CRISTOFOBIA NA EUROPA
Para os «tempos longos» da Humanidade – II
«...
enquanto for capaz de anunciar o Evangelho, fiel à
grande Tradição dos Padres e dos Concílios, a Igreja
terá algo diferente a dizer a uma Europa rica, cansada
de si e entregue a ideologias desumanizadoras. E
poderá, assim, constituir-se em comunidade de esperança
num continente envelhecido, que parece ter renunciado
ao futuro».
Por
Elias
Couto
O
«texto» e o «contexto»
1.
A
experiência do fracasso apostólico, a que fiz
referência no primeiro artigo desta série («Para os
“tempos longos” da Humanidade – I», no mês anterior de
«Cristo e a Cidade»), não é um convite a desistir. O
exemplo do apóstolo Paulo é elucidativo: perante o
fracasso de Atenas não desiste, antes renova a sua
confiança n’Aquele que o envia a anunciar o Evangelho
e, sobretudo, renova a sua confiança no poder desse
Evangelho para conquistar os corações e as mentes. Na
Europa de agora, a Igreja, ciente do fracasso de muitas
das suas estratégias, é chamada a seguir o exemplo do
Apóstolo, renovando a sua confiança no poder do
Evangelho, na sua actualidade e capacidade para ser
«destino» dos europeus, sem que tal signifique ignorar
as dificuldades e circunstâncias novas nas quais é
chamada a anunciar Jesus Cristo, único nome «dado aos
homens pelo qual devemos ser salvos»
(Actos
dos Apóstolos, 4, 12).
2.
O «texto» é,
pois, o mesmo: «O programa já existe: é o mesmo de
sempre, expresso no Evangelho e na Tradição viva.
Concentra-se, em última análise, no próprio Cristo
(...). É um programa que não muda com a variação dos
tempos e das culturas, embora se tenha em conta o tempo
e a cultura para um diálogo verdadeiro e uma
comunicação eficaz» (João Paulo II, Novo
millennio ineunte, 29). O
«contexto», porém, é, em muitos aspectos, radicalmente
novo. Olhando a Europa de hoje, não se encontra apenas
indiferença ou desconhecimento do Cristianismo; em
muitos casos, encontra-se verdadeiro ódio ao facto
cristão e, o que é absolutamente novo, camadas inteiras
da população «imunizadas» contra o Cristianismo – é a
ideia nietzscheana do Cristianismo como «doença» da
cultura ocidental levada ao seu extremo e vivida
quotidianamente por muitos europeus.
Negar-se
a si mesma
3. As
justificações podem ser muitas e diversas, mas o facto
permanece: a Europa encontra-se, civilizacionalmente,
numa encruzilhada e as opções que vão sendo feitas
mostram um modelo cultural novo, assente na recusa do
passado da Europa e, sobretudo, do seu enraizamento na
tradição judaico-cristã. Tal recusa é visível em opções
civilizacionais como, por exemplo, a legalização do
aborto e da eutanásia, ou a destruição da família
fundada no casamento entre um homem e uma mulher,
enquanto estrutura primeira da sociedade – as «causas
fracturantes», como se diz entre nós; e constitui uma
opção clara pela ruptura com o próprio passado e com o
essencial do seu ser e agir. Ruptura capaz de se
constituir em oportunidade para edificar algo novo, se
os seus arautos tivessem algum fundamento sobre o qual
edificar a civilização nova que anunciam. Tal
fundamento, porém, não existe, ou pelo menos ainda não
foi inventado – e se os arautos desta nova cultura
europeia tivessem a honestidade intelectual de
Nietzsche, um dos seus patronos, deixariam de promover
a fundamento aquilo que importa fundamentar (os
direitos humanos, a liberdade individual, a
democracia...).
4.
Um dos
momentos definidores desta «nova Europa» foi, sem
dúvida, a recusa, por parte dos intelectuais e
políticos responsáveis pela elaboração da «defunta»
Constituição europeia em incluir no preâmbulo desta uma
referência, mesmo modesta, às raízes cristãs da Europa.
Paradigmática foi a reacção do então presidente
francês, Jacques Chirac, segundo o qual o contributo do
Cristianismo para a Europa não era mais significativo
do que o do Islamismo. Esta afirmação não se pode
atribuir à ignorância. Para além dos interesses
políticos imediatos de Jacques Chirac (em especial,
alimentar a ficção de uma relação privilegiada da
França-potência com o mundo islâmico e agradar à grande
comunidade islâmica em França), revela, sobretudo, a
vontade das elites políticas e intelectuais europeias
de edificar a «nova Europa» sobre um fundamento novo
(mesmo se, como se disse, a precisar de fundamento): «O
homem europeu [mais especificamente, as elites
intelectuais e políticas europeias] convenceu-se de
que, para ser moderno e livre, tem de ser radicalmente
secular. Tal convicção teve consequências cruciais,
letais mesmo, para a vida política e cultural da
Europa. Na verdade, tal convicção e suas consequências
públicas estão na base da crise civilizacional e moral
da Europa contemporânea» (George Weigel,
O Cubo e
a Catedral, p. 46).
5.
O
secularismo radical europeu (melhor dito, o laicismo
radical) a que se refere Weigel, intolerante como todos
os radicalismos, odeia a Europa, tal como ela se
plasmou ao longo dos séculos, graças à tradição
judaico-cristã – e, portanto, odeia a razão mesma da
sua possibilidade. Não hesita, por isso, como fizeram
inicialmente os redactores do referido projecto de
Constituição europeia, em engrandecer o paganismo
helénico e romano, como fontes onde vai beber a nova
Europa e no qual entronca directamente o iluminismo
filosófico e a sua filha política, a Revolução
Francesa, ignorando, sem nenhum prurido intelectual,
mil e quinhentos anos de história europeia. Este
secularismo é, naturalmente, cristofóbico e pretende
que tal atitude seja o denominador comum na vida
pública da «nova Europa» – enquanto, em nome do
multiculturalismo e dos Direitos Humanos, assume
atitudes muito mais contemporizadoras relativamente a
outras formas de crença religiosa presentes na Europa,
de modo particular o Islão.
6. Erigindo-se
como a nova ideologia – e a única permitida no espaço
público europeu – o secularismo radical ganha cada vez
mais rapidamente as características de um novo
totalitarismo, ditando o que é politica e culturalmente
correcto. Ao contrário do nazismo e do comunismo,
porém, não abandona o modelo democrático, antes utiliza
todas as suas potencialidades. Torna-se, por isso, mais
insidioso e também mais perigoso para o Cristianismo,
pois não suscita nenhum movimento de rejeição imediata.
Pelo contrário, é simpático para as massas e acaba
mesmo por seduzir grande número de cristãos, empenhados
em adaptar o Evangelho ao espírito do tempo.
A
esperança
7. A Igreja
sabe, por experiência secular, quanto pode o espírito
do mundo e quão sedutor é o espírito do tempo. Veja-se,
a título de exemplo, quantos, fora da Igreja Católica,
sistematicamente aparecem dando «lições» sobre o modo
como a mesma deveria agir para não «perder» fiéis:
renunciar à defesa da vida desde a concepção à morte
natural; renunciar à indissolubilidade do matrimónio;
renunciar à família e ao valor do casamento;
renunciar..., renunciar... e adoptar aquilo que o
espírito do tempo considera «progressista»: a
contracepção como um fim em si mesma; a promiscuidade
sexual como o modo natural de ser humano; a
homossexualidade como normalidade... e, na sua
organização interna, a ordenação de mulheres; a
destruição da autoridade do Papa; o abandono da
ortodoxia (o papel redentor único e insubstituível de
Cristo, por exemplo) e da Tradição eclesial; a
reinterpretação da Bíblia e até a sua reescrita,
segundo o espírito do tempo... E veja-se quantos
católicos dão acolhimento a estas ideias, mesmo àquelas
que a Igreja Católica, pela voz do Papa, considera
«inegociáveis».
8.
Seguir este
caminho seria o modo mais fácil e também mais directo
para um novo fracasso apostólico. Durante algum tempo,
o mundo louvaria a Igreja e depois desprezá-la-ia, como
algo sem préstimo, pois lhe dava quanto ele já tinha
sem as complicações da religião... Sempre que o fizer,
aplicar-se-á à Igreja a advertência de Cristo: «Ai de
vós, quando todos vos bendisserem, pois do mesmo modo
os seus pais tratavam os falsos profetas»
(Lucas
6, 26). A
esperança da Igreja e dos cristãos não está aí, antes
na fidelidade ao seu Senhor e Mestre. Pois enquanto for
capaz de anunciar o Evangelho, fiel à grande Tradição
dos Padres e dos Concílios, a Igreja terá algo
diferente a dizer a uma Europa rica, cansada de si e
entregue a ideologias desumanizadoras. E poderá, assim,
constituir-se em comunidade de esperança num continente
envelhecido, que parece ter renunciado ao futuro.
Elias Couto nasceu
em 1964. É licenciado em Teologia e Mestre em
Filosofia, pela Universidade Católica Portuguesa.
Trabalha numa Editorial Católica e colabora
habitualmente com a “Agência Ecclesia”. É casado e
pai.
