Aprendendo a conhecer e a interpretar ‘uma fé com sabor
a sal’
por Sílvio Couto
A vida
das comunidades piscatórias tem de ser levada ao espaço
da celebração da fé cristã, sacralizando (mesmo) os
apetrechos da faina e divinizando os intervenientes
como ‘sacerdotes’ da labuta, traduzindo em salmos de
gratidão as horas de incertezas e glorificando o Deus
que dá o sustento, alimenta as fomes materiais e sacia
as sedes espirituais.
Temos, desde há mais de uma década, a faculdade de
viver num contexto marítimo, onde a crença quase se
confunde com um certo medo – atendendo a que o mar ora
está calmo ora vira encapelado – e um outro misto de
religiosidade titubeante entre o mito e um certo rito,
nalguns casos a roçar uma espécie de sem razão... à
mistura com tiques de tradicionalismo mal explicado.
De facto, tem sido uma salutar oportunidade de reflexão
– onde temos sido mais ajudados a repensar do que
talvez tenhamos contribuído para a valorização de
outros – sobre a mentalidade marítima, que de tantas e
de tão diversificadas formas se exprime cultural e
(mesmo) cristãmente.
Atendendo a esta ligação pastoral, sobretudo na
expressão do ‘Apostulatus maris’ (apostolado do mar)
com especial incidência na vertente paroquial e com
pessoas ligadas à actividade sócio/marítima da pesca,
parece-nos oportuno reflectir sobre o significado do
mar (tanto físico quanto psicológico) com particular
realce com a ligação de Jesus com as pessoas marítimas
e a expansão do cristianismo através dos mares.
1.
Mar: espaço, situação e desafio
Antes de
tudo, o mar é um elemento tumultuoso, que só Deus pode
dominar, impondo-lhe barreiras e limites. «Deus disse:
‘reúnam-se as águas que estão debaixo dos céus, num
único lugar, a fim de aparecer a terra seca’. E assim
aconteceu. Deus chamou terra à parte sólida e mar ao
conjunto das águas. E Deus viu que isto era bom»
(Génesis
1,9-10).
Deste modo, o mar é criatura de Deus, sob o seu domínio
e ao serviço da sua magnificência. A vitória de Deus
sobre o caos torna-se patente na obra harmoniosa da
criação, pois está ao serviço do seu Criador.
Quando Deus salva os seus eleitos das águas, Ele está a
actualizar a vitória sobre os abismos, que, nalgumas
situações, como que simbolizam as forças contra Deus
(cfr. Génesis
7-8;
Êxodo
14;
Isaías
11,15;
50,2). Na medida em que Deus salva o seu povo fazendo-o
passar a pé enxuto o mar Vermelho, assim se pode
interpretar o poder de Deus que domina o mar e as suas
forças bem como tudo aquilo que se possa opor à vitória
de Deus.
Jonas, o profeta rezingão, cujo ministério atribulado
passa pela profundidade das águas, é uma espécie de
protótipo de Jesus que há-de, como Jonas, passar pelo
ventre da prova – para Jonas foi a baleia e para Jesus
o túmulo – do caos da morte até que se manifeste a
vitória sobre todas as forças do mal e do pecado.
2. Mar: sinal, revelação e mistério
Se
tivéssemos de encontrar um espaço – físico, simbólico e
teológico – para vermos o desenrolar do ministério de
Jesus, encontrá-lo-íamos, por excelência, no ‘mar da
Galileia’ ou ‘lago de Tiberíades’, como um dos mais
representativos e simbólicos. Foi aí que Jesus chamou
os primeiros discípulos: «Caminhando ao longo do mar da
Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro,
e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois
eram pescadores» (Mateus
4,18).
Imensos episódios se passam junto deste grande espaço
de água doce, fonte de subsistência e de oportunidade
da experiência de fé. «Depois subiu para a barca e os
discípulos seguiram-No. Levantou-se, então, no mar, uma
tempestade tão violenta, que as ondas cobriam a barca;
entretanto, Jesus dormia. Aproximando-se d’Ele, os
discípulos despertaram-No, dizendo-Lhe: ‘Senhor,
salva-nos, que perecemos!’ Disse-lhes Ele: ‘Por que
temeis, homens de pouca fé?’ Então, levantando-Se,
falou imperiosamente aos ventos e ao mar, e sobreveio
uma grande calma. Os homens, admirados, diziam: ‘Quem é
este, a quem até o vento e o mar obedecem?’»
(Mateus
8,23-27).
Dir-se-á que o mar se torna para estes homens, em
estado de formação humana, religiosa e cultural, um
espaço não só de trabalho para a vida, mas também um
lugar teológico por excelência, pois Jesus vai ao seu
encontro, no local das suas tarefas humanas, e como
vivência de fé traduzida em leitura contínua dos sinais
de Deus no quotidiano. Assim, o trabalho no mar, do mar
e com o mar é, simultaneamente, actividade humana, meio
de santificação e de revelação de Jesus aos seus
discípulos.
3.
Mar: plano de evangelização e força de anúncio
No rescaldo
da celebração do Jubileu do Ano 2000, o Papa João Paulo
II deixou-nos esse desafio para o novo milénio,
partindo na sua reflexão da passagem que tem ainda o
mar de Tiberíades como pano de fundo: «Quando acabou de
falar, [Jesus] disse a Simão: ‘Faz-te ao largo; e vós
lançai as redes para a pesca» (Lucas
5,4). É
deste contexto físico e teológico que fomos/somos
enviados a ler, a interpretar e a levar Jesus feito
acontecimento contínuo de vida a tantos dos nossos
contemporâneos.
Alargado o horizonte daquele mar, um outro lhe sucedeu:
o Mar Mediterrâneo, enquanto espaço cultural e bacia de
confluências sociais, políticas e religiosas, na medida
em que as viagens de São Paulo – cujo segundo milénio
de nascimento em breve vamos celebrar em jubileu – são
típicas do desenrolar do desenvolvimento refluente da
fé cristã, tendo o mar como impulso de evangelização e
força impetuosa de anúncio de Jesus Cristo.
Repare-se na multiplicidade de culturas – apresentadas,
mesmo que de forma sucinta, nas cartas e/ou epístolas
paulinas – que têm o mar Mediterrâneo como ponto de
partida e fonte de chegada: Corinto ou Éfeso, Atenas ou
Roma, Antioquia ou Cesareia, Chipre ou Malta... A fé
cristã como que flutua – no sentido de viver em avanços
e recuos, mas sempre em dinâmica – tendo o mar por
força propulsora.
4. Mar: celebrar actualizadamente a fé com sabor a sal
Se
atendermos a que dois terços das dioceses portuguesas
ou têm o mar por cenário ou a água por companhia,
poder-se-á questionar se há, de facto, uma leitura
marítima da celebração da fé e, mesmo, do pensamento
teológico e pastoral. Com efeito, viver, celebrar ou
reflectir a fé tendo o mar por espaço de convivência é
muito diferente de tal cenário ser o alto do monte ou
uma planície.
Na medida em que o mar nos vai impregnando a alma,
assim poderemos interpretar essa ‘fé com sabor a sal’,
pois as águas – calmas, tumultuosas ou frutuosas –
invadem a dimensão da leitura de Deus e d’Este com os
acontecimentos da vida quotidiana ou festiva. A vida
das comunidades piscatórias tem de ser levada ao espaço
da celebração da fé cristã, sacralizando (mesmo) os
apetrechos da faina e divinizando os intervenientes
como ‘sacerdotes’ da labuta, traduzindo em salmos de
gratidão as horas de incertezas e glorificando o Deus
que dá o sustento, alimenta as fomes materiais e sacia
as sedes espirituais.
«As
alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias
dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos
aqueles que sofrem, são também as alegrias e as
esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos
de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente
humana que não encontre eco no seu
coração»
(Constituição pastoral ‘Gaudium et spes’ sobre a Igreja
no mundo actual, n.º 1). Assim o mundo marítimo tenha
bons intérpretes da presença de Cristo... cada vez mais
cristãmente comprometidos.
A.
Sílvio Couto nasceu
em 1959, em Forjães (Esposende). Fez os estudos
eclesiásticos nos Seminários Arquidiocesanos de Braga.
Foi ordenado padre em 1983. Fez a licenciatura e o
mestrado em Teologia Sistemática na UCP. É, desde 1997,
pároco em Santiago, Sesimbra. É autor de mais de duas
dezenas de publicações.
