De regresso ao Jesus dos evangelhos
...
dificilmente alguém se poderá abalançar a escrever, de
modo sério, sobre Jesus sem se confrontar com a obra de
Bento XVI, nem que seja para pôr em causa,
argumentadamente, as suas conclusões. Se outras razões
não existissem para tal, só esta obra já tornaria Bento
XVI merecedor da gratidão dos cristãos...
Por Elias
Couto
1.
Pude, finalmente, ler com sossego a obra “Jesus de
Nazaré”, de Bento XVI. Mais do que um comentário ao
livro, já feito por outros em devido tempo, seguem-se
algumas reflexões provocadas pela leitura.
2.
Jesus de
Nazaré
propõe, de modo poderosamente argumentado, o regresso a
certas coisas básicas na Tradição cristã: a necessidade
de respeitar o texto bíblico e os seus autores, não o
reduzindo a meras construções comunitárias, mais ou menos
fantasiosas; a necessidade lógica de não atribuir os
Evangelhos a comunidades anónimas em busca de fundamento
para a sua existência, mas a crentes concretos, embora
inseridos na dinâmica de comunidades crentes; o valor
histórico dos Evangelhos, no seu todo; a coerência
interna do Jesus que os mesmos apresentam. Como afirma
Bento XVI: «A acção de formações comunitárias anónimas,
cujos mentores se procura descobrir, na realidade não
explica nada. Como é possível que grupos desconhecidos
pudessem ser tão criativos, convencer e deste modo
impor-se? Não é mais lógico, mesmo do ponto de vista
histórico, que a grandeza do fenómeno se encontre no
princípio e que a figura de Jesus, na prática, tenha
feito saltar todas as categorias disponíveis e deste modo
tenha sido possível compreendê-la apenas a partir do
mistério de Deus?» (Jesus de
Nazaré.
Lisboa: Esfera dos Livros, 2007, pág. 24. Todas as
citações da obra Jesus de
Nazaré
referem-se a esta edição).
3.
Não é muito frequente, hoje, encontrar textos
reivindicando a espessura histórica de Jesus, o mestre de
Nazaré, inextrincavelmente ligada à fé n’Ele como
Messias, Filho de Deus e Deus, Ele mesmo. É ainda mais
difícil encontrar autores a defender a consciência
histórica deste Jesus quanto à sua condição divina.
Encontram-se, pelo contrário, abundantes obras reduzindo
a espessura histórica dos Evangelhos à afirmação da morte
de Jesus e à valorização, como palavras suas, de alguns
ditos soltos; quanto ao próprio Jesus, aparece muito ao
jeito do intelectual pós-moderno: indeciso sobre si
mesmo, dividido, sem saber quem seja ou sendo
continuamente personalidades diferentes. Jesus teria,
quando muito, uma experiência mais profunda da sua
condição de judeu crente e, com o tempo, viria a
transformar essa experiência num discurso religioso
inovador e provocante, face ao contexto sócio-religioso
em que se movia. E, nalguns casos, considera-se a sua
actividade de pregador itinerante como resultado de um
processo de conversão cuja expressão simbólica se
cristalizou nas narrativas evangélicas do baptismo no
Jordão; ou, então, que no baptismo Jesus fez uma
experiência «mística» pela qual chegou a conhecer Deus de
um modo totalmente novo e, a partir daí, a anunciar esse
Deus diferente, contra todas as convenções religiosas do
tempo (cfr. Jesus de
Nazaré,
pág. 12; 53-54).
4.
Deste modo, Jesus é reduzido a um mestre como muitos
outros em Israel, original na sua pregação, provocador,
eticamente exigente, inimigo das convenções religiosas do
tempo... Nada resta, porém, na sua consciência humana, de
uma diferença original que faz d’Ele muito mais do que um
profeta ou um Rabi. E, consequentemente, nada resta do
mistério da encarnação e, a seu tempo, nada restará do
mistério da ressurreição, ambos elaborações teológicas de
comunidades empenhadas em fundar uma nova religião a
partir da obscura figura de um judeu cuja morte não
poderia ter sido mais infamante: crucificado como rebelde
político em rebelião aberta contra Roma.
5.
Ora, Bento XVI, sem ignorar a complexidade humana de
Jesus, nem a diversidade no modo como os Evangelhos O
apresentam, e sem rejeitar o muito que a exegese moderna
trouxe à luz, mediante o método histórico-crítico
(cfr. Jesus de
Nazaré,
págs. 24-25), percorre um trajecto que lhe permite
afirmar, com segurança: «A doutrina de Jesus não provém
de uma aprendizagem humana, seja ela de que espécie for.
Vem do contacto imediato com o Pai, do diálogo “face a
face”, da visão d’Aquele que “está no seio do Pai”. É
palavra do Filho. Sem esta base interior, seria uma
temeridade» (Jesus de
Nazaré,
pág. 33-34). E, assim, recentra toda a questão de Jesus:
os mistérios da encarnação e da ressurreição são
inseparáveis da sua realidade histórica, embora, enquanto
acontecer cuja causa imediata é Deus, não possam ser
tratados segundo a metodologia das ciências empíricas.
Também não podem, porém, ser separados do próprio Jesus,
tornados mera afirmação de fé das comunidades cristãs – é
que tal afirmação não faria qualquer sentido nem teria
qualquer justificação se não encontrasse no próprio Jesus
o seu fundamento.
6.
Sendo contracorrente, a perspectiva de Bento XVI sobre
Jesus foi, em alguns casos, acolhida de modo, no mínimo,
condescendente. Embora não chegando a considerá-la
«fundamentalista» – pois o valor intelectual do seu autor
e o facto de ser Papa não facilitavam tais
desqualificações, tão ao jeito do tempo – foi descrita
como uma «visão pessoal», que nem sequer goza do carácter
de documento do magistério papal. Certamente – e o
próprio Bento XVI o diz, logo de início (cfr.
Jesus de
Nazaré,
pág. 25). Sendo, porém, como afirma o Papa, «unicamente
expressão da minha busca pessoal do “rosto do Senhor”»
(pág. 25), não é menos legítima do que outras abordagens,
igualmente pessoais e, não raro, bem menos equilibradas.
7.
Sejamos claros. Quando alguns afirmaram ser a obra
Jesus de
Nazaré
o resultado de uma simples «visão pessoal», o que
pretendiam dar a entender era a sua menor valia, por se
tratar de obra marcada pela subjectividade, face a outras
obras supostamente «objectivas, porque de carácter
científico. O rigor de uma obra, porém, e o seu valor
científico definem-se pela valia dos argumentos. Ora,
tendo como critério a qualidade dos argumentos, a obra de
Bento XVI não é, de todo, um texto menor sobre Jesus de
Nazaré. Pelo contrário, embora sem se deixar seduzir pela
abundância de dados geográficos, históricos e
estilísticos de que outros fazem gala, Bento XVI
apresenta um texto robustamente fundamentado,
coerentemente organizado e muito capaz de dar conta da
complexidade da pessoa de Jesus de Nazaré.
8.
Importa, ainda, salientar outro aspecto desta obra,
particularmente significativo. Ao contrário do que vem
sendo norma nos últimos decénios, Bento XVI toma a sério
a Tradição eclesial. Isto é importante, pois a sensação
deixada em quem as lê por muitas obras sobre as origens
do cristianismo e sobre Jesus é a de uma atitude de
sobranceria intelectual sem limites sobre a Tradição da
Igreja, sobretudo relativamente às primeiras comunidades
cristãs. Atitude com claros sintomas de duplicidade de
critérios. Por um lado, tais comunidades, pequenas,
isoladas, formadas por gente pouco culta, são elevadas ao
estatuto de «escritores» geniais, capazes de produzirem
narrativas notáveis, tendo como referência um obscuro
pregador judeu da Galileia. Este, Jesus, ao qual não
tinham conhecido, elevaram-No à condição divina e
produziram toda uma narrativa épica em seu redor, ao
arrepio de quanto seria legítimo esperar de gentes tão
desprovidas de tudo o humanamente necessário para o
fazer. Por outro lado, os testemunhos das mesmas
comunidades sobre o modo como surgiram tais narrativas –
os Evangelhos – são considerados, na maior parte dos
casos, sem valor histórico. E mais ainda: as mesmas
comunidades a quem se credita tão notável papel na
difusão da nova doutrina são consideradas sem qualquer
fiabilidade, quando se trata de aferir do valor histórico
de quanto deixaram por escrito...
9.
Bento XVI não ignora as complexidades na redacção dos
Evangelhos. Mas lembra uma dimensão essencial, de cuja
ausência padecem manifestamente muitos estudos recentes
sobre Jesus e, em geral, sobre a Bíblia: «Os diversos
livros da Sagrada Escritura – tal como esta no seu
conjunto – não são simples literatura. A Escritura
nasceu no
e a partir
do
sujeito vivo que é o Povo de Deus em caminho
e vive
nele»
(pág. 22 – itálico final nosso). É importante esta
clarificação: uma leitura dos Evangelhos alheia à Igreja
pode ser muito erudita, mas não será nunca capaz de fazer
inteira justiça à Palavra que ali toma forma humana. Sem
a Tradição eclesial, o texto bíblico fica no passado,
mera curiosidade arqueológica e literária. Isto aplica-se
também, naturalmente, àquilo que a Tradição eclesial nos
transmite acerca da origem desses textos. Tais
testemunhos podem e devem ser analisados com os cuidados
próprios da investigação histórica – não podem é ser
descartados à partida como insignificantes.
10.
Jesus de
Nazaré
apresenta-se, portanto, como uma obra de referência para
o moderno debate em torno da figura de Jesus. De
referência pelo equilíbrio conseguido, pelo rigor da
escrita, pela força dos argumentos, pelo respeito com que
trata os Evangelhos, os seus autores e as comunidades
cristãs no contexto das quais aqueles elaboraram as suas
narrativas. Mercê deste equilíbrio e respeito, a figura
de Jesus aparece, nesta obra, bem mais coerente e lógica
do que o habitual, em obras semelhantes escritas nas
últimas décadas. Não será, certamente, a última palavra
na investigação sobre Jesus – até porque o mesmo Bento
XVI ainda tem mais um volume em preparação. Mas
dificilmente alguém se poderá abalançar a escrever, de
modo sério, sobre Jesus sem se confrontar com a obra de
Bento XVI, nem que seja para pôr em causa,
argumentadamente, as suas conclusões. Se outras razões
não existissem para tal, só esta obra já tornaria Bento
XVI merecedor da gratidão dos cristãos – e, dado o seu
estilo, acaba por ser mais eficaz do que qualquer tomada
de posição magisterial sobre o debate em torno da figura
de Jesus. Também por isso, é uma obra que merece, da
parte dos católicos e dos cristãos em geral, uma leitura
atenta e uma reflexão aprofundada. ∆