidos em perigo, na Justiça, através do exercício exigente e coerente da sua profissão, não fogem ao debate e à contradição, participam na vida comunitária e pública, esforçando-se por semear aí os valores eternos do humano que o Evangelho proclama. São-no, ainda, todos aqueles que representam oficialmente a Igreja nas instâncias oficiais apropriadas, internacionais ou nacionais, e persistentemente fazem ouvir a voz da Igreja em defesa desses mesmo valores, contribuindo pela sua e nossa parte para a paz e o desenvolvimento humano. São simples porque assumem o debate e a casa humana comum onde ele decorre, sem se porem, fanaticamente, quais puros inconspurcáveis, de fora.

Quem são os prudentes como as serpentes? Bom… prudente como as serpentes deveria ter sido, com todo o respeito e em espírito de correcção fraterna, o Sr. D. Januário, não aceitando o convite que lhe terá sido feito. Por uma razão muito simples: o lançamento de um livro não é uma instância de debate, nem oficial nem oficiosa, é uma sessão de publicidade a um livro que se pretende seja conhecido, vendido e comprado; o seu autor já se definiu substancialmente quanto à matéria em causa como de campo claramente oposto ao do Sr. Bispo, como aliás ambos demonstraram no referendo sobre o aborto. Portanto, por melhores que possam ser as intenções do Sr. Bispo em participar naquele lançamento como apresentador do livro, naquelas circunstâncias elas não podem transparecer. E eis um bispo usado como trunfo na promoção de ideias que ele não quererá, acredito, promover; além de não desejar também, acredito, confundir e escandalizar os seus, por cuja fortaleza no testemunho cristão tem obrigação de velar.

A Igreja não está dividida em simples como as pombas e prudentes como as serpentes; todos temos que ser as duas coisas, com humildade e coragem.