Cristo e a Cidade
Um sítio ecuménico que não representa nenhuma Igreja cristã particular; sítio de cristãos empenhados em contribuir, de modo sereno mas eficaz, para tornar presente no espaço público a voz da Igreja de que são membros, na fidelidade ao seu Magistério, propondo-se fazê-lo sem renunciar às exigências da razão nem às da fé cristã.

Paz: dom e tarefa


Do justo equilíbrio entre o chamamento a ser construtores de paz e o dever de proteger os inocentes (de modo nenhum antagónicos) há-de resultar, em cada situação concreta, a escolha dos meios mais adequados para levar por diante o objectivo de uma paz que se edifique sobre a justiça...


Por Elias Couto

1. O pecado tem raízes fundas no coração humano – e a violência é filha do pecado. Não é de estranhar, portanto, que a paz seja uma realidade frágil e sempre ameaçada por outros interesses – e que as guerras, tal como é dito a Caim a propósito do pecado (Génesis 4, 7), «durmam» à porta do coração do homem, sempre propenso aos agravos e à violência. Ao mesmo tempo, porém, a paz é um desejo comum a todos os humanos. Mas a sua realização, mesmo parcial, só pode assegurar-se mediante a partilha de valores comuns e tidos por inquestionáveis: a vida, a liberdade, de modo particular a liberdade religiosa, o primado da lei...

Para que tais valores constituam referência comum dos indivíduos e dos povos, é absolutamente imprescindível o diálogo honesto, que leva ao conhecimento e respeito mútuos. Hoje, felizmente, a diversidade de meios de comunicação torna muito mais fácil o encontro, a partilha de ideias e valores, a superação de preconceitos... Os mesmos meios de comunicação podem, é certo, ser usados para difundir estereótipos que aumentam tensões e promovem a ignorância. Apesar de tudo, quem estiver seriamente comprometido na edificação da paz tem ao seu dispor possibilidades únicas de trabalhar nesse sentido.

2. Nos últimos anos, tornou-se comum um “pacifismo” dito laico e assumidamente anti-religioso. A sua premissa assenta na consideração das religiões como forças extremistas, porque exclusivistas, e, assim, fontes permanentes de conflitos e guerras. Daí a necessidade de, não se podendo exterminar as religiões, as relegar para o foro íntimo, negando-lhes qualquer forma de manifestação ou acção no âmbito da vida pública.

Como salienta o Papa Bento XVI, na sua
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2011, esta premissa não só é falsa como inverte totalmente os dados da questão. É verdade, afirma o Santo Padre, que os fundamentalismos são inimigos da paz, mas são-no porque são inimigos da religião – sejam de origem religiosa, sejam de origem laica. Pelo contrário, o respeito pela liberdade religiosa – liberdade de ter uma religião, de a viver em privado e em público, de retirar dela consequências para a acção em sociedade; liberdade para mudar de religião, sem nenhum constrangimento; liberdade para não ter nenhuma religião – é condição indispensável para a edificação da paz, na medida em que vai ao encontro de uma das dimensões estruturantes do ser humano.

3. Sendo tarefa dos indivíduos e dos povos – há até uma bem-aventurança evangélica para os construtores da paz – seria ingénuo, à luz da condição humana ferida pelo pecado e à luz da história, julgar que a paz possa ser fruto acabado do agir humano. Esta incapacidade é testemunhada de modo particularmente intenso pela Bíblia, na qual o desejo da paz vai sempre junto com a certeza de que aquela só pode acontecer, definitivamente, como dom de Deus. Compreende-se, por isso, que os profetas, embora ansiando por ver a paz realizar-se nos seus dias, profetizem para um tempo outro, no qual a justiça e a paz serão dom de Deus, por meio do seu Messias – e que esse tempo outro seja chamado «o fim dos tempos».

Com Cristo inaugurou-se este «fim dos tempos» mas a sua realização plena ainda não está consumada. O mal e a violência continuam, por isso, a ter lugar neste mundo, marcado por tantas formas de pecado. Assim, embora desejando a paz e trabalhando para que ela seja uma realidade, os cristãos não podem ignorar a possibilidade de a violência e a guerra lhes serem impostas. E, não raro, a passividade não é uma escolha, sobretudo quando está em causa a sorte dos inocentes. Do justo equilíbrio entre o chamamento a ser construtores de paz e o dever de proteger os inocentes (de modo nenhum antagónicos) há-de resultar, em cada situação concreta, a escolha dos meios mais adequados para levar por diante o objectivo de uma paz que se edifique sobre a justiça – pois, com bastante frequência, é impossível edificá-la sobre o amor mútuo e sem necessidade do recurso à legítima defesa.