Cristo e a Cidade
Um sítio ecuménico que não representa nenhuma Igreja cristã particular; sítio de cristãos empenhados em contribuir, de modo sereno mas eficaz, para tornar presente no espaço público a voz da Igreja de que são membros, na fidelidade ao seu Magistério, propondo-se fazê-lo sem renunciar às exigências da razão nem às da fé cristã.

Imprimir esta página

A epistemologia reformada e a noção de personalidade (parte I)

O que está em questão é como os seres humanos processam uma realidade estruturada que eles próprios não criaram, como as crenças desempenham um papel integrante nisso, e, especificamente, como as crenças cristãs lidam com esta situação, e como finalmente tudo isto revela a personalidade enquanto o único aspecto da vida humana pelo qual Cristo morreu.

Por Manuel Sumares


A tese pela qual a Epistemologia Reformada é conhecida é bastante simples: a crença em Deus, e em particular no Deus cristão, pode ser racionalmente reconhecida mesmo com escassas ou até nenhumas provas. Apesar de ter conquistado o seu próprio espaço dentro do domínio da epistemologia religiosa contemporânea, a ideia de “reconhecimento sem provas”, que é principalmente identificada com o pensamento de William Alston, Alvin Plantinga e Nicholas Wolterstorff, parece ser quase contra-intuitiva não só para a tendência naturalista e secularista do pensamento contemporâneo, como também para uma grande parte da apologética cristã tradicional que argumenta a partir de evidência e probabilidade. Contudo, de uma forma análoga ao actual movimento dentro da cultura teológica católica em torno da ideia de Ortodoxia Radical, a inspiração predominantemente calvinista por detrás da Epistemologia Reformada propõe também uma leitura correctiva da história intelectual ocidental, a qual justificaria e fundamentaria a sua provocante tese
Mark. Muito do trabalho dos autores de ambos movimentos envolve a identificação de tudo aquilo que correu mal, para depois, confiantes de que a ortodoxia cristã está de facto correcta, continuarem a expandir o pensamento sobre Deus por uma via mais promissora, “para além da razão secular.”

Uma comparação mais extensa entre as duas propostas para um pensamento pós-secular não é será aqui pertinente
2. Porém, é muito revelador que ambas lidem criativamente com o desafio da pós-modernidade, que ambas advoguem um realismo robusto que admite a contingência, e que ambas encontrem o modelo para medir a batalha espiritual pelo espírito humano nos termos da noção de Agostinho das Duas Cidades: a terrena marcada pelo desejo de poder; a de Deus dedicada a Ele no espírito da caridade e do perdão. Por exemplo, em Theology and Social Theory, a obra inaugural da Ortodoxia Radical que é explicitamente estruturada em torno da ideia das Duas Cidades, John Milbank posiciona a contribuição católica de Maurice Blondel para o pensamento moderno no centro da sua interpretação de Agostinho. Para Milbank, Blondel, “[…] mais do que qualquer outra pessoa, indica-nos o caminho para além da razão secular” ao re-situar temas modernos no contexto mais profundo das suas raízes agostinianas3. Por sua vez, Alvin Platinga vê o campo de batalha cultural também como definido por Agostinho, mas lido através do calvinista holandês Abraham Kuyper do séc. XIX, que “falou de uma antítese entre crenças – a crença cristã – e a descrença, uma antítese que de um modo ou de outro atravessa e se manifesta em qualquer área importante da vida humana” 4.

Assim, em relação aos epistemólogos Reformados e ao nosso interesse em formular aquilo que têm a dizer acerca da personalidade, a tentativa de reiterar a natureza da crença através de uma reforma literal da empresa epistemológica é bem marcada por uma intenção apologética. Esta parte da suposição de que na época moderna se deixou para trás algo muito importante acerca da crença que precisa agora de ser recuperado, e que existe uma verdade que é necessário trazer à luz da inteligência humana. E, assim como Agostinho se apercebeu ser o caso, tal exigirá pegar nas armas mais poderosas de natureza filosófica e teológica, isto é, do tipo reconhecido como tal na nossa era, uma vez que de facto o que está em jogo é considerável: nada menos do que a alma humana. É neste aspecto que o tema da personalidade é relevante e é aqui que a metafísica teísta tem que reconquistar o espaço agora ocupado por variadas formas de pensamento naturalista para que a plena dimensão da personalidade possa ser contemplada.

É necessário confessar à partida que o tema da personalidade não aparece como central nos textos de Alston, Plantinga e Wolterstorff. Contudo, a sua postura marcadamente realista e externalista, e, de uma forma explícita nestes três casos, inspirada na tese de fiabilidade de Thomas Reid em relação à crença, consegue identificar a natureza das pessoas humanas e propor como estas poderão crescer enquanto personalidades. A isto, podemos acrescentar ainda a sua convicção acerca da natureza auto-autenticante da revelação bíblica, que, em certas circunstâncias, é digna de ser qualificada como estando incluída no âmbito das crenças básicas, a par com a percepção e com a memória: somos assim dados a ver uma imagem da pessoa humana enquanto envolvida em comunicação divina, podendo ela ter ou não consciência disso. O que está em questão é como os seres humanos processam uma realidade estruturada que eles próprios não criaram, como as crenças desempenham um papel integrante nisso, e, especificamente, como as crenças cristãs lidam com esta situação, e como finalmente tudo isto revela a personalidade enquanto o único aspecto da vida humana pelo qual Cristo morreu.

Destes três epistemologistas Reformados, ainda que todos forneçam uma argumentação analítica exaustiva para o seu entendimento da crença, é talvez Wolterstorff, cujas publicações abrangem as mais variadas áreas, quem nos consegue levar melhor ao cerne da questão da personalidade
5. Apesar das objecções kantianas, é particularmente o seu interesse na possibilidade espontânea de falar acerca de Deus e de Deus falar connosco que poderemos descobrir um intrigante caminho para o interior da questão. De facto, esse é o tema do seu Divine Discourse: Philosophical Reflections on the Claim that God Speaks6. A implicação é que a realidade é em última análise profundamente comunicativa e pessoal, e que a acção precede a contemplação. Mas, como tínhamos acabado de sugerir, é acima de tudo Kant quem tem primariamente de ser confrontado e superado. E de uma forma bem explícita, é precisamente isso que Wolterstorff tenta fazer em Reason within the Bounds of Religion e “Is It Possible and Desirable for Theologians to Recover from Kant?” 7, os quais usam como referência o contexto da problemática de Divine Discourse.

No que se seguirá, vamos começar com a questão levantada neste último ensaio para então retroceder para as obras mais antigas, invertendo os termos apresentados na grande obra de Kant, com a insinuação de que terá entendido as coisas ao contrário. Como veremos, isto permitir-nos-á entrar directamente na natureza da crença proposta pela Epistemologia Reformada, ao mesmo tempo que nos concentramos na questão da pessoa humana como simultaneamente racionalmente responsável e contudo pertencente à economia da graça divina dada a partir do exterior do sistema da natureza. Logicamente, isto quererá dizer que, se a crença cristã é racionalmente justificável e plausível e, como tudo indica, mais do que provavelmente verdadeira, aquilo que a personalidade envolve excede os limites da natureza. A personalidade humana é assim estruturada para saber e desejar aquilo que Blondel, referindo-se a uma personalidade divina, apelidou de
l’unique nécessaire. Este sustenta e opera nos seres humanos, mas encontra-os todavia a partir do exterior dos limites da sua actividade natural. Falando em termos blondelianos, um poder que esteja agindo implicitamente na imanência da acção humana necessita ser apelado enquanto aquilo que também lhe é transcendente para que essa mesma acção possa alcançar a fruição à qual estava destinada à partida. Ou, tal como Wolterstorff tem sublinhado ao longo da sua obra, que envolve a descida de Shalom sobre a humanidade.


Corrigindo Kant
Uma estudante vem falar com Wolterstorff no seu gabinete na Yale Divinity School e menciona o quanto ela apreciou o facto de Wolterstorff ter simplesmente começado a falar sobre Deus em Divine Discourse. “Is It Possible and Desirable for Theologians to Recover from Kant?” começa com uma breve transcrição da conversa com esta estudante e com o comentário adicional da mesma acerca de como os teólogos modernos nos inibem de simplesmente falar acerca de Deus de uma forma aberta: querem que comecemos por declarar o que pode ser dito acerca de Deus antes de falarmos acerca Dele. Admitindo as excepções à regra como a obra Perceiving God de Alston, o resto do texto é uma meditação sobre o que é que poderia ter perturbado tanto esta estudante, e como os seus estudos constituem uma frustração para aquilo que a atraiu para a teologia em primeiro lugar: ela queria falar sobre Deus, o Deus sobre o qual tinha aprendido na sua dedicação ao ler as escrituras, ao participar nas práticas litúrgicas da sua igreja, e ao rezar sozinha. “[…] foi a sua formação religiosa prévia (e presente) que fizeram com que ela quisesse dizer coisas acerca de Deus – e sem dúvida, dizer coisas a Deus”8. Durante a sua formação académica, todavia, descobriu que este caminho estava bloqueado pelas “ansiosas” questões kantianas, nomeadamente “Podemos?”, “Como podemos?”. Para Wolterstorff, “Esta é a agonia, a agonia kantiana, do teólogo moderno. Desde Kant, uma boa parte dos nossos teólogos tem falado com muito mais confiança acerca da existência da Grande Fronteira do que acerca da existência de Deus”9. Se pensar sobre Deus e falar sobre Deus for de todo possível, tem que se levantar a questão se esse tal pensar e esse falar são realmente acerca de Deus. De facto, “Será a fé sequer possível, nos termos de Kant?” 10

Este ensaio mais recente constitui um eco de um esforço muito mais antigo para re-situar a metáfora da fronteira no que se refere à relação entre a razão filosófica e a crença religiosa.
Grosso modo, não cabe à razão legislar o que pode ser pensado e dito acerca da experiência religiosa e dos seus modos particulares de crença; em vez disso, a crença em geral e a crença religiosa em particular poderão ser melhor compreendidas enquanto necessariamente activas nos processos racionais. Tal proposta constitui naturalmente a temática de Reason within the Bounds of Religion, mas deve-se fazer nota de que o tópico é tratar o potencial dilema que o compromisso duplo de um estudioso cristão implica: o compromisso à fé e o compromisso ao domínio do seu trabalho académico11.

No seu trabalho prévio, Wolterstorff argumenta que um bom estudo epistemológico sobre a forma como um determinado projecto de investigação progride deveria tratar as crenças como dados imediatos, como informação, e depois registar como é que estes são equacionados na avaliação de uma teoria.
Ao avaliar uma teoria, uma pessoa traz sempre consigo um complexo das suas próprias crenças. Não é possível despir-se de todas as crenças, apenas daquelas que funcionam como informação relativa à teoria que está sendo avaliada. Pelo contrário, fica-se selado em crença – consciente de algumas partes do invólucro, inconsciente da maior parte12.

Por outras palavras, não é possível existir uma objectividade desinteressada, uma vez que se pressupõe um compromisso prévio na análise e assimilação dos dados. Para sublinhar a natureza deste compromisso implícito, Wolterstorff designará este complexo de crenças como “crenças de informação prévia”. Mas o que ainda é mais significativo, é que entre estas crenças de informação prévia existe o que ele descreve como “crenças de controlo”, isto é, aquelas que filtram os tipos de teorias que se adequam ao conteúdo das crenças daqueles tipos que não se adequam. São também um motivo para construir o tipo de teoria que encaixa melhor com as exigências das crenças de controlo. A consciência de tais crenças de controlo dificilmente contorna o seu funcionamento efectivo na mente de um estudioso cristão. De facto, Wolterstorff chega a declarar que, “[…] as crenças religiosas de um investigador cristão deveriam funcionar como crenças de controlo dentro da sua elaboração e apreciação de teorias”13. Apesar disso, e felizmente, admite que as descobertas produzidas pela investigação possam ter um efeito correctivo na constituição das crenças de controlo14.

Todavia, do seu trabalho anterior, o que é realmente crucial para o objecto da nossa discussão é a noção de compromisso no centro da teorização. Para tornar isto claro, Wolterstorff recorda-nos as origens religiosas da ideia grega de
theoria. Um theoros era um homem enviado por uma cidade grega para observar, isto é, para contemplar, as celebrações de uma outra comunidade. Com o tempo, theoria tornou-se numa ocupação filosófica em que o theoros contempla o cosmos com o objectivo de entrar em harmonia com as suas leis. Através de mimesis, um processo sincronizante produz um efeito libertador no praticante, o qual é assim melhorado, talvez até mesmo transformado. Daí a justificação implícita da teorização: o tornar-se melhor através do envolvimento com aquilo que é efectivamente contemplado de acordo com os termos daquilo que é contemplado. Admitindo que uma teoria orientada para a prática procuraria resultados pragmáticos para além do puro conhecimento, Wolterstorff concentra a sua atenção em três tipos de justificação que permitam que a alteração dos estados cognitivos do teorizador tenha uma importância especial. Por exemplo, a “justificação baconiana” reconhece o valor inerente do poder que o conhecimento produz no conhecedor de modo a que este possa exercer domínio sobre o seu ambiente. Por muito relevantes que as repercussões da justificação baconiana possam ser para o modo como se lida com a natureza e a sociedade, a comparação entre a “justificação aquinina” e a “justificação kantiana” tem mais a ver com o que estamos aqui discutindo.

A justificação kantiana é vista como uma versão da justificação aquinina e como particularmente proeminente nos hábitos intelectuais cultivados no Ocidente. Tal como Tomás de Aquino, Kant compreendeu que o conhecimento tem valor inerente, mas não tinha à partida uma preferência por um objecto de conhecimento em particular. Segundo o projecto de Kant,
[…] o objectivo é que cada um de nós contribua para um corpo de conhecimento que constitua um avanço em relação ao que temos actualmente, no que diz respeito à sua completude e unidade. Mas na verdade, nunca nenhuma pessoa terá individualmente esse corpo de conhecimento melhorado. Este será compartilhado por uma comunidade de estudiosos15.

Em comparação ao carácter aberto do questionamento racional, cujo objecto poderá eventualmente incluir religião, a noção agostiniana/aquinina do valor inerente implícito no conhecimento não pode ser separada do contexto mais alargado de sabedoria em que a causa final, Deus, não pode ser contornada. Na sua demanda por conhecimento, o estudioso deve contemplar as profundezas por detrás dos objectos, ou objectivos, da sua disciplina teórica.

O objectivo final do estudioso, diz Aquino, é ele próprio vir a possuir conhecimento de Deus. Sem dúvida, movido por caridade para com os seus iguais, o estudioso procurará partilhar o seu conhecimento. Mas aquilo que Aquino tem em mente não é a de cada estudioso dar o seu contributo para um corpo de conhecimento que incluirá o conhecimento por alguém ou outro de Deus. O fim de cada estudioso é ele próprio alcançar o conhecimento de Deus16.

O que temos aqui é a ideia de uma demanda espiritual que se encontra intimamente associada à exigência intelectual de saber mais (talvez mesmo superando-a), no sentido em que o objectivo da imersão em sabedoria divina espelha o reflexo de um compromisso em escolher entre os estados de conhecimento disponíveis aqueles que mais contribuem para o bem de todos. Isto significa, com efeito, fidelidade às crenças de controlo discriminantes que são constitutivas das práticas teorizantes. Para Wolterstorff, isto significa também um compromisso para com o Shalom, isto é, aquilo que o Deus revelado deseja para a Sua criação humana.
Não pode haver shalom sem justiça. Justiça é a base do shalom. No shalom cada pessoa usufrui da justiça, usufrui dos seus direitos. […] O shalom vai todavia muito para além da justiça. O shalom incorpora relações correctas em geral, sejam estas exigidas ou não pela justiça: relações correctas para com Deus, para com as outras pessoas, para com a natureza, e para com nós próprios17.

A persistente preocupação de Wolterstorff com as circunstâncias específicas de um cristão dedicado em relação ao trabalho intelectual no contexto da academia, revelada em Reason within the Bounds of Religion e nos ensaios escritos ao longo de quase três décadas que constituem Educating for Shalom, refere-se claramente à forma como ele se vê enquanto um teólogo-filósofo. De qualquer modo, a discussão em torno desta questão é particularmente útil no sentido em que nos oferece um “insight” sobre a razão de ser dos seres humanos à luz da fé cristã. Não se faz nenhum esforço para justificar a fé enquanto perambulatória para decidir acerca da personalidade humana. Pelo contrário, o “insight” vem com a fé, pois torna-se parte constituinte de uma crença básica que não pode, na realidade, ser descartada como necessariamente irracional. De facto, este aspecto representa um dogma fundamental da Epistemologia Reformada que, se pretende vir a ter um impacto sobre o pensamento contemporâneo, deve criar o seu próprio espaço através da desconstrução dos obstáculos que lhe têm feito frente nos tempos modernos.

Na sua crítica a Kant, o ponto que Wolterstorff tem tentado clarificar é que, embora as questões de Kant sobre as proposições justificáveis acerca de Deus tenham assombrado o trabalho de quase todos os teólogos-filósofos que lhe sucederam, o facto é que a mentalidade kantiana não constitui um fatalismo do qual não existe fuga possível. Neste aspecto, o trabalho desconstrutivo poderia melhorar a situação ao rever a noção de limite que Kant criou quando viu o conteúdo intuitivo como representações mentais que são depois interpretadas por conceitos. Dentro deste esquema filosófico, a realidade que fornecera inicialmente o “input” para as intuições e conceitos torna-se algo distante das operações mentais, abrindo assim o caminho para o anti-realismo.

Em causa está a questão da representação e do “input” produzido pelos objectos do mundo exterior. Contudo, e isto é algo crucial, a percepção pode ser concebida diferentemente (e de uma forma mais cativante) como a realização de um poder humano que se tornou consciente desses objectos. Não é a representação mental mas a consciencialização espontânea que apreende aquilo que chega ao organismo como inteligível. A formação de conceitos na mente humana não implica necessariamente uma espécie de hiato no processo de perceber a inteligibilidade do objecto. Tal insistência vai no sentido contrário da chamada “ética de crença” de John Locke, implicando um controlo voluntário sobre as proposições consideradas aceitáveis
18. Contudo, como se propõe, algumas crenças básicas podem ser consideradas auto-evidentes e tão indubitáveis como a simples percepção e memória. Por outras palavras, dificilmente são controláveis; simplesmente acontecem, não podem ser negadas, e ainda por cima têm alguma forma de referência. Se uma ética de crença tiver que existir, esta poderá ser melhor expressa em termos da exigência de cultivar hábitos e práticas epistémicas promissoras, isto é, a virtude da veracidade19. A falha da abordagem deontológica à questão da justificação reside precisamente em não possuir um posicionamento correcto em relação à verdade, uma vez que, ao fim e ao cabo, não pode legitimamente considerar-se em controlo do processo da formação das crenças. No lugar da abordagem deontológica à crença justificada, encontramos a re-emergência de uma metafísica mais participativa cujo pressuposto de uma iniciativa divina subjaz efectivamente o projecto da Epistemologia Reformada e a ideia de personalidade que esta sugere. Em vez de uma visão internalista que estabelece as fundações do conhecimento em relação ao qual o juízo sobre as crenças consideradas justificadas se torna a exigência fundamental, propõe-se uma espécie de externalismo: aquilo em que nós cremos justificadamente depende mais da relação de um indivíduo com o mundo externo.

Francamente realista nas suas implicações, a versão alternativa do conhecer humano de Wolterstorff (proveniente de Thomas Reid) vê os poderes cognitivos inatos do ser humano como capazes de apreender as propriedades dos objectos que lhe aparecem. Como tal, a forma como Deus nos aparece revelado nas Escrituras ou na vida da Igreja não necessita passar através do filtro das categorias transcendentais estruturantes. Adicionalmente, o que a Igreja ensina e celebra nas suas práticas litúrgicas encontra-se enraizado no que realmente aconteceu. É certo que a clarificação e a verificação permanecem sempre necessárias, mas a ideia geral da proposta de Wolterstorff – a qual é extensível a toda a Epistemologia Reformada, é que é epistemicamente justificado e até racional começar a falar directamente acerca de Deus. O ser humano cujo modo de ser inclui ser capaz de falar sobre Deus e de procurar ter uma relação com um Deus pessoal revela aquilo que talvez seja acrescentável à pessoa humana e constituinte da sua personalidade.
(Continua)


Mark Para ser preciso, Plantinga e Wolterstorff são e sempre foram calvinistas, tendo a sua lealdade a essa tradição sido persistentemente sublinhada na sua obra. Alston é um episcopaliano cujo posicionamento via media é revelado em pensamentos como estes: “[…] Desejo ser ecumenicamente tão abrangente quanto possível em relação ao largo alcance da experiência cristã — abraçando tanto a noção evangélica de uma pessoa sentir o fardo do pecado ser levantado depois de se comprometer a Cristo, como também a noção católica do entrosamento com Cristo aquando da recepção do pão e do vinho… .” “Christian Experience and Christian Belief,” em Faith and Rationality: Reason and Belief in God (Notre Dame: Univ. of Notre Dame Press, 1983), p. 104.
2 Encontramos um importante começo da exploração dos pontos de convergência entre a Ortodoxia Radical e a teologia Reformada contemporânea no trabalho muito capaz de James K. A. Smith, Introducing Radical Orthodoxy: Mapping a Post-Secular Theology (Grand Rapids: Baker Academic, 2004). Como o subtítulo sugere, tudo isto é realmente acerca de teologia pós-secular e filosofia. Adicionalmente, podemos encontrar uma indicação curiosa de que ambos os grupos podem dialogar no reconhecimento de John Milbank de que a Ratio et Fides de João Paulo II se aproxima das perspectives da Ortodoxia Radical. Cf. “The Programme of Radical Orthodoxy,” em Radical Orthodoxy? A Catholic Enquiry editado por Laurance Hemming (Ashgate: London, 1999), p. 30) e também o grande elogio do inabalável calvinista Nicholas Wolterstorff à mesma encíclica no seu “Call to Boldness” em Educating for Shalom: Essays on Christian Higher Education (Grand Rapids: Eerdmans, 2004).
3 John Milbank, Theology and Social Theory: Beyond Secular Reason (Oxford: Blackwell, 1990), p. 217.
a) No ensaio “A Catholic Response to the Programme of Radical Orthodoxy,” Fergus Kerr reconhece igualmente o papel central de Blondel – de facto, como um “herói” – neste trabalho de Milbank por proporcionar os meios para lidar com o perspectivismo, o historicismo e o pragmatismo contemporâneo ao evitar o realismo substancialista da Idade Média e o idealismo derivado do pensamento cartesiano. Encontramos o artigo de Ferr em
Radical Orthodoxy? A Catholic Inquiry, p. 57.
b) Para além da própria descrição de Milbank como sendo um agostiniano pós-moderno, há um outro seu colaborador próximo, Graham Ward, que trabalhou temas agostinianos na sua leitura da pós-modernidade em dois livros, cujos títulos se inspiraram nas próprias obras de Agostinho,
Cities of God (London: Routledge, 2000) e True Religion (Oxford: Blackwell, 2003).
4 Alvin Plantinga, “ Augustinian Christian Philosophy,” em The Augustinian Tradition Editado por Gareth B. Matthews (Berkeley: Univ. of California Press, 1999), p. 5. Nicholas Wolterstorff explora a ligação Kuyperiana e Agostiniana no domínio da educação cristã. Ver especialmente “Abraham Kuyper on Christian Learning,” em Educating for Shalom.
5 Para além de Educating for Shalom, Wolterstorff argumenta em favor do envolvimento político dos cristãos contra a pobreza, o racismo e a injustiça em Until Justice and Peace Embrace (Grand Rapids: Eerdmans, 1983) e também por uma estética cristã em Art in Action (Grand Rapids: Eerdmans, 1980). Assim, o ênfase que a obra de Wolterstorff dá à acção torna-a única entre os seus colegas mais próximos.
6 Nicholas Wolterstorff, Divine Discourse: Philosophical Reflections on the Claim that God Speaks (Cambridge: Cambridge Univ. Press, 1995).
7 Nicholas Wolterstorff, Reason within the Bounds of Religion Second Edition (Grand Rapids: Eerdmans, 1984. (edição original, 1976).
Wolterstorrf, “Is It Possible and Desirable for Theologians to Recover from Kant?” em Modern Theology, 14: nr. 1 (January 1998), pp. 1-18.
8 Wolterstorff, “Is It Possible and Desirable for Theologians to Recover from Kant?”, p. 3.
9 Wolterstorff, “Is It Possible …?” pp. 15-16.
10 Wolterstorrf, “Is It Possible ….?”p. 13.
11 Só para explicitar o óbvio, ao reflectir sobre a problemática específica de um investigador cristão neste livro e em outros, Wolterstorff está manifestamente a lidar com as dificuldades e desafios da sua própria vocação. Embora não seja um tema tão central na sua obra, o ensaio “Augustinian Christian Philosophy” de Plantinga propõe uma interessante fórmula que no seu geral é consonante com o desejo de Wolterstorff de honrar tanto o seu compromisso à investigação como aquele com a sua fé. A “filosofia cristã positiva” de Plantinga coloca os frutos da fé (F) como uma condição para o conhecimento científico (C). Assim, teríamos Se F então FC. Isto permitiria averiguar com mais facilidade como é que uma questão científica é vista da perspectiva da fé, respeitando ao mesmo tempo a particularidade da questão (pp 22-23).
12 Wolterstorff, Reason within the Bounds of Religion, pp. 66-67.
13 Wolterstorff, Reason within the Bounds of Religion, p. 70.
14 “Embora às vezes a coisa aceitável e mesmo obrigatória para se fazer seja mantermos as nossas convicções religiosas e fazer a nossa ciência conformar-se, outras vezes aquilo que é aceitável e mesmo obrigatório fazer é resolver a tensão ao revermos as nossas convicções religiosas. Numa determinada altura, os cristãos deixaram de poder acreditar que a teoria geocêntrica fosse uma componente essencial da convicção cristã.” Wolterstorff, “The Point of Convergence between Faith and Learning,” em Educating for Shalom, p. 85.
15 Wolterstorff, Reason within the Bounds of Religion, p. 122.
16 Wolterstorff, Reason within the Bounds of Religion, p. 122.
17 Wolterstorff, “ Teaching for Shalom,” Educating for Shalom, p. 23.
18 (a) Para uma discussão dos problemas levantados pela noção de ética de crença, ver o capítulo de C. Stephan Evans sobre este assunto no seu livro The Historical Christ and the Jesus of Faith (Oxford: Clarendon Press, 1996). Seguindo a pressuposição medieval de que o conhecimento e a crença são atitudes bem distintas (“no que eu sei eu não creio”), Locke recomenda – tal como Evans demonstra – que “se seguirmos o nosso ‘dever’ em relação às nossas crenças, então a crença não pode ser atribuída senão à boa razão’.” (p. 209) Mais recentemente, o debate estreado por Locke é revelado na alternativa de Clifford e William James: Clifford propõe a versão forte de crença justificada ao decretar que não se deve ter nenhuma crença sem que haja razão suficiente para o fazer; a proposta mais fraca de James, mais parecida com a da Epistemologia Reformada, declara que é legítimo crer em algo enquanto não haja razão para o considerar falso. Sobre como a posição de James se encaixa melhor com a dos epistemologistas reformados, ver William Alston, “Christian Experience and Christian Belief,” em Faith and Rationality.
(b) Relacionada com a abordagem internalista de Locke à crença está o assim chamado modo “evidencialista” da apologética cristã, frequentemente oposto à posição “pressuposicionalista” que caracteriza o pensamento calvinista. A apologética evidencialista começa por defender uma teologia natural que indica a razoabilidade em acreditar num Deus compatível com Aquele em que os cristãos acreditam. Tendo estabelecido a sua razoabilidade e até probabilidade, o modo evidencialista dá o passo seguinte ao tentar demonstrar a credibilidade da Bíblia como a verdadeira revelação de Deus e do Seu plano redentor. É através da sua rejeição de uma evidência testável como um pré-requesito absoluto para a racionalidade da proposta cristã que nos apercebemos de uma parte importante do carácter da Epistemologia Reformada.
19 Quero com isto salientar a consonância entre este posicionamento e o que Alasdair MacIntyre tem proposto acerca da precedência da prática das virtudes relevantes e da sua relação íntima com a tradição. A eventual associação com a metafísica tomista neste aspecto é tentadora, tendo sida já realizada de uma forma substancial no trabalho de Stanley Hauerwas.