Virtudes cristã e existência cotidiana
Em um tempo tão marcado por vícios, os cristãos de hoje, como nas origens da moralidade cristã, são convocados a não perderem o entusiasmo por uma existência sedimentada na vivência de virtudes.
Por Adelino Francisco de Oliveira*
“Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13, 35).
Abordar a questão das virtudes no contexto em que vivemos configura-se como assunto que desperta pouco interesse na maioria dos espaços de discussão. Aliás, a sociedade contemporânea revela uma forte propensão e fascínio para tudo que estabelece relação com os vícios. Talvez seja este, inclusive, o sinal de alerta mais característico de uma sociedade que se encontra mergulhada em grave e profunda crise de valores, tomada por posturas hedonistas.
O Cristianismo, desde suas origens, instaurou uma dinâmica de moralidade singular, a reger o comportamento cotidiano de seus adeptos. Assim, os cristãos, ainda no ambiente da antiguidade, passaram a se distinguir na sociedade de então justamente por suas atitudes calcadas fundamentalmente na vivência de virtudes apreendidas no limiar do seguimento de Jesus.
As comunidades cristãs, sob a genuína inspiração dos impactantes ensinamentos de Jesus – que passou fazendo o bem –, buscavam viver a prática das virtudes no cotidiano da existência. Neste sentido, ao receber o batismo – sacramento de iniciação à vida cristã –, o convertido distanciava-se dos vícios do mundo para assumir plenamente uma nova existência, agora ancorada em outra perspectiva de moralidade. Os cristãos compreendiam que a vida cotidiana deve refletir a concepção de moralidade. Aliás, a moralidade apenas alcança sentido quando passa a expressar virtudes vividas na dinâmica do dia-a-dia, tendo em vista que estas últimas nada mais são do que belos hábitos.
Assim, a adesão à comunidade cristã exigia uma autêntica mudança de mentalidade (metanóia). O cristão passava a viver sob o auspício de uma comunidade, identificada pela fé em Jesus Salvador. Tal fé traduzia-se em ações morais, a guardarem certa objetividade: a vida de Cristo como modelo; o amor incondicional ao próximo; a vida ascética; a centralidade da oração; a escuta e a partilha da palavra; a vocação ao serviço; a comunhão fraternal na fração do pão; o cuidado para com os doentes; a sacralidade da família; a dignidade do humano (seja criança, escravo, mulher, doente, pobre etc.). Em duas palavras, para o cristão a vida definia-se na diaconia e na liturgia.
Em um tempo tão marcado por vícios, os cristãos de hoje, como nas origens da moralidade cristã, são convocados a não perderem o entusiasmo por uma existência sedimentada na vivência de virtudes. O projeto de vida revelado por Jesus Salvador interpela a cada cristão a fazer de sua existência cotidiana um autêntico testemunho de que na prática da moralidade cristã se desvela o único caminho para a realização plena do humano. E lembremos: o cristão toma uma postura firme, apartando-se de um mundo apelativo, prático, carregado de desejos e vontades vãs, quando levado a experimentar a espiritualidade genuína, calcada no exercício contumaz das mais belas virtudes.
* Adelino Francisco de Oliveira é Professor de Ética e Teologia na Faculdade Salesiana Dom Bosco de Piracicaba (adelino.oliveira@terra.com.br)