NA PRAÇA PÚBLICA
por Elias Couto


«Eles não podem dominar eternamente!»

1. Assim dizia Frodo, o Hobbit, ao Mestre Samwise, seu companheiro de jornada rumo aos Montes da Perdição (J.R.R. Tolkien, As Duas Torres). A exclamação de Frodo, num breve instante de luz antes de a noite se cerrar sobre eles, tinha a mais improvável das causas: uma cabeça partida, da estátua de um rei de tempos antigos, sem olhos, toda roída pelo tempo... mas na sua fronte, uma planta enrolara-se, desenhando uma coroa, a que as flores emprestavam o fulgor do ouro. Pequena razão para tão grande esperança, quando em torno deles se adensava o poder da morte, embrulhada na desesperança mais absoluta. Mesmo assim, um sinal...

2. Ouvindo as notícias, quase um ano e meio depois do referendo sobre a legalização e liberalização do aborto, eis o que aparece: de Julho a Dezembro de 2007, a Direcção Geral de Saúde registou 6287 abortos: 2,86 % (179 abortos) por razões «médicas»: malformação do feto, grave risco para a saúde da mulher, ou por motivo de violação (lembram-se que estes casos já estavam previstos na anterior lei); os restantes, ou seja, 6108, foram realizados «a pedido da mulher». Neste mês de Julho, um ano depois da entrada em vigor da nova lei, já vamos em 15 000 abortos – o que significa um aumento notável no segundo semestre.

3. Para notar: estas 15 000 crianças foram mortas legalmente, antes do nascimento, a pedido das mulheres que era suposto serem as suas guardiãs mais extremosas e a expensas de todos os contribuintes; segundo um responsável da área da «Saúde Reprodutiva», dos milhões de euros gastos nestes abortos, só constituem despesa os gastos nas «clínicas» privadas, pois os gastos nos hospitais estatais ficam no «Sistema» – ora, como é evidente, o «Sistema» paga-se a si próprio, não dá despesa a ninguém...; há notícias de mulheres que em pouco tempo realizam dois e três abortos, como se de um método contraceptivo se tratasse; na sua imensa generosidade com o dinheiro de todos nós, o governo socialista, secundado por promulgação presidencial, decidiu incluir no «subsídio social de maternidade» as mulheres que abortam livremente e a seu pedido – não fora trágico e seria motivo para gargalhada este «subsídio ao aborto» disfarçado; finalmente, e embora estejamos abaixo dos números anunciados pelos defensores do aborto a pedido, quando do referendo, tudo leva a crer que, tal como nos outros países, haverá um aumento exponencial nos próximos anos – o segundo semestre de vigência da lei já o mostra, relativamente ao primeiro. Afinal, a lei do aborto a pedido não é, como diziam os seus defensores, um contributo para a diminuição do aborto; apenas serve para tornar o aborto uma das anormalidades normais cada vez mais abundantes nesta sociedade empenhada em suicidar-se.

4. Lendo os jornais e sentindo o pulsar da sociedade, nada me autoriza a repetir a exclamação de Frodo. No entanto, de vez em quando há uma luzinha: como aquele caso de uma mulher que ligou para o «S.O.S. Grávida» em busca de auxílio para abortar e acabou sendo uma mãe feliz com um filho já de várias semanas de idade... Breves clarões no meio das trevas, como este, são o suficiente para continuar: em nome dos milhares legalmente mortos no nosso país, em nome dos milhões legalmente mortos na Europa e em todo o mundo, em nome dos mais frágeis entre os frágeis... Não se pode abandonar o terreno, não se pode ceder à desesperança, não se pode deixar de falar, escrever, ajudar – a tempo e fora de tempo, seja-se simpático ou não... Não se pode, simplesmente. Na certeza de que «Eles não podem dominar eternamente!»


O Papa dos Judeus

1. Já o escrevi noutras circunstâncias. O «estilo Dan Brown» é, actualmente, o pior inimigo da Igreja e do Cristianismo, embora quase ninguém lhe preste atenção ou dê importância. Este «estilo» consiste, simplesmente, em reescrever a História da Igreja, segundo os modelos culturais mais na moda, usando para tal a liberdade do romance ou da coluna de opinião. Num caso como noutro, o rigor histórico não desempenha qualquer papel: repetem-se, simplesmente, slogans mais ou menos simpáticos à «intelectualidade» dominante, criam-se narrativas nas quais se reivindica, por um lado, a liberdade do romancista e, por outro, o rigor do historiador (e quando este é apanhado em contra-pé, pode sempre defender-se com a liberdade daquele)... e vai-se criando uma cultura popular difusa na qual o Cristianismo aparece como inimigo do progresso; a Igreja (sobretudo a Católica) como um bando de criminosos há séculos instalados nos lugares de domínio da sociedade, recorrendo sistematicamente à fraude para garantir a fidelidade e subserviência dos crentes; o Vaticano (e os Papas) como cabeça desta vasta conspiração na qual aparece sempre aliado aos poderosos do momento...

2. O caso do Papa Pio XII é particularmente elucidativo. Durante a segunda guerra mundial, a Igreja Católica, e de modo particular o Vaticano e Pio XII, esteve na linha da frente da luta para salvar a vida aos judeus perseguidos pelos nazis – o que nem alguns governos das democracias fizeram. Após a segunda guerra mundial, as comunidades judias não cessaram de agradecer o papel discreto, mas de enorme valor desempenhado por Pio XII nesta luta... Até surgir uma peça teatral, intitulada «O Vigário», acusando Pio XII de conivência com os nazis e de silêncio face ao holocausto. A partir de então, o mito do «Papa de Hitler» viria ganhando cada vez maior divulgação, ao ponto de dar o título a um livro pseudo-histórico sobre o tema. Hoje, há informação suficiente para se perceber que a pretensa peça teatral foi «encomenda» do KGB soviético, destinada a denegrir Pio XII e a atacar a Igreja Católica – e muitos dos que se deixaram enredar no conto do «Vigário» não passaram de idiotas úteis ao serviço desta peça de desinformação e propaganda comunista (cf. Ion Mihai Pacepa, «Moscow’s Assault on the Vatican», in National Review Online, 25 de Janeiro de 2007).

3. Nada disto, porém, interessa, quando está em causa continuar a usar o mito para denegrir a Igreja. Não admira, por isso, que Baptista Bastos, num artigo lamentável, publicado no Diário de Notícias de 2 de Julho de 2008 e intitulado «O Preço das Missas», no meio de uma enxurrada de ataques disparatados à Igreja, consiga, a propósito do «preço das Missas», introduzir um parágrafo sem propósito (aparente), do seguinte jaez: «O papa do Hitler, Pio XII, que abençoou as Divisões Panzer, e estendeu o braço numa saudação aberrante, não é, somente, a simbólica de uma época: reflecte uma intenção e assinala uma ideologia» – o «estilo Dan Brown» no seu melhor! Não é preciso provar nada, explicar nada, argumentar nada. Atira-se o lixo à parede e espera-se que cole, e sabe-se que colará em muitos lados, e sabe-se que não deixará de produzir os seus efeitos.

4. Há quem considere perdida a «guerra» sobre Pio XII; não no campo dos argumentos históricos, mas nos ambientes intelectuais empenhados em atacar a Igreja e sobretudo na cultura popular, na qual prospera o «estilo Dan Brown» [cf. Joseph Bottum, «The End of the Pius Wars», in First Things, 142 (Abril de 2004), pp. 18-25, onde se pode ler, logo a abrir: «It was a long and arduous struggle, vituperative and cruel, but, in the end, the defenders of Pius XII won every major battle. Along the way, they also lost the war»]. Felizmente, os últimos anos continuam a trazer testemunhos e documentos. Um deles, significativamente intitulado «O Mito do Papa de Hitler» e ainda mais significativamente escrito por um rabino judeu, David Dalin, Professor de Ciências Históricas e Políticas, apresenta documentação abundante provando o empenho de Pio XII em salvar os judeus perseguidos. E aconselha mesmo o Estado de Israel a atribuir ao Papa o título de «Justo entre as nações». Que o livro de Dalin tenha conhecido reacções extremistas dos sectores mais anti-católicos, sobretudo nos Estados Unidos, só mostra a sua necessidade e o seu acerto.

5. Claro que a Baptista Bastos isto não interessa nada. Aliás, isto não interessa nada a ninguém que cultive o «estilo Dan Brown». Para estes, interessante mesmo é trabalhar para, finalmente, cumprir o desejo de tantos, expresso na esperança republicana de acabar com a Igreja em Portugal em duas gerações. Mas também é claro que quando a poeira assentar e tudo isto já estiver no caixote do lixo da História, estes senhores estarão esquecidos e a Igreja continuará por cá. Assim aconteceu nos últimos dois mil anos... e não vai ser diferente nos tempos duros que nos foi dado viver.


O «preço das missas»… ou de como o disparate não compensa

1. O artigo de Baptista Bastos citado no apontamento anterior («O Preço das Missas», in Diário de Notícias de 2 de Julho de 2008) pretende ser, sobretudo, uma reflexão (?) a propósito do anúncio, por parte da Igreja Católica em Portugal, de que o estipêndio relativo à celebração de eucaristias por intenções particulares foi, ou vai ser, actualizado. Não andou só, o jornalista do DN, nesta preocupação com o «preço» das missas. Pude ouvir o apresentador do «Jornal da Tarde» da RTP 1 anunciar, com ar entre o gozo e o desprezo, que «a fé está mais cara». E até um jornal diário católico anunciou, em título, «Missas mais caras».

2. Baptista Bastos levou, no entanto, o argumento aos limites. Para o cronista, em registo de tablóide, «o preço das missas» e o aumento dos transportes são duas faces da mesma moeda. E lamenta-se – como se a ele isso lhe interessasse alguma coisa: «Ajudava, para alguns, o encontro com Deus, na liturgia missal. Agora, até esse alívio dos aflitos cobra aumento. [...]. O preço das missas vai corresponder a que tabela? A uma medida semelhante à dos transportes colectivos? Por tempo, equivalendo este à quilometragem? Em quanto vai importar uma modesta novena? E um piedoso rito de defuntos?». Já está o leitor a ver o estilo da escrita e o objectivo do escriba.

3. Bem pode Baptista Bastos afligir-se com as notícias sobre o «preço das missas». Não seja isso, porém, a impedi-lo de, sem preocupação alguma, participar em qualquer celebração da Eucaristia, pois ninguém lhe vai exigir um cêntimo. Fique também registo de que a Eucaristia não se paga em lado nenhum – nem, se fosse o caso, haveria neste mundo dinheiro suficiente para pagá-la. A Eucaristia é dom de Deus, dom gratuito, como tudo quanto vem de Deus, em Jesus Cristo. A Igreja não celebra a Eucaristia porque alguém a possa pagar ou a pague, mas porque «a Eucaristia faz a Igreja» (João Paulo II, Carta encíclica Ecclesia de Eucharistia) – por muito longe que isto esteja da capacidade de compreensão de Baptista Bastos.

4. Outra coisa, bem diferente, é a Igreja pedir aos fiéis que solicitam a celebração da Eucaristia por uma intenção particular (um defunto da família, por exemplo) a participação na mesma Eucaristia – e, secundariamente, a oferta à Igreja de algo de seu, como sinal de gratidão e contributo para a sustentação material da mesma Igreja. Ora, sendo o dinheiro a forma mais comum e fácil de, entre nós, se proceder a um tal gesto, é perfeitamente lógico que a Igreja estabeleça um valor para tal contributo – assim, procura prever eventuais tentações de simonia e promove a igualdade de tratamento para todos, sem impedir a generosidade dos fiéis de ir além do previsto. Actualizar este «estipêndio», em função das circunstância sociais e económicas da sociedade, insere-se na mesma lógica e procura evitar a tentação de desvalorizar, não a Eucaristia, mas o acto de solicitar à Igreja a sua celebração por uma intenção particular.

5. Citando o teólogo Marcel Neusch – dá sempre jeito ter um teólogo à mão para citar – Baptista Bastos lembra que, para muitos, Deus «deixou de fazer parte das questões que interessam aos homens». Só não se percebe, neste contexto, por que se preocupa Baptista Bastos... Ter um teólogo para citar dá sempre jeito... ter dois, nem se fala! Baptista Bastos socorre-se, por isso, do Padre Anselmo Borges, para lembrar as contradições dos crentes, repartidos por tantos credos e apelando todos a Deus uns contra os outros: «Que Deus é esse, em nome do qual se aterroriza e mata pessoas? Há guerras em curso, e os cristãos pedem ao Deus, os judeus pedem ao Deus, os muçulmanos pedem ao Deus. Qual Deus? E que vai Deus fazer para atender a todos contraditoriamente?» Eu também tenho umas perguntas: onde encontra o Padre Anselmo Borges motivos para colocar os terroristas da Al Qaeda ao mesmo nível de um qualquer cristão rezando pacificamente, em cada domingo, pela paz no mundo?; e onde vai ele buscar a contradição dos crentes e a dificuldade de Deus em lidar com eles?

6. Continua Baptista Bastos: «A evidência é que a dimensão histórica da cruz permitiu toda a espécie de abusos, inclusive o da superstição. As missas são agora mais caras. A decisão, creio que vaticana, obedece a uma exigência dos tempos, que transforma os arautos e servidores do Reino em deploráveis mercenários». Já se imaginava! Na cabeça de Baptista Bastos, aumentar o «preço» das missas tinha de ser uma malfeitoria do Vaticano – uma maldade deste jaez não poderia vir senão de uma instituição tão execranda como essa. Ser algo tão simples como uma decisão da Conferência Episcopal Portuguesa não lhe passa pela cabeça – e se passasse, não deixaria de incluir tal Conferência no número das vaticanas instituições empenhadas em promover a superstição e a transformação dos «arautos do Reino em deploráveis mercenários».

7. A liberdade de expressão é inquestionável, quando se vive em democracia. Baptista Bastos pode pensar e escrever o que bem entender, sobre a Igreja Católica ou outro assunto qualquer. Mas, escrevendo sobre a Igreja Católica, por mais alicerçado que esteja em citações de teólogos, podia bem evitar o recurso ao disparate... pois este nem ajuda a Igreja nem engrandece o Autor.

8. A propósito, ainda uma pequena nota. Ao citar, convém ser rigoroso. Baptista Bastos, no parágrafo final, cita Santo Ireneu, numa famosa passagem da obra Adversus Haereses. Segundo o Autor, talvez por ser conveniente, Santo Ireneu afirma «A glória de Deus é o pobre vivo». De facto, o que Santo Ireneu deixou como intuição imorredoira foi: «A glória de Deus é o homem vivo; e a vida do homem consiste na contemplação de Deus» (Livro 4, cap. 20, 7).