Cristo e a Cidade
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Educar é desafiar a ir mais além


Duas histórias parecidas, dois resultados bem diversos, a provar que não são as circunstâncias as responsáveis pela nossa felicidade, mas a atitude com que nelas nos situamos. Em situação de crise como a que vivemos, esta pode ser a descoberta que é urgente fazer para que não nos desgastemos em ficar pelo diagnóstico fatalista que nada resolve.

Por Luís Silva*

Há alguns anos, numa jornada de estudo que serviu de mote ao livro «A que pais têm os filhos direito?», ouvi ao grande mestre da bioética, Dr. Jorge Biscaia, uma história que ilustra como a nossa abordagem dos fracassos pode condicionar de forma quase decisiva a nossa realização pessoal.

Contava, então, o pediatra que sempre recorda as vidas de Hans Christian Andersen e de Marilyn Monroe como exemplos do que pode fazer-se perante o fracasso da vida.

Ambos ficaram órfãos, durante a infância, tudo podendo reunir-se para que se perdessem, definitivamente. Porém, Hans Christian Andersen foi ajudado por uma sua familiar (talvez uma tia) a compreender que as terríveis circunstâncias da sua vida deveriam desafiá-lo a superar-se. Perante o fracasso, deveria colocar-se em atitude de quem descortina oportunidades e não se desgasta a pensar que foi vítima de uma fatalidade. A atitude fatalista redundaria numa posição depressiva, que conduziria a infelicidade permanente. Por oposição, deveria tornar-se um homem feliz e criativo, capaz de honrar o bom nome do seu pai através da sua obra. Este dinamismo veio a fazer de Hans Christian Andersen uma das mais geniais e criativas mentes humanas, capaz de dar vida a figuras da imaginação como o Polegarzinho, o soldadinho de chumbo e tantas outras em que as crianças do mundo se reconhecem retratadas.

Em contraposição, Marilyn Monroe situa-se na postura dos que, perante o fracasso, conduzem uma vida que, podendo ser de sucesso financeiro, se esfuma numa infelicidade interior desmedida. Viveu a infância entre orfanatos, por ser considerada filha de pai incógnito. Quando adulta, apesar de parecer ter o mundo a seus pés, foi uma mulher infeliz, deprimida, incapaz de amar, apesar de revelar estar numa busca constante da felicidade perdida. Jamais foi capaz de transformar o fracasso da sua infância numa oportunidade para se realizar. O fracasso foi, sempre, para si, sinónimo de fatalidade, redundando num fim de vida, consumado no suicídio.

Duas histórias parecidas, dois resultados bem diversos, a provar que não são as circunstâncias as responsáveis pela nossa felicidade, mas a atitude com que nelas nos situamos. Em situação de crise como a que vivemos, esta pode ser a descoberta que é urgente fazer para que não nos desgastemos em ficar pelo diagnóstico fatalista que nada resolve.

É oportuno, aliás, recordar as palavras da mãe do grande Stephen Hawking, por muitos considerado o maior génio da Física, desde Albert Einstein, que há mais de 20 anos sofre de esclerose lateral amiotrófica, uma rara doença que paralisa os músculos e o tem prendido a uma cadeira que, para muitos, seria sinónimo de derrota e fim de fecundidade intelectual e social. Pelo contrário, Isobel Hawking, mãe do físico, reconhece que «ele mesmo diz que não teria chegado aonde chegou se não fosse pela doença. É bem possível, porque ele se tem concentrado nas suas matérias de uma maneira que – acho – não teria feito se pudesse andar por aí, como ele costumava fazer. Não posso dizer que alguém seja sortudo tendo uma doença como esta, mas é menos ruim para ele do que seria para algumas pessoa, pois Stephen pode muito bem viver dentro da sua própria cabeça.»

O desafio que sempre o Cristianismo de matriz católica tem feito é o de nunca nos rendermos a uma visão fatalista que nos derrota, mas o de olharmos e agarrarmos a vida sempre com o olhar num futuro marcado pela esperança. Esperar não é só ter utopia. É soprar na torcida que ainda fumega! É proteger e cuidar onde ainda há uma réstia de vida. É ser de forma total enquanto ainda não se deixou de ser!

Luís Manuel Pereira da Silva vive em Aveiro, é Licenciado em Teologia e Mestre em Bioética, pela UCP, é docente de EMRC e do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro. É casado e pai.