Festas: expressão de fé... dum povo
Na
medida em que sabemos o que somos, assim poderemos
fazer propostas àqueles/as que esperam ver o rosto de
Deus em nós e através de nós. A comunhão com os homens
e mulheres do nosso tempo impele-nos a ajudar à festa,
incentivando-a, de olhos postos em Cristo e os pés bem
assentes na terra onde estamos, respeitando os espaços,
os tempos e as funções ... dos outros e as nossas.
Por
Sílvio
Couto
Quando vemos
proliferar múltiplas manifestações de festa, desde as
aldeias mais recônditas até aos espaços urbanos mais
expostos, como que sentimos a obrigação intelectual de
nos interrogarmos sobre o significado mais profundo
dessas festas – sejam de teor humano ou religioso,
tanto ao nível familiar como inter-relacional – como
expressão cultural mais significante do ser humano.
Atendendo ao espaço sócio-geográfico em que nos
encontramos, há mais de dez anos, afloraremos aspectos
desta temática das festas no contexto de Sesimbra, na
diocese de Setúbal... num contexto marítimo.
Uma das facetas mais controversas do insistente e árduo
diálogo entre a Igreja (hierarquia e mesmo instituição)
com a vertente popular mais ou menos religiosa é a das
festas, sejam elas com a cobertura de santos, à volta
de algum santuário ou mesmo a partir de tradições
relativamente aceites, toleradas ou promovidas. As
várias festas religiosas do concelho de Sesimbra – na
sua maioria, são dedicadas a Nossa Senhora – revestem
uma razoável diversidade de entendimentos: a dimensão
popular tem raízes mais profundas do que os intuitos
religiosos.
As expressões de fé têm, por vezes, mais uma vertente
de crença do que de sentido religioso. Por outro lado,
de tempos a tempos, vão surgindo tentativas, por parte
dos responsáveis das Dioceses, de corrigir (possíveis)
erros, tanto dos fautores como dos mentores ou até dos
promotores das festas religiosas. Mesmo que recorrendo
a uma fundamentação teológica atenta, aberta e
pluralista, muitas dessas festas escapam à formatação
religiosa de índole cristã mais restrita. Nesta matéria
tudo – e tem sido muito – quanto se faça continua a ser
muito pouco para as necessidades mais prementes, tanto
de correcção como de purificação do teor religioso.
De facto, quem analisar as contas da ditas ‘festas
religiosas’ encontrará uma verba quase residual –
talvez vinte por cento, numa visão optimista – dedicada
às pretensas actividades de índole religiosa, que, na
maior parte dos casos, não passam de momentos
tradicionais, como procissões, sermão e (de vez em
quando) algo de natureza mais preparatória, na
designação de ‘tríduo’ (três dias), novena ou ainda
através de reuniões de formação com os mordomos/as e
‘comissões de festas’, tanto ocasionais como
permanentes. Se fizermos uma mesmo que breve análise –
sociológica, económica ou psicológica – ao fenómeno das
festas religiosas poderemos encontrar linhas de
reflexão, à luz das quais as festas de índole religiosa
do concelho de Sesimbra poderão ser enquadradas,
percebidas e até renovadas.
1.
Da fé nasce a festa
Nem que seja de forma reduzida aos ciclos da vida –
nascimento, casamento, aniversários de acontecimentos
marcantes pessoais, familiares ou colectivos – a fé
propõe-se em atitude de festa. E, se não forem
enquadrados pela simbologia religiosa (e sobretudo
cristã), esses momentos são celebrados de modo
paganizado, isto é, fora de Deus e com outros ritos
mais ou menos exotéricos. De facto, celebrar a Senhora
da Luz é perspectivar em Deus, por Maria, o surgimento
da vida. Se nos últimos tempos o acto de dar à luz é
mais ‘fácil’, o mesmo não se poderia dizer em épocas
mais ou menos remotas. Assim, recorrer à protecção de
Nossa Senhora da Luz tornava-se natural e imperioso...
revestindo a linguagem de crença com gestos e sinais,
como orações e velas, oferecidas pelas graças
alcançadas! Estes ex-votos são comuns nas procissões
com sabor maternal e também na do Senhor Jesus das
Chagas, onde muitas das velas revelam horas de aflição
tanto em terra como no mar!...
2. Na festa humana se celebra Deus
Diz o povo e com razão: ‘um santo triste é um triste
santo’. A Igreja tem procurado preencher, ao seu nível,
os momentos mais significativos do ritmo comunitário
geral e local: Páscoa, Pentecostes, Natal, santos
(mártires, confessores, virgens, etc.), padroeiros...
em ordem a que esses tempos festivos não se tornem
‘perigosos’ para a moralidade pública e pessoal.
O espaço do adro (mais ou menos amplo) e outros espaços
adjacentes ao edifício da Igreja, capela ou santuário
permitiam controlar intromissões, corrigir abusos e
orientar comportamentos. De forma mais ou menos
‘séria’, as festas religiosas serviam de honra aos
santos e proveito aos fiéis. Tudo seria fácil se
prevalecessem o equilíbrio e o bom senso entre os
vários participantes!
Os peditórios, os círios e outras manifestações
pré-festa implicam já alguma envolvência rumo à
prossecução da devoção ou culto aos santos e a Nossa
Senhora. Por seu turno, os arraiais compreendem um
certo teor profano: os bailaricos, os farnéis e outros
aspectos de convívio têm (normalmente) a marca da
festa, se nem sempre ao festejado, pelo menos aos que
se reúnem por ocasião da festividade!
3.
Da festa popular aos populares em
festa
Com a rebeldia à censura eclesiástica se foram
extremando posições: por vezes, os ‘santos’ servem de
cobertura a outras intenções, projectos e vaidades,
tanto pessoais como bairristas ou de grupo. A distinção
entre festa ‘religiosa’ e ‘profana’ – mesmo nas ditas
festas da religiosidade popular – torna-se salutar e,
quantas vezes, benéfica em ordem à definição dos campos
de cada um dos intervenientes.
Quantas vezes a ‘comissão de festas’ revela dedicação e
apego ao lugar, compromisso e quase nepotismo, paixão e
promoção. Com efeito, numa época de algum desinteresse
pelo bem comum, é benéfico realçar quem se empenha em
fazer algo pelos outros, sobretudo se tem de necessitar
do contributo alheio para gerir, coordenar e
(sobretudo) pagar iniciativas comuns.
Nota-se que as festas do concelho de Sesimbra sofrem de
alguma subsídio-dependência, particularmente das forças
de gestão autárquica. Isso, por vezes, torna-se
contraproducente e/ou perigoso na medida em que as
‘autoridades’ tentam depois catalisar o investimento,
ao menos de forma tácita.
4. Da festa cristã à evangelização
Tendo em conta o mais genuíno da festa de natureza
cristã, vão surgindo tentativas de fazer dela um espaço
de evangelização, criando condições para que se torne
oportunidade de dar glória a Deus, honrando os Santos
(incluindo a Virgem Maria), em tempo de lazer/recreio e
aprofundamento cultural, tanto popular como cristão.
Neste âmbito tudo o que se consiga realizar servirá de
incentivo a fazer melhor, em abertura à diversidade dos
vários sectores.
Quantas vezes uma simples marcha popular – dizemo-lo
por conhecimento de causa – poderá ser boa oportunidade
de anúncio de Cristo! Quantas vezes um gesto de
simpatia da Igreja – dizemo-lo em razão de vivência –
poderá degelar corações aos desafios da Palavra de
Deus! Quantas vezes uma atitude de acolhimento à
diferença – dizemo-lo por conhecimento e até alguma
vivência – poderá diluir preconceitos para com os
católicos ‘sisudos’ e, sobretudo, os seus responsáveis!
Afinal, o mais genuíno das festas populares não se pode
perder: Jesus Cristo (na evocação de Senhor das
Chagas), Nossa Senhora (da Luz, do Cabo, da Atalaia, da
Consolação, do Carmo, etc.), os santos são honrados na
medida em que os cristãos (crentes, católicos ou
devotos/simpatizantes) aproveitarem as suas festas para
maior conversão, alegria e edificação mútua!
5. Da Igreja em festa à nova evangelização deste
mundo
Na medida em que sabemos o que somos, assim poderemos
fazer propostas àqueles/as que esperam ver o rosto de
Deus em nós e através de nós. A comunhão com os homens
e mulheres do nosso tempo impele-nos a ajudar à festa,
incentivando-a, de olhos postos em Cristo e os pés bem
assentes na terra onde estamos, respeitando os espaços,
os tempos e as funções ... dos outros e as nossas. Com
efeito, as festas religiosas no concelho de Sesimbra
não têm só uma certa dimensão etnográfica nem se
reduzem a algum culturalismo mais ou menos sensível (ou
acomodado) à raiz cristã das mesmas festas, mas antes
só se entendem no contexto geográfico – perto de Lisboa
e tão longe! – numa configuração geo-estratégica
singular e tendo por referência tanto o mar como o
campo. Desta forma, as festas religiosas do concelho de
Sesimbra – para se renovarem conveniente e
articuladamente com a fé cristã – têm de saber donde
vêm e para onde caminham... discernindo os caminhos
pelos quais passam os efeitos festivos.
A.
Sílvio Couto nasceu
em 1959, em Forjães (Esposende). Fez os estudos
eclesiásticos nos Seminários Arquidiocesanos de Braga.
Foi ordenado padre em 1983. Fez a licenciatura e o
mestrado em Teologia Sistemática na UCP. É, desde 1997,
pároco em Santiago, Sesimbra. É autor de mais de duas
dezenas de publicações.
