Raízes europeias há muitas, mas…
por João Duque
“Que seria da identidade europeia e do seu contributo
para a identidade da humanidade, sem a pessoa de Jesus
Cristo e sem a leitura que dela fez S. Paulo?”
Assim terminei, há tempos, uma intervenção sobre alguns
temas paulinos, dignos de reflexão neste ano dedicado ao
apóstolo dos gentios. Na ocasião, tinha-me concentrado
nos temas da igualdade, liberdade e fraternidade. Ora,
nada melhor do que seguir estes temas, a propósito da
questão levantada acima.
1.
Que seria da identidade europeia, quanto à noção de
igualdade? Estaria longe, sem dúvida, da ideia de que
todos os seres humanos são iguais por natureza. É que o
mundo antigo tinha uma ideia limitada de igualdade.
Iguais eram os homens livres, entre si. Mas estes não
eram iguais aos escravos, pois tinham nascido de outra
natureza. Os escravos eram iguais entre si – mas como
escravos. E as mulheres eram iguais entre si, mas não
eram iguais aos homens, pois possuíam também diferente
natureza. E não se tratava, simplesmente, de diferença
sexual, que essa é incontornável; era antes diferença «de
género», como hoje se prefere dizer: diferenças de
papéis, de posições, de poder, etc., oriundas do simples
facto de serem mulheres.
Um dos elementos mais básicos da noção de igualdade no
mundo antigo era o político. De facto, a igualdade
fundamental dos “cidadãos” de determinada “cidade”
(polis
grega, ou civitas
latina, ou mesmo o imperium
romano) não encontrava o seu fundamento no facto de serem
pessoas humanas, mas sim no facto de pertencerem
etnicamente a essa “cidade”. Por isso, eram radicalmente
diferentes dos estrangeiros, mesmo que estes habitassem a
mesma cidade ou outro espaço. Um cidadão romano era
radicalmente diferente de um bárbaro – sem tirar nem pôr!
Assim sendo, sem a intervenção do cristianismo – mesmo
que os resultados dessa intervenção tenham demorado
séculos a manifestar-se – no sentido das palavras de S.
Paulo, de que não há diferença fundamental entre homem
livre ou escravo, entre homem ou mulher, entre «cidadão»
ou estrangeiro, dificilmente teríamos chegado sequer à
ideia de igualdade que hoje já se nos tornou banal.
Porque o fundamento da igualdade não é outro, senão o
facto de cada um ser pessoa, originariamente criado por
Deus e também originariamente liberto por Cristo – o que
se aplica a todos os humanos, cristãos ou não.
2.
Ora, com isto chegamos ao segundo elemento da identidade
europeia: a liberdade. Pode parecer uma banalidade
afirmar que o ser humano é livre, mesmo no interior dos
inúmeros condicionamentos dessa liberdade; e igualmente
banal parece hoje afirmar que essa liberdade deve ser
respeitada, em todas as circunstâncias. De facto, a nossa
vida quotidiana assenta, de tal modo, nesse pressuposto,
que até nos custa pensar que possa ser colocado em causa.
Mas, se assim é e se as sociedades europeias
contemporâneas, de modo mais ou menos perfeito, tentam
fazer valer o princípio da liberdade pessoal, isso
deve-se a um longo trajecto histórico. Trajecto esse que
parte de um pressuposto fundamental: o ser humano é
livre, em relação a todos os elementos da natureza e,
sobretudo, em relação aos outros seres humanos e,
radicalmente, em relação a si mesmo. Porque assim é,
podemos considerar que os seres humanos são pessoalmente
responsáveis pelas suas decisões – apesar de todas as
circunstâncias atenuantes dessa responsabilidade. Nesse
sentido, ser livre e relacionar-se, em sociedade, segundo
o princípio da responsabilidade, são duas faces da mesma
moeda: a da pessoa humana.
Ora, o mundo antigo tinha, genericamente falando, uma
visão diversa. Fundamentalmente, o destino governava a
vida das pessoas. Tudo o que os humanos fizessem era,
radicalmente, apenas aparência de liberdade, pois estaria
pré-determinado pelo destino – que até determinava a vida
dos deuses. Dentro deste determinismo absoluto, haveria
lugar apenas para uma liberdade aparente. Esta, por seu
turno, estava determinada pela natureza («classe») a que
se pertencesse ou pela cidade de que se era cidadão.
Assim sendo, a margem de manobra para actuação da
liberdade pessoal seria mínima.
Em reacção a este esquema, houve quem tentasse vias de
liberdade individual. Mas tal só era possível na
afirmação absoluta do indivíduo, com a correspondente
desresponsabilização pela vida pública e pela relação aos
outros. Os individualismos cínicos, estóicos ou
epicuristas são disso manifestação, como espécie de fuga
e protesto contra a vida social.
Uma Europa herdeira destas perspectiva, ou seria uma
Europa de mitos, que subjugava pessoas particulares a
destinos colectivos ou cósmicos, tal como acontece com
muitas filosofias asiáticas, ou então como aconteceu com
muitas ideologias dominadoras dos sujeitos; ou seria uma
Europa de indivíduos, em permanente luta com a vida
social e com os outros, sem capacidade de construção de
uma sociedade pacífica, em que a liberdade de cada um
crescesse na mesma ordem que crescesse a sua
responsabilização pela liberdade e dignidade dos outros,
de todos os outros e de cada outro, em particular.
O cristianismo – e especificamente S. Paulo, com a sua
teologia da liberdade – assenta no princípio fundamental
de que o ser humano, como criatura de Deus, é livre mesmo
perante o seu Deus – até ao ponto de O poder contrariar e
mesmo negar, ou até matar. Dessa liberdade radical, surge
a dignidade e responsabilidade do ser humano. Ele é,
primordialmente, um ser perante Deus, ao qual responde,
respondendo pela sua liberdade. E porque assim é,
originariamente, assim é em todas as modalidades de
existência. A tradição judaico-cristã – que S. Paulo
concentrou, admiravelmente, no topos
da relação entre lei e liberdade – é que impulsionou
todas as lutas e conquistas da liberdade humana, até à
afirmação do direito fundamental à liberdade – mesmo e
sobretudo, à liberdade religiosa, à liberdade de não ser
cristão e de nem sequer ser «crente».
Se permanecêssemos romanos, pelo contrário, teríamos que
adorar os deuses imperiais – e quantos impérios constroem
as sociedades humanas! Se permanecêssemos gregos,
teríamos que acolher tragicamente as determinações do
destino – ou então, refugiar-nos-íamos na concha da nossa
individualidade, sem qualquer pragmática social da
liberdade. Para quê, então, o estado democrático? Apenas
para permitir que cada um fosse o único eremita do seu
mundo?
3.
Chegamos, assim, ao terceiro elemento da identidade
europeia, o mais explicitamente cristão de todos eles: a
fraternidade. A fraternidade parte de um pressuposto que,
pelo que vimos, nenhuma raiz europeia possui, a não ser a
raiz cristã: o pressuposto de que todos somos irmãos. Em
certa medida, nem a tradição judaica o possui tão
claramente. Embora esta assente na convicção de que todos
somos igualmente criaturas de Deus, a eleição do povo de
Israel instaura, entre os seus membros (etnicamente
falando), laços fraternos que não ligam necessariamente
toda a humanidade – a não ser por certa extensão
metafórica.
Foi o Filho de Deus, Jesus Cristo, que nos libertou
dessas distinções e fez de toda a humanidade uma família
de filhos, tal como Ele. Ora, sendo todos filhos do mesmo
Pai – assim chamam os cristãos a Deus – a relação entre
nós não pode ser outra senão de fraternidade. Porque não
há ninguém superior a ninguém. Os filhos e irmãos são,
enquanto tais, todos iguais em dignidade.
Ao mesmo tempo, são sujeitos de liberdade – porque são
filhos, não escravos, não empregados (ver a parábola do
«Filho pródigo»), não propriedade de alguém. Essa
liberdade, em relação ao Pai, fundamenta a liberdade, na
relação entre os irmãos, assente na igualdade
fundamental. Assim, os dois elementos anteriormente
abordados estão aqui concentrados.
Mas os irmãos são algo mais que iguais e livres. Os
irmãos amam-se, naturalmente, gratuitamente. A relação de
amor entre irmãos acontece «porque sim», sem qualquer
interesse, mesmo sem qualquer atracção erótica ou de
outra ordem. Essa é a modalidade básica do amor: entre
seres iguais e diferentes, de modo absolutamente
gratuito, sem uma finalidade senão o puro amor.
E quem se ama sente-se responsável por aquele(a) a quem
ama. Responsabilidade essa que vai até à substituição,
até à doação da vida pelo irmão. Essa é a fraternidade,
no pleno sentido do termo. E essa é a fraternidade
cristã, assumida como fraternidade universal – entre
todos os humanos e não apenas entre cristãos ou entre
pessoas do mesmo sangue. Nesse sentido, todos somos do
mesmo sangue.
Sem esta raiz, a Europa nunca teria assumido a sua
vocação universal de construir uma fraternidade entre
todos os humanos. É claro que foi muitas vezes infiel a
este ideal elevado. Mas não será este o âmago da sua
identidade? Caso contrário, reduzir-nos-emos a
tribalismos estéreis ou perigosos; ou então
deixar-nos-emos dominar pela pura manipulação de
interesses económicos ou de poder. Não assentará o
autêntico humanismo europeu nesta ideia de fraternidade
universal – não apenas entre europeus e para europeus? E
que outra raiz possui esse ideal de fraternidade, senão a
raiz cristã, com base em Jesus Cristo, o irmão dos
irmãos, porque o Filho dos filhos? E quem melhor do que
S. Paulo soube viver, pregar e escrever essa
fraternidade? Que seria da Europa… sem certas raízes?
João
Manuel Duque é
professor da Faculdade de Teologia da UCP – Braga. É
casado e pai de três filhos
(joaoduque@mail.telepac.pt).
