NA PRAÇA PÚBLICA
por Elias Couto


A qualidade da democracia... e a “imaculada concepção”

No início de Maio, uma das muitas instituições que proliferam por essa Europa com o objectivo de ajuizar da “qualidade” da vida pública dos países da União, veio avisar-nos da pobreza da nossa democracia. Ao que parece, em termos “formais”, não andamos muito mal... O nosso problema é outro: “reduzida participação” dos cidadãos na vida pública e, imagine-se!, uma muita limitada possibilidade de escolha quanto à estrutura familiar – aqui, sim, ficamos reduzidos à horrível condição de parceiros de países tão “execráveis” como a Polónia ou a Lituânia...
Mas – perguntará o leitor – nós não temos legalmente reconhecida a mais versátil das formas de estrutura familiar – a união de facto?; não temos previsto o “divórcio expresso”?; não temos as famílias monoparentais, tão acarinhadas pelo governo?... Nós até temos a possibilidade de casar, o que já não é dizer pouco! Mesmo assim... Bem vistas as coisas, ainda não instituímos a poligamia... E, sobretudo, ainda não temos a última palavra dos engenheiros sociais em criatividade “familiar”: o “casamento” de homossexuais... Neste caso, porém, a próxima legislatura anuncia-se fértil: o Partido Socialista, sozinho ou levando ao colo o BE, dificilmente perderá a oportunidade de, como aconselhava um denodado defensor dos “direitos humanos”, assinalar o centenário da República com mais uma medida “fracturante” – e, então, daremos certamente um salto na tabela das democracias desenvolvidas...
O mais extraordinário disto, porém, nem sequer é a notícia, antes a diatribe que, a propósito, o
Diário de Notícias publicou em Editorial de 2 de Maio. Com impressionante sagacidade, o DN descobriu que a “pílula e o Maio de 68 dinamitaram o conceito de família tal qual vigorou durante quase dois mil anos, desde a ocorrência do mistério central da cristandade, a imaculada concepção, que hoje se celebra no Dia da Mãe”?
Não perceberam? Eu, à primeira, também não. Com algum esforço, lá fui percebendo o seguinte: segundo o editorialista do DN, a noção e a prática de uma família estável, reconhecida pela sociedade e protegida pela mesma sociedade, tem uns míseros dois mil anos e é, pelos vistos, mais uma daquelas lamentáveis invenções do Cristianismo que infernizaram a vida dos humanos nos últimos dois milénios – ao que parece, antes reinava o amor livre, ao jeito do Maio de 68!
Extraordinário mesmo é o que vem a seguir: este modelo de família vigora “desde a ocorrência do mistério central da cristandade”. E qual é ele? O leitor, julgando-se informado, diria imediatamente: a morte e ressurreição de Cristo. Nem pense nisso! O nosso editorialista venceu a ignorância do leitor: o mistério central da cristandade é a “imaculada concepção”!
Fica-se, porém, na dúvida: o DN refere-se à “imaculada conceição” da Virgem Maria, dogma recente, próprio da tradição católica? Mas se é isso, então o dogma não é assim tão antigo e refere-se simplesmente ao facto de a Igreja Católica afirmar, como verdade de fé, que a Mãe de Jesus foi concebida – de modo normal, claro, no seio de uma família normal – sem ficar sujeita ao pecado original (que não tem directamente nada a ver com a reprodução humana, nem com o modo de organizar a vida familiar!), próprio de todos os humanos. Ou refere-se à “conceição virginal de Jesus”, gerado em Maria pelo Espírito Santo, sem intervenção de nenhum homem? Mas se o caso é este, então que tem isso a ver com os modelos de família? Não há outro caso igual, nem haverá...
O
Diário de Notícias vai, porém, mais longe. Num notável arremedo de aggiornamento do calendário litúrgico, diz-nos que a “imaculada concepção” se celebra no Dia da Mãe. Andámos nós estes anos todos a celebrar a “imaculada conceição de Maria” a 8 de Dezembro (feriado nacional); e continuamos a celebrar o mistério da “anunciação” (e da conceição virginal de Jesus) no dia 25 de Março, porque assim manda a tradição católica... e, afinal, tudo isto se celebra, por obra e graça do DN, no dia da Mãe (ou seja, entre nós, no primeiro domingo de Maio)!...
O resto do Editorial já nem vale a pena. Fiquemo-nos por esta extraordinária peça de ignorância, escrita com a autoridade do camiliano sapateiro a cortar nas calças do vizinho... E interroguemo-nos até onde pode levar o facciosismo anticristão, mesmo no Editorial de um jornal dito “de referência”, como o
Diário de Notícias...


“Escândalo”, disse ele...

De repente, acordou para as celebrações do passado 13 de Maio, em Fátima. E escandalizou-se com as palavras do Cardeal Saraiva Martins sobre a actual crise alimentar. E escreveu: “Foi preciso o arroz faltar no supermercado ou ter de ser pago quase 80% mais caro, ou haver uma espécie de ‘guerra da pasta’, em Itália, para que o cardeal olhasse para o problema da fome? Foi preciso o alimento fundamental, o pão – através do qual Cristo transformou o seu corpo... – começar a tornar-se um produto de luxo, não apenas no Darfur, mas às portas de Roma, para que a Igreja acordasse?” (Filipe Luís, “Lágrimas de Crocodilo”, in
Visão, p. 62 – 15 de Maio de 2005).
Deixemos de lado a asneira teológica do “Cristo que transformou o seu corpo...” e fiquemo-nos pela questão da Igreja a dormir diante da fome, até esta chegar “às portas de Roma”. Não vou argumentar com o
Banco Alimentar Contra a Fome, inventado por cristãos (e, portanto, pela Igreja), e levado por diante sobretudo por cristãos; não vou falar das milhentas instituições de serviço social inventadas e levadas por cristãos (e, portanto, pela Igreja), neste país e no resto do mundo, servindo sistematicamente os mais desafortunados; nem vou lembrar a generosidade dos cristãos (e, portanto, da Igreja) quando se trata de acorrer com os seus bens em situações de carência ou de catástrofe; nem sequer vou salientar o trabalho de milhares de cristãos (e, portanto, da Igreja), missionários nos quatro cantos do mundo, sobretudo nos países mais pobres, dando a sua vida ao serviço de quem nada tem e contribuindo desinteressadamente para o desenvolvimento local sustentado; não vou lembrar que a fome já há muito chegou às “portas de Roma” e entrou na cidade (seja em Lisboa, seja em Nova Iorque) e os cristãos (e, portanto, a Igreja) estão na linha da frente do combate.
Também não vou recordar a doutrina da Igreja, consistente e constante, sobre a justa distribuição dos bens da terra. Muitos cristãos nem sempre a souberam ou quiseram praticar, mas ela não perde validade por causa disso... Vou só citar, em benefício do escriba distraído, o
Catecismo da Igreja Católica, nº 2269: «A aceitação, pela sociedade humana, de fome generalizada e mortífera, sem se esforçar por lhe dar remédio, é uma escandalosa injustiça e um pecado grave. Os traficantes, cujas práticas usurárias e mercantis provocam a fome e a morte dos seus irmãos na humanidade, cometem homicídio indirecto, que lhes é imputável”.
A Igreja “só acordou” com “a fome às portas de Roma”? O “sexto sentido”, título das crónicas do jornalista da
Visão, parece estar a pressentir outros, que só agora aparecem preocupados com a crise alimentar global, quando ela se tornou notícia de primeira página em todo o lado. A Igreja, essa, já estava “em todo o lado”, na primeira linha da luta contra a fome. Mas o preconceito ideológico nem sempre deixa ver a realidade ou, mais ainda, pretende curvar a realidade ao modo de ver do preconceito.


A história do “velho, a criança e o burro”

Por feliz intuição do Papa João Paulo II, a Igreja Católica fez da celebração jubilar do ano 2000 também uma evocação e purificação da memória, assumindo as culpas próprias no que de menos bom têm estes dois mil anos de história do Cristianismo. Pouco compreendido por alguns, dentro e fora da Igreja, este gesto público ficou a marcar uma viragem na vida da Igreja: de agora em diante, já não é mais possível a atitude triunfalista, tantas vezes assumida no passado, de quem esquece que a santidade da Igreja vai a par com a condição pecadora dos seus membros e com a sua continuada necessidade de conversão.
Na sua recente viagem aos USA, Bento XVI deu mais um sinal de como esta nova mentalidade dá frutos genuínos na vida da Igreja, assumindo com coragem e sem subterfúgios a enorme ferida aberta no coração da Igreja pelo comportamento pedófilo de alguns sacerdotes e as trágicas consequências do mesmo na vida de tantas vítimas. E urgiu, novamente, medidas concretas para evitar, tanto quanto é humanamente possível, novos casos do género – um escrutínio rigoroso dos candidatos ao sacerdócio e uma atitude sem complacências com eventuais comportamentos menos apropriados por parte dos ministros ordenados. A generalidade dos observadores considerou mesmo ter o Santo Padre ido mais longe do que seria de esperar.
Há sempre, porém, quem pretenda aproveitar-se destes gestos. Uma denominada Associação das Vítimas veio afirmar que o Papa ficou muito aquém do exigido. E pudemos ler comentários, na imprensa portuguesa, segundo os quais pedir perdão não custa, sobretudo quando não há desejo de emenda nem de conversão. Argumento a favor desta tese, da parte de uns e outros: Bento XVI não se manifestou disposto a rever a obrigação de celibato para os sacerdotes católicos!
Apenas algumas observações rápidas:
1. Não há provas nenhumas de que o celibato seja causa directa ou indirecta dos comportamentos pedófilos; nem há estudos que mostrem uma diferença estatística entre celibatários e não celibatários, nesta matéria.
2. Mesmo assim, quem fez tal afirmação, indirectamente, associou celibato e pedofilia – insultando todos (e são a imensa maioria) os sacerdotes católicos que vivem abnegadamente a sua vocação, sem pôr em causa o celibato e servindo alegremente as suas comunidades, a começar pelos mais frágeis, e a Igreja.
3. Por detrás destas afirmações revela-se o desejo de pôr em causa a Igreja no seu todo, utilizando como alvo o Santo Padre, a propósito de uma questão que, não sendo menor, não é de todo a mais importante na Igreja. E mostra-se como muitos, dentro e fora da Igreja, só ficarão contentes quando a “agenda” da Igreja for a deles – sendo o celibato não uma questão teológica e pastoral seriamente considerada, mas uma simples arma de arremesso sempre à mão e utilizável em quaisquer circunstâncias.
4. Quanto a considerar os pedidos de perdão da Igreja como meras formalidades sem conteúdo nem consequências, ficam duas perguntas:
Quem, como a Igreja Católica, teve coragem para ir tão longe no reconhecimento público dos erros cometidos por parte dos seus membros?
Quem já pediu perdão aos católicos e à Igreja Católica pelas inúmeras perseguições de que têm sido vítimas ao longo da história?
Convinha pensar, antes de responder.


O ministro e os ATL

Exasperados com as condições lamentáveis em que o Governo de Portugal os deixou a trabalhar, os responsáveis das IPSS com Actividades de Tempos Livres (ATL), decidiram, simbolicamente, encerrar todos os ATL no próxima dia 9 de Junho. Objectivo: que o Governo volte a dialogar seriamente com as Instituições sobre esta questão.
O Ministro da Solidariedade, antes sem nada para dizer sobre o assunto, veio imediatamente a público apelar à serenidade, pois, considerou, radicalismos não interessam a ninguém. Mas lá foi acrescentando que os responsáveis dos ATL devem procurar saídas, reconvertendo as actividades das suas instituições... porque o Governo tem obrigação de gerir bem os dinheiros públicos e não se justifica pagar duas vezes o mesmo serviço.
Um esclarecimento: o serviço dos ATL, prestado a contento da grande maioria das famílias que a eles recorrem, é subsidiado pelo Estado, na medida em que tais Instituições prestam um serviço público, acolhendo as crianças fora do horário escolar. O Governo socialista, porém, inventou o prolongamento do horário escolar do primeiro ciclo do ensino básico – e atirou os ATL para as “pontas”: de madrugada e ao fim da tarde. Nestas circunstâncias, nenhuma Instituição pode trabalhar, mantendo uma estrutura sem crianças, ou com crianças apenas nos retalhos que o Governo lhes deixa.
O ministro tem razão quando diz que o Governo deve gerir bem o dinheiro público e não deve pagar duas vezes o mesmo serviço. Só foi pena o Governo não se ter lembrado disso antes de inventar o dito “prolongamento escolar”. Por duas razões: porque tal prolongamento não resolve os problemas que os ATL vinham resolvendo a contento das famílias, nem é feito com a qualidade daqueles; e, sobretudo, porque onde já existiam soluções oriundas da sociedade civil, não havia necessidade nenhuma de o Estado, via Governo socialista, vir asfixiar a mesma sociedade civil e as suas iniciativas. Mais uma vez, a tendência estatizante do poder em Portugal impôs-se à tão recomendada subsidiariedade. E o Governo, em vez de potenciar e apoiar as iniciativas da sociedade civil, veio, com a omnipotência que lhe dá o dinheiro dos impostos de todos, criar problemas onde eles não existiam, em vez de ajudar a resolvê-los, onde eles porventura pudessem existir.
Isto não é inocente. A maioria das IPSS com ATL são da Igreja ou a ela ligadas. Tal coisa não agrada a muitos grupos de pressão, largamente instalados no PS e não só – pois não lhes interessa de modo algum que a educação das crianças esteja, em parte, confiada a Instituições católicas. Os ATL destas instituições foram muito úteis, sem dúvida – serviam necessidades da população e estas deixavam os governantes em paz. Quando se viu com um orçamento mais “equilibrado”, o Governo voltou à senda da estatização e começou por onde seria da esperar.
Estranham alguns que a sociedade civil em Portugal seja tão raquítica e os cidadãos tão pouco interventivos. Com um Estado assim, sempre pronto a asfixiar a iniciativa dos cidadãos, como poderia ser de outro modo?
A Igreja, é certo, fiel à sua missão, não espera pelo Estado para servir os mais necessitados. Quando, porém, as suas iniciativas se tornam apetecíveis, há sempre formas de o Estado se intrometer...
Voltando ao início. Não concordo com a ideia de fechar os ATL por um dia. Seria mais eficaz avisar o Governo de que todos os ATL tinham data marcada de encerramento definitivo – deixando ao Governo o cuidado das crianças que ali encontram apoio e dos trabalhadores que neles ganham os seu salário. Talvez então o Governo começasse a perceber para que serve a sociedade civil... e quanta falta faz ao país o empenho desinteressado dos cristãos nas causas sociais. E talvez algumas pessoas, na Igreja, deixassem de andar atrás dos “favores” do Estado, assumindo antes iniciativas de serviço social à dimensão daquilo que as comunidades estivessem dispostas a pagar.