Cristo e a Cidade
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No princípio é a palavra

A interpretação personalista do mundo e dos humanos é, sem dúvida, a consequência primordial da centralidade da palavra na ontologia, na ética e na antropologia bíblicas. As alternativas não faltam nem param de apresentar-se, ao pensamento e à acção. Somos, por isso, hoje como sempre, colocados perante opções fundamentais: ou a visão judaico-cristã da nossa identidade humana, ou as diversas visões mítico-pagãs que continuam a seduzir muitos dos nossos contemporâneos.

Por João Duque



A afirmação da palavra como princípio – em todos os sentidos do termo – é, sem dúvida, um elemento – ou mesmo
o elemento – central da interpretação bíblica do mundo e do ser humano. A relação entre a palavra e o ser – que assume aquela como princípio deste – e, por extensão, a sua relação com a condição humana, conferem-lhe um estatuto ontológico e antropológico insubstituível. Dele dependem a ontologia e a antropologia bíblicas, com a ética correspondente.

Ora, quer em perspectiva ontológica quer em perspectiva antropológica, as alternativas à interpretação bíblica do mundo são muitas, no passado e no presente. Analisadas bem as coisas, as propostas alternativas do presente retomam, de formas variadas, perspectivas antigas. É o caso das visões naturalistas, que colocam o princípio de tudo na natureza neutra, que tudo constitui de forma unívoca. Ou então, das visões gnósticas, que situam o princípio de tudo num espírito ou alma universal, que tudo anima por igual. Ou então a perspectiva energética, que reduz toda a realidade a um processo de transferência de energias. Todos estes modelos reeditam, em realidade, a visão trágica do mundo, tão própria à cultura oriental e antiga. Segundo essa visão, não resta espaço algum para opções livres de um ser pessoal – de um «sujeito», em certa nomenclatura – nem para modalidades livres de relacionamento inter-pessoal, uma vez que tudo está enformado por um processo impessoal.

Estranhamente, até o denominado «pensamento da diferença», preocupado com a salvaguarda da unicidade individual de tudo o que existe, se enreda numa visão unívoca da realidade, reduzindo a diferença de cada ente concreto a puro momento no movimento mais vasto, impessoal e não individual, que «anima» toda a realidade. É o caso, quase paradoxal, da proposta de Gilles Deleuze, que acaba por reduzir a irredutível diferença de tudo o que é – incluindo do ser humano – ao unívoco processo de um «continuum de intensidades». O que leva a concluir que, no fundo, tudo é o mesmo, devendo-se as diferenças a pura alteração de intensidade.

Do ponto de vista antropológico, esta ontologia da diferença, como permanente repetição do mesmo (o título de uma das mais conhecidas obras de Deleuze é, precisamente,
Diferença e repetição, originalmente editada em Paris em 1968), segundo o modelo do «eterno retorno» de Nietzsche, seu principal inspirador, acaba por conduzir a prática do sujeito a um mecanismo pré-pessoal, o qual, em última instância, determina a identidade pessoal – ou o permanente fluxo de identidades. De facto, a intenção de todo o pensamento deleuziano é “determinar um campo transcendental impessoal e pré-individual, que não se assemelhe aos campos empíricos correspondentes e que não se confunda no entanto com uma profundidade indiferenciada” (Logique du sens, Paris, 1969, 124). Esse campo transcendental é, claramente, o campo unívoco “em que nenhuma qualidade se desenvolve, onde nenhuma extensão se manifesta; …a quantidade intensiva [que determina a diferença como intensidade] é o spatium, teatro de toda a metamorfose, diferença em si que envolve todos os seus graus na produção de cada um. Neste sentido, a energia, a quantidade intensiva, é um princípio transcendental, e não um conceito científico” (Différence et répétition¸ 310). Esta univocidade do princípio energético, como origem de toda a diferença é, ao mesmo tempo, a anulação da diferença na própria origem.

Falar de pessoa, nesse contexto, é muito difícil. Como poderemos, então, falar de liberdade? Mesmo que aparentemente nos libertemos de todos os constrangimentos estabelecidos histórica e racionalmente – como é intenção de Deleuze – nunca seremos livres, relativamente ao fundo ontológico ou transcendental que nos constitui, pois todos os nosso actos estarão determinados por esse mesmo campo transcendental, por mais caótico e difuso que seja.

Um outro pensador «pós-moderno», o espanhol Eugénio Trías
, escolheu outro caminho para explicitar esse «campo transcendental» que pré-determina a actuação individual, dificultando a sua compreensão como acção pessoal, a qual implicaria a real e profunda possibilidade de liberdade e de responsabilidade. Para Trías, é o «espírito da música» que constitui uma espécie de origem ontológica e antropológica. O nosso ser e a nossa identidade estão determinados pelas vibrações da própria natureza, que na música nos atingem de modo irrecusável. No seu recente livro El canto de las sirenas – argumentos musicales (Barcelona 2007), defende uma filosofia da música que é, ao mesmo tempo, uma filosofia musical de toda a realidade. A questão fundamental dessa perspectiva não é a valorização do fenómeno musical – em si antropologicamente muito importante – mas a redução da realidade – sobretudo da realidade humana – a uma leitura segundo a hermenêutica do referido «espírito da música». De facto, já Nietzsche tinha falado da «origem da tragédia», a partir deste «espírito da música». E não entendamos aqui a «tragédia» como mero género teatral. Trata-se da tragédia, em todos os seus significados. Trata-se, em realidade, de uma compreensão trágica do real, sobretudo da existência humana. Segundo essa concepção, a existência de cada ser humano – no seu ser e na sua actuação, que se correspondem – estão pré-determinados, inexoravelmente, por um destino que as próprias forças musicais traçam. O ser humano mais não é do que um prisioneiro fascinado por essas forças, das quais pode tirar grande proveito, mas que em realidade são fundamentalmente dominadoras.

Para além de uma específica filosofia da música – enquanto fenómeno natural e de criação humana – esta filosofia trágico-musical da existência é representante de uma visão do mundo e dos humanos cada vez mais presente. E não pensemos que essa visão se limita ao mundo dos intelectuais. Através do modelo religioso e existencial da New Age, ela acompanha a compreensão do mundo de muitos dos nossos contemporâneos. E, enquanto tal, opõe-se radicalmente à compreensão bíblica da realidade.

É que, para a ontologia bíblica, todo o ser é, sempre, já resposta a uma interpelação ou apelo originário – a uma palavra que lhe é dirigida e que, nesse dinamismo interpelativo, origina o próprio ser de tudo o que é. De modo mais explícito ainda, esse diálogo, no «logos» de uma palavra dirigida de pessoa a pessoa, é a origem permanente de todo o ser humano. Este é o que é, na resposta primordial à palavra do seu criador. Palavra que convoca ao ser e, ao mesmo tempo, ao agir de determinado modo. Por isso, a interpelação é, simultaneamente, ética e ontológica (sem distinção possível de níveis). O ser humano é aquele que é, porque responde livremente a esta palavra primordial, que está ou é no início – que é antes do ser e faz com que tudo seja.

Na resposta a esta interpelação é que podemos escutar a própria interpelação (como tão bem o exprime o filósofo Jean-Louis Chrétien, em
L’apell et la réponse, Paris 1992; ou então, o também filósofo Jean-Luc Marion, em Étant donné, Paris 1997); e é também nessa resposta, como acolhimento de um dom ou interpelação, que o ser humano é constituído – mais do que auto-construído – como pessoa, livre e responsável, isto é, como ser de resposta (como magistralmente exprimiu o filósofo judeu Emmanuel Lévinas).

A interpretação personalista do mundo e dos humanos é, sem dúvida, a consequência primordial da centralidade da palavra na ontologia, na ética e na antropologia bíblicas. As alternativas não faltam nem param de apresentar-se, ao pensamento e à acção. Somos, por isso, hoje como sempre, colocados perante opções fundamentais: ou a visão judaico-cristã da nossa identidade humana, ou as diversas visões mítico-pagãs que continuam a seduzir os nossos contemporâneos.

João Manuel Duque é professor da Faculdade de Teologia da UCP – Braga. É casado e pai de três filhos (joaoduque@mail.telepac.pt).