Cristo e a Cidade
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Revisitando a recusa da fé cristã por Russell: uma reapreciação

por Manuel Sumares

[A metafísica teísta ] ...postula uma causa maior, eminente e sempre generosa, cuja finalidade é elevar e dar graça, insinuando a oferta radical de um Dom que não deve ser, e que não era para ser, recusado.

Ao reflectir sobre “o artista enquanto servo responsável” no seu livro Art in Action, Nicholas Wolterstorff interrompe a sua exposição para considerar a validade da tese de como a tendência para a religiosidade está disseminada na humanidade. Ainda que reconheça que a ideia é em termos gerais válida, argumenta contudo que tal tendência não é de forma alguma irresistível. Com efeito, esta pode ser resistida, e é possível propor uma doutrina não-religiosa para a substituir. Conclui que certas pessoas são deliberadamente não-religiosas e, apesar do que Paul Tillich pensa, simplesmente não fixam a sua atenção numa preocupação última – “ultimate concern”. Em vez disso, verificamos que os seres humanos têm “uma multiplicidade fracturada de preocupações” e que preferem ser assim, manifestando a sua rebeldia espiritual perante um Deus Único como o que é revelado na Escritura e na ordem criada, tal como foi sugerido por Paulo em Romanos 1, 18-32. Para Wolterstorff, “[A Bíblia] nunca põe em causa a ideia de que todos aqueles que não são verdadeiramente crentes no verdadeiro Deus têm contudo uma religião. Simplesmente considera estes como caindo numa vasta multiplicidade de diferentes maneiras de ser.”[1]
Do ponto de vista da fé, muito tem sido dito recentemente acerca dos efeitos de tal rebeldia que tem sido especialmente cultivada na nossa modernidade e de como esta terá alcançado finalmente o seu ponto de ruptura. O título do recente livro de Alister McGrath,
The Twilight of Atheism: The Rise and Fall of Disbelief in the Modern World,[2] exprime bem a ideia fundamental do posicionamento emergente a favor de uma reafirmação do potencial conceptual da ortodoxia cristã. A sua convicção básica é a de que o mundo secular está sofrendo de uma espécie de tédio metafísico e que chegou a altura de revitalizar a vontade e a razão humana. Com efeito, o cerne da questão não é tanto o facto de que o secularismo contemporâneo tenha afastado o foco de atenção dos assuntos cristãos, mas antes a saúde da mente e daquela dimensão da realidade com a qual a religião lida especificamente e para a qual a racionalidade humana tenderia (se isso lhe fosse permitido). Usando a terminologia da filosofia clássica, a questão do fundamento transcendental para tudo o que existe é uma questão ontológica que é profundamente coincidente com a questão acerca da própria racionalidade humana: acima e além do questionamento acerca de como as coisas tomaram a sua forma, o facto da sua própria existência desafia a mente de uma forma ab-original. Durante os últimos cem anos da nossa era pós-cristã, a universidade deu o melhor de si para se desembaraçar desta questão, mas foi contudo incapaz de enterrar o assunto: que o finito se tenham tornado infinito continua sem ser convincente, isto é, que tudo o que se possa imaginar existindo num plano infinitamente extenso seja desprovido de profundidade e de um questionamento radical acerca das suas causas. Bem, afinal de contas, a ontologia não-metafísica que se encontra tanto na tradição continental (Heidegger, etc.) como na analítica (e.g., Quine, Searle) é notável pela sua incapacidade em lidar com a dificuldade de o finito explicar o finito. Mas independentemente do défice de poder explicativo contido nestas posições, a necessidade em resistir activamente à religiosidade que está frequentemente subjacente ao esforço sistemático para desacreditar a viabilidade racional da fé cristã deve ser alvo da nossa atenção. Curiosamente, embora considerar a crença cristã como desprovida de justificação racional se tenha tornado um hábito cultural, começamos a ver a ontologia ateia defender-se através do recurso à teoria evolucionista de Darwin de uma forma quase metafísica. A parcialidade não científica que se encontra implícita em tais defesas revela-se extraordinária quando a mera atribuição do termo qualificativo “teoria” em vez da afirmação directa de que se trata de um “facto” é suficiente para se proteger de qualquer crítica – principalmente se for proveniente de um filósofo ou um cientista crente.
Ao revisitar a obra
Why I Am Not a Christian de Bertrand Russell, gostaria de sublinhar a sua importância enquanto uma declaração clássica, quase um credo, de compromisso com uma mundivisão ateia. Todavia, mais além, encontramos o mesmo padrão de recusa ou resistência de que nos fala Wolterstorff e que afecta os diversos ramos da sua apologia. A estatura intelectual de Russell e o enorme peso das suas opiniões é em si notável, principalmente para aqueles entre os seus contemporâneos que procuravam um escape das normas morais e intelectuais que a tradição cristã tinha estabelecido, mas que também desejavam “armar-se” de uma moralidade adequada para o seu ateísmo emancipador. Mas ainda mais interessante é o insistente compromisso com um tipo de racionalidade que tem entranhada em si a recusa do infinito. Poderíamos considerar esta um hábito mental que muito provavelmente radica não só na experiência e conhecimento mas de uma forma final na decisão. Esta ideia, como veremos nos nossos comentários finais, foi compreendida e exposta por Maurice Blondel de uma forma particularmente perspicaz.
Entre os vários ensaios que constituem o volume, escritos ao longo de décadas, aquele que transcreve o debate com o padre Frederick Copleston sobre a existência de Deus fornece a mais clara e concisa expressão do posicionamento fundamental de Russell, o qual é salientado em contraste com a argumentação consistente de Copleston em favor do teísmo. Compreensivelmente, o livro enquanto um todo não possui uma argumentação linear e os seus fragmentos apresentam frequentemente simplificações exageradas acerca do Cristianismo que são empregues pelo seu efeito retórico. Encontraremos a seguir algumas destas
boutades, embora a impressão que paira é a de que uma pessoa com a inteligência e conhecimento de Russell deveria ter sabido como, ou ter visto como desejável, evitá-las. Contudo, o debate com Copleston oferece algumas linhas de raciocínio a que nos podemos agarrar, e as três áreas tratadas no debate – contingência, experiência religiosa, e a ordem moral – fornecem as linhas temáticas ao longo das quais as ideias dos ensaios aparentemente menos metafísicos podem ser facilmente integradas. Além de oferecer um esquema conveniente através do qual as principais queixas de Russell em relação ao Cristianismo podem ser sucintamente apresentadas, contém uma lição mais geral acerca do factor de compromisso no posicionamento metafísico.
E o caso é que a minha resposta à posição de Russell pressupõe, tal como a de Copleston, a importância da metafísica teísta para apreciar a vida da mente tal como foi intencionada e de como tal perspectiva ilumina o significado das outras esferas da existência humana.
No geral, esta minha resposta deseja explicar como é que uma pessoa pode ser cristã sem de forma alguma ignorar as virtudes morais e intelectuais que verdadeiramente sustentam a vida humana. Mas a solução para o problema encontra-se na percepção da mente enquanto participante na mente de um “outro” ou “Outro”, e de como a decisão, assim como o compromisso, são factores na dinâmica da compreensão. Geralmente ignorada na nossa modernidade, tal como no caso de Russell, tal percepção da mente humana que implica um compromisso por um determinado modo de vida está contudo profundamente enraizada na nossa cultura intelectual e necessita mais uma vez de ser reconhecida.

Recusa enquanto Modus Operandi

O debate entre Russell e Copleston, “The Existence of God – A Debate”, radiodifundido na BBC em 1948, pouco depois publicado em forma impressa e finalmente reimpresso em
Why I Am Not a Christian[3], retém a atmosfera de uma época em que um tal debate era ainda capaz de atrair atenção pública e realmente ter lugar na praça pública. No tempo da apologética católica anterior ao 2º Concílio Vaticano, a confiança nas Quinque Viae de Tomás de Aquino, as cinco vias para chegar a Deus através da razão natural, estava ainda intacta. Desde então, particularmente a apologética cristã praticada na tradição protestante e a apologética Tomista tomaram uma forma algo diferente, o que permitiu bastante convergência de propósito baseado no ensino religioso. Para a primeira, tanto na argumentação evidencialista como na pressuposicionalista, a força da revelação bíblica é dada a testemunhar[4]. Para a segunda, enquanto que a confiança na razão por si própria mantém-se maior do que no Cristianismo protestante, o maior destaque que foi dado recentemente ao conhecimento proporcionado pela sacra doctrina que está subjacente à metafísica de Tomás de Aquino tem vindo a oferecer uma imagem do carácter do seu pensamento mais apelativa. Inerente a esta mudança de ênfase está a consciência de que a tentativa de reconstruir o pensamento de Aquino de uma forma que possa combater a distorção epistemológica apenas resultou na adulteração e descredibilização de uma proposta teológica que podia ser de grande utilidade nos tempos que decorrem[5]. Não obstante, os desafios de Copleston ao posicionamento filosófico de Russell trazem à superfície a intencionalidade que o infiltra e o inibe.
Como mencionado, os ensaios que constituem o volume foram escritos ao longo de um grande período de tempo e por essa razão não é de se esperar uma consonância perfeita entre ideias que foram sendo articuladas em momentos diferentes. Em relação ao pensamento católico-romano e à apologética tomista, Russell pareceu ir ganhando um mínimo de respeito ao longo do tempo. Em 1927, no artigo que emprestou o nome ao livro, “Why I Am Not a Christian,” e que era originalmente uma conferência, Russell incluiu a seguinte ideia: “Sabem, como é claro, que a Igreja Católica afirmou como dogma que a existência de Deus pode ser provada apenas pela razão por si própria. Este dogma é algo curioso, mas é um dos seus dogmas” [6]. “Como é claro”, Russell não estava apenas errado ao pensar que as chamadas provas têm um estatuto dogmático para a Igreja Católico-Romana, como foi também algo malicioso ao sugerir que nós, “como é claro”, temos todos consciência desse facto e que sabemos que tal é apenas uma coisa católica que não é para ser levada a sério por pensadores livres que realmente compreendem os caminhos da ciência e da razão. Contudo, embora continuando a desprezar a religiosidade, Russell parece ter feito algumas concessões a versões bem argumentadas da fé cristã, em claro contraste com o fideísmo. Em “Can Religion Cure Our Troubles?” (1954), lemos que “Quando por exemplo as pessoas argumentam em defesa do Cristianismo, ao invés de Tomás de Aquino, não dão razões para supor que existe um Deus e que Ele exprimiu a Sua vontade nas Escrituras. …Consigo respeitar aqueles que argumentam que a religião é verdadeira e que por isso deve ser acreditada… ”[7].
Em relação a isto, é relevante que o argumento de Copleston tenha começado por anunciar que a existência de Deus pode ser provada filosoficamente e com uma questão a Russell acerca da possibilidade de provar a não-existência de Deus. A isto Russell responde que é agnóstico em relação a essa possibilidade.
A “jogada” inicial de Copleston é bastante comum na apologética cristã e tem sido efectivamente empregue por Alvin Platinga em tempos mais recentes[8]. A dificuldade que deve ser confrontada não é a de que a fé cristã não possa produzir
de jure um discurso racional para se auto-justificar (e isto é algo que Russell eventualmente acaba por admitir), mas será que pode ser atestada como potencialmente verdadeira? Em Warranted Christian Belief, o que Platinga apelidou da “queixa Marx/Freud” acerca do estatuto noético da crença religiosa, isto é, que esta se baseia em engano e/ ou numa espécie de ilusão auto-induzida gerada pelo medo da morte, também se encontra nas objecções de Russell. Tal como Freud e Marx, Russell assumiu que o Cristianismo era falso e daí construiu um discurso alternativo que lhe parecia mais em linha com o pensamento científico e, por isso, na linha da frente do desenvolvimento humano; à luz da ciência, a religiosidade parecia pertencer a uma forma mais atrasada de humanidade mergulhada nas trevas da ignorância. O medo, ele insiste, é o fundamento principal da religião.
Primariamente, creio que a religião se baseia sobretudo no medo. …O medo é base de toda a religião – o medo do misterioso, o medo da derrota, o medo da morte. …Neste mundo começamos a compreender as coisas, e até a dominá-las com a ajuda da ciência, que gradualmente veio a afirmar-se à força contra a religião cristã, contras as igrejas, e contra a oposição de todos os velhos preceitos[9].

Mas o que faz a atitude de Russell neste debate com Copleston algo promissora em relação ao assunto, é a sua prontidão para procurar temas comuns sobre os quais é possível desenvolver construtivamente uma discussão racional sobre o problema de Deus. Não obstante, advinha-se uma certa animosidade nos esforços de cada um para arrastar o outro para o território da sua noção de realismo preferida, da qual derivam uma série distinta de pontos de vista sobre a contingência, a experiência religiosa e a moralidade.

1. Uma fé contrária na promessa da ciência
Em relação à contingência, o facto de Russell ter desejado a distinção de Leibniz entre verdades da razão e verdades dos factos levou-o a atribuir necessidade apenas às proposições analíticas que são aparentadas com as verdades da razão. As verdades dos factos, isto é, aquelas que existem no mundo como o encontramos, estão simplesmente lá. Caracterizá-las como contingentes para o ser necessário ou até como causadas não é particularmente útil, e por isso recomenda-se deixar a questão de lado. “[…] Não admito a ideia de um ser necessário e não admito que haja um significado especial em chamar outros seres de “contingentes”. Estas frases não têm para mim significado a não ser dentro de uma lógica que rejeito”[10].
A recusa de uma relação de causalidade entre o ser necessário e o contingente não é baseada em argumentação mas antes na convicção de que tal não lhe diz nada. Na linguagem mais antiga de Aristóteles e de Tomás de Aquino, Russell pode dispensar a causalidade final e formal e, apenas até certo ponto, admitir a causalidade material e eficiente, considerando a própria noção de causa pouco útil: “Todo o conceito de causa é derivado da nossa observação de coisas particulares; não vejo razão para supor que a totalidade tenha qualquer tipo de causa”[11]. Na linguagem mais recente – pós Russell – de Donald Davidson e do neo-pragmático Richard Rorty, Russell poderia estar dizendo com efeito que nesta era científica “alterámos o sujeito”: a mundivisão antiga simplesmente não nos diz nada e nós, todos nós, faríamos bem em observar como é que um físico trabalha: ele procura causas dentro do âmbito da sua investigação, assumindo que certas coisas poderão ser descobertas, mas mais nada. Por outras palavras, a questão foca-se na forma como o conceito de “razão suficiente” é percepcionado na explicação de um ser em particular. Para Russell, isso não tem nada a ver com uma relação profunda com um fundo ontológico necessário. É suficiente considerar as coisas como elas se apresentam: “O inteligível tem a ver intrinsecamente com a própria coisa e não com relações.” De facto, é suficiente propor “que o universo está apenas lá e que isso é tudo”[12]. O pensamento fica-se por não ultrapassar esse limiar.
Esta visão algo unidimensional e unívoca da realidade é compatível com o tipo de filosofia naturalística que vê a humanidade melhor compreendida como estando assimilada pela natureza. Em “What I Believe” (1940), Russell começa com uma declaração que poderia ter vindo directamente de Espinoza: “O Homem é parte da natureza. Os seus pensamentos e movimentos corporais seguem as mesmas leis que descrevem o movimento das estrelas e dos átomos”[13]. Porém, ao contrário de Espinoza, todos os esforços vão no sentido de evitar pensar acerca de substância, determinismo, ou até materialismo: “Isto não é materialismo: isto é apenas o reconhecimento de que tudo é uma questão de organização, não de substância primal”[14].
Segundo a mundivisão a que Russell se agarra, a própria ideia de contingência faz parte da ordem natural à qual a mente humana necessita de se adaptar e simultaneamente reconhecer que lhe é uma parcela pertencente. A forma como o seu pensamento se aproxima do
Deus sive Natura e, consequentemente, do amor fatum de Espinoza e depois se afasta para uma insistência na organização e liberdade humana, é interessante no sentido em que revela uma convicção subjacente na validade do Darwinismo. Neste aspecto, Russell antecipa de facto uma maior adesão contemporânea à teoria de evolução, assim como uma insistência pós-moderna na criatividade enquanto conjugadora de possibilidades[15]. Contudo, para empregar a sua própria escolha de categorias, existe de facto uma possibilidade que Russell se recusa a admitir: a de que a inteligibilidade possa ter tudo a ver com qualidades e relações intrínsecas – e que estas tenham finalmente a ver com experiência religiosa.

Experiência religiosa sem conteúdo noético
O argumento relativo à natureza da contingência toma a maior parte do espaço do debate. Apesar disso, acontece que o resto das questões tratadas encontra as suas premissas no modo como a contingência é concebida. Assim, uma vez que o universo físico apenas existe e que o grande avanço do conhecimento científico que lhe diz respeito é o único merecedor de confiança, a experiência religiosa não pode deixar de ser pessoal e baseada em testemunhos que não são objectivamente confirmáveis. Segundo Russell, a experiência religiosa tende a ser privada e não se eleva a nada que seja passível de um consenso por parte daqueles que procuram honestamente o conhecimento. Ele compara-a, se tanto, à leitura acerca de personagens notáveis – sejam elas fictícias ou históricas – nas quais se pode encontrar muito mérito. “Assumo que um jovem que leia acerca desta pessoa e que acredite que seja real goste realmente dela – o que será muito fácil de suceder, mas estará contudo gostando de um fantasma”[16].
Em relação à figura de Cristo como aparece nos Evangelhos, Russell não a considera particularmente amável, especialmente porque Cristo é-nos apresentado como pregador da realidade do inferno. Russell vê este atributo da Sua personalidade como cruel e por isso relega-O como inferior a Socrates e Buda neste aspecto[17]. Tais fantasias acerca do julgamento e do inferno desempenham um papel político na Igreja histórica, cultivando o medo entre os crentes e representando ignorância no lugar do conhecimento. “A Igreja opôs-se a Galileu e a Darwin; hoje em dia opõe-se a Freud. Nos seus dias de maior poder foi ainda mais longe na sua oposição à vida intelectual”[18].
O mesmo posicionamento relativo à questão da contingência encontra-se assim também aqui presente. O Homem é aquela parte da natureza que cria uma dimensão de valores que tem uma vida própria, reflectindo também o exercício humano da sua liberdade criativa. “A natureza em si própria é neutra, nem boa nem má, merecendo nem admiração nem censura. Somos nós quem criamos valor e são os nossos desejos que conferem valor”[19]. Numa gíria mais contemporânea, chamaríamos a isto um fisicalismo não-redutor ou “monismo anómalo”, donde se deriva a ideia de que embora um substrato físico esteja subjacente a todos os actos mentais, os actos mentais intencionais, uma vez que as razões também podem ser causas, não se sujeitam a uma previsão do género que as leis físicas da natureza proporcionam[20]. Quanto às formas religiosas da vida humana, estas podem e serão progressivamente substituídas por formas científicas. Estas constituirão sinais efectivos de uma humanidade madura, cujos hábitos mentais superarão a realidade imaginária que produz medo e religião. No seu lugar emergirá uma combinação de auto-controlo e liberdade. “Desejaria ver um mundo em que a educação tivesse como objectivo a liberdade mental em vez do aprisionamento de mentes jovens numa rígida armadura de dogma calculada para os proteger ao longo da vida contra as incursões da sabedoria imparcial”[21].

3. O bem, o mal, e o emotivismo
O acumen científico que surgiria com a liberação de toda a forma de adesão à religião parece implicar uma purificação concomitante dos sentimentos de índole moral. Nenhuma justificação ontológica relativa à bondade ou à maldade parece ser relevante, apenas – para Russell – “os meus sentimentos”. Neste respeito, Russell cabe perfeitamente no âmbito da crítica de Alasdair MacIntyre ao pensamento moderno enquanto “emotivista”. Em consonância com o ideal de critérios racionais imparciais derivados das exigências da razão humana por si só, as normas éticas seriam igualmente medidas apenas no interior do espírito humano. Por outras palavras, entre a contingência da realidade externa e o espírito humano existe uma abertura que permite a projecção de valores sobre seja o que for que constitua o objecto do julgamento em causa. “Sabe, sinto que algumas coisas são boas e que outra são más. Gosto das coisas que são boas, e detesto as coisas que são más”[22].
É importante compreender que o posicionamento emotivista de Russell não representa necessariamente uma opção por um narcisismo implícito. Sugere pelo contrário uma cuidadosa escolha entre circunstâncias possíveis que é guiada por um sentido moral desenvolvido no seio de uma sociedade humana que, ela própria, passou a contar com a disciplina da razão para eliminar gradualmente o resíduo pernicioso da crença religiosa. O bem da humanidade nunca é perdido de vista: o usufruto da liberdade, incluindo a liberdade sexual, andará de mão em mão com o auto-controlo que advém do tipo certo de educação. Dito de outra maneira, deve-se soltar a rédea aos impulsos naturais que residem na humanidade, enquanto que uma observação lúcida destes processos deverá ter a consequência benéfica de desfazer os efeitos do Cristianismo histórico. “Ao longo do progresso civilizacional, as sanções terrenas tornam-se mais seguras enquanto que as divinas tornam-se menos. As pessoas vêem cada vez mais razões para pensar que se roubarem serão apanhadas, e cada vez menos razões para pensar que serão punidas por Deus se não forem apanhadas”[23]. Um sentido de responsabilidade assim tão livre e racional, aliado a uma leitura da sexualidade como sendo natural e cujo exercício é importante para um organismo saudável, considera a virgindade prolongada prejudicial e as relações extraconjugais permissíveis[24].
Em tudo o que se relaciona com valores, conseguimos ver bem o mundo quando reconhecemos que a humanidade, sendo a produção mais avançada da evolução, é o único juiz do que é certo e errado, do bem e do mal. Não existe um
é a que corresponda um deve. A neutralidade da natureza assegura a nossa aptidão para lhe deixarmos a nossa marca como nos aprouver. “Somos nós quem criamos valor e são os nossos desejos que conferem valor. Neste domínio somos reis, e adulteramos a nossa natureza se nos curvarmos perante a Natureza”[25].

A Viragem Teística, ou a Travessia do Limiar Ontológico
A convicção de Copleston de que a existência de um Deus pessoal pode ser provada filosoficamente, pelo menos sem qualificação, raramente encontraria um eco de simpatia na nossa cultura intelectual actual. Mesmo assim, o tipo de questionamento radical que implica permanece legítimo, pois a questão acerca do porquê das coisas existirem em vez de não existirem ainda consegue colocar aquilo que “apenas existe”, como Russell diz, numa dimensão mais profunda e intrigante. É muito como o que Wittgenstein propôs no seu Tractatus: “Não como o mundo é, mas que o é, é que é o mistério”. A ciência legitimamente procura responder como; já o porquê e o para quê são questionáveis e podem levar a um diferente conjunto de perguntas.
Lendo o debate, torna-se muito claro que Copleston e Russell operam a partir de posições metafísicas bem distintas. Num determinado ponto da discussão acerca da legitimidade de questionar acerca da primeira causa do mundo, a divergência nesse aspecto veio claramente à superfície. Em resposta à posição de Russell de que as questões acerca da causalidade não necessitam de ir para além dos eventos particulares com que a ciência tipicamente lida, Copleston diz que “Se é uma questão [sobre a primeira causa] que para si não tem significado, é claro que é muito difícil discuti-la, não é verdade?”[26]. De facto, o que poderia ser dito acerca da natureza da experiência religiosa e da ordem moral cai dentro do mesmo tipo de limitação. O problema poderia ser sumariado da seguinte maneira: sem pelo menos permitir que uma explicação adequada para um ser em particular possa eventualmente envolver colocar este ser no contexto de
tudo e antes da possibilidade de uma primeira e última causa, as experiência religiosas não implicam uma autêntica auto-transcendência e uma percepção da realidade mais intensa, mas pelo contrário essencialmente convicções privadas quase ficcionais, em que a ordem moral não depende de outros critérios para além de emoções cultivadas capazes de distinguir entre o certo e o errado. O contra-argumento de Copleston afirma o que Russell nega, principalmente porque o segundo recusa mover-se para além de objectos particulares. Enquanto que Copleston deseja ver Russell a procurar causas mais profundas e admitir a possibilidade de participar numa realidade maior, o segundo prefere permanecer na superfície contingente do que pode ser visto e testado.
Para um teísta, a abordagem ultrapassada de Copleston à apologética ainda retém muito de sugestivo e relevante, especialmente no sentido em que as grandes questões que o padre jesuíta pretendia destacar no seu argumento sublinham a necessidade de levantar questões radicais, sendo a mais radical aquela acerca da fonte de todo o ser. Contudo, levantar uma questão assim e ainda tentar respondê-la implica a recuperação de um conjunto de conceitos filosóficos e teológicos que, na prática, têm sido postos de lado pela maior parte do pensamento contemporâneo. Apesar disso, talvez seja uma boa ideia reintegrá-los no interesse do bem pensar. De novo, não é que os conceitos derivados de uma perspectiva teística possam ser julgados por si só como tendo escasso potencial para uma explicação racional (dentro dos parâmetros de tal perspectiva); mas sim aquela recusa imediata, por princípio, em seguir as suas implicações, precisamente aquelas com que os crentes possam procurar justificar a sua fé, isto é, com as quais possam formular conceptualmente, seja para eles próprios ou para os outros, a razão de serem cristãos.

A recusa de Russell em avançar para além de experiências descritíveis e das teorias cientificas que as procuram converter em leis, e o desejo de Copleston em estender a cadeia da causalidade até uma divina e transcendente primeira causa, estão, como é claro, profundamente enraizados em histórias e compromissos pessoais. Não se pretende dizer que os respectivos compromissos não tenham sido acompanhados por boas razões; quero apenas dizer que a direcção das posições tomadas não deve ser separada dos eventos, circunstâncias e decisões que fazem parte da vida humana. Ainda assim, mesmo tendo em conta todas estas contingências localizáveis, a obrigatoriedade de decidir e agir, e ainda a de pensar sobre as implicações e as possibilidades do que está sendo realizado neste processo, simplesmente não pode ser evitada. Dito à maneira de Blondel, uma pessoa apenas pode decidir, pois mesmo uma aparente não-decisão é ultimamente uma decisão em permanecer dentro de determinados limites do âmbito de uma acção. Por outras palavras, é parte de uma lógica que se recusa a atravessar o limiar ontológico para uma dimensão da realidade que na verdade sustenta a própria possibilidade de liberdade humana. Permitam-me apresentar sucintamente o raciocínio por detrás desta ideia crucial para a questão da recusa em aderir à proposta cristã.
Proponho que um teísmo cristão consistente não deva projectar uma imagem de um Deus que dota os seres humanos de independência Dele próprio para que possam então escolher livremente servi-Lo e amá-Lo. Apesar de isto ser uma representação comum do que se supõe ser o caso, tal proposta é na verdade idólatra: ela faz de Deus, ou melhor, de “deus”, uma parte de um sistema de agentes livres entre os quais é o mais poderoso. Ao fim e ao cabo, isso torna-o condescendente, e torna toda a questão da salvação uma questão de marcar pontuação, ou de um modo final, uma questão completamente dissolvida e neutralizada. Tal como Copleston sugeriu, a questão tem muito a ver com causalidade mas – como Tomás de Aquino havia pressuposto quando explorou parenteticamente a possibilidade de afirmar a existência de Deus através da razão natural – referimo-nos na verdade à causalidade do poder criativo de Deus, cuja operação não é exercida a partir de uma realidade extrínseca à nossa. Se fosse o caso, isso faria dos poderes causais de Deus uma alternativa aos nossos. E indo mais longe, este tipo de tese faria do ateísmo, ou do humanismo secular como o de Russell, uma opção mais que respeitável, uma opção que partiria do pressuposto que a dignidade humana tem tudo a ver com o assumir controlo do seu destino…
Todavia, o teísmo cristão ortodoxo não advoga realmente tal imagem de Deus. Pelo contrário, o que propõe é mais interessante e também se aproxima mais do núcleo do problema que se levanta neste ensaio. Primeiramente, a nossa liberdade não se define contra Deus, ou apesar Dele, mas
devido a Ele. Adicionalmente, o poder criativo de Deus faz-nos, ao fim e ao cabo, nós. Deus não nos força a ser nós próprios, e podemos decidir não partilhar o conhecimento de Deus que, para além de um reconhecimento da Sua existência, envolve aquilo que é revelado nas Escrituras. De qualquer forma, mesmo quando pensamos e agimos sem Deus em mente, ou até contra Ele, é sempre devido a Ele que somos capazes de o fazer. Rigorosamente falando, não existe uma falta de Deus no mundo ou nas nossas vidas. Enfrentamos – como Blondel demonstra – uma escolha entre os dois tipos de vida que poderemos ter: ou somos divinizados com e através de Deus e nos tornamos nós próprios, ou não o somos e não nos tornamos nós próprios[27].
Ao contrário do
Ou / ou de Kierkegaard, que reflecte um certo nominalismo luterano mas que, como o título indica, trata do problema da decisão, a excelente obra de Blondel L’action (1893) trata o problema com completa consideração pelas implicações ontológicas que afectam diferentes registos da acção humana, especialmente o científico, o sócio-político e o religioso. Apresenta assim uma análise do tipo de recusa que vemos na rejeição de Russell do potencial racional que pode ser encontrado no teísmo cristão. Creio que as ideias de Blondel sobre este assunto ainda fazem incidir bastante luz sobre as posições a tomar e como as suas implicações podem ser apreciadas.
Em
Nuce, Blondel concebe a estrutura do desejo humano como simultaneamente marcada por dimensões da vontade infinitas (volonté voulante) e finitas (volonté voulue), que permeiam todas as esferas da acção humana, cuja realização envolve o apelo a um unique nécessarire. Neste processo, Blondel inquire acerca de como actos voluntários podem ser pervertidos. O autor vê o drama humano como consistindo em confundir o bem universal reflectido na imagem do infinito, isto é, Deus, com as manifestações finitas e particulares desse bem na forma em que aparecem à mente humana. A tendência de investir a vontade pelo infinito no finito corresponde ainda a outra expressão de idolatria, e Blondel está claramente tentando demonstrar as suas consequências perniciosas. Embora seja relevante e interessante por si só, o alerta dos perigos da idolatria produz conclusões bastante previsíveis do um ponto de vista cristão. Mais sugestivas para o nosso propósito são as referências ao artifício que Blondel atribui ao “pensamento moderno”, de um tipo convicção auto-imposta, de que é possível defender-se contra uma realidade não reconhecida mas necessária que na verdade funda o pensamento e a volição humana[28].
L’action foi concebido e apresentado como uma tese de doutoramento em filosofia que procurava satisfazer as exigências de um sistema universitário francês que na altura se encontrava francamente secularizado. Para isso, o ensaio de Blondel seguiu um rigoroso método de imanência, mas, não obstante e significativamente, foi recheado com formulações que têm a sua fonte nas Escrituras. Ao tratar a questão da volição perversa para iluminar essa realidade não reconhecida mas necessária que está presente mas que é deliberadamente ignorada, a referência bíblica à qual Blondel alude é a Parábola dos Talentos que, em todos os três Evangelhos sinópticos, é concluída assim: “Porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado” (Mateus 25, 29; Marcos 4, 25; Lucas 8, 18). Blondel faz duas alusões não citadas a este versículo no contexto da discussão sobre os riscos inerentes a escolher bem ou mal, e brinca com a possibilidade de assumir efectivamente a infinidade que sustenta a vontade humana ou não.
A primeira é uma interpretação directa da ideia de que aqueles que não têm vontade sofrem a penalização maior de perder tudo que têm. Para exemplificar isto, Blondel pede-nos para considerar uma escolha entre 7 e 13 com a consciência de que 13 é melhor mas que é necessário um sacrifício para o poder obter; o 7 representa algo mais fácil e que talvez até ofereça mais prazer de um modo mais imediato. Supondo que se escolhe o 7, Blondel vê o resultado do seguinte modo: 7 – 13= -6, sugerindo que um ganho motivado por vaidade e facilidade leva à falência tanto da mente como da vontade, e que portanto o pouco que se possui acaba por ser retirado. Pelo outro lado, a escolha do 13 renderá um excedente que cresce continuamente.
Contudo, a segunda paráfrase é mais reveladora:
“a ceux qui croient avoir, il leur sera ôté même ce qu’ils n’ont pas.” (Daqueles que acreditam que têm algo, até aquilo que não têm lhes será retirado)[29]. Implicando uma dimensão metafísica, as opções são agora calculadas em termos de finitude (“7”) e infinitude (“13”). As consequências em escolher 7 em detrimento do 13 comprometem o sujeito pensante e volitivo e o preço é de facto muito alto: o outro lado da equação é ainda um 6 negativo, mas desta vez marcado por uma perda infinita. Assim, aqueles que acreditam possuir alguma coisa ao escolher finitude em vez de infinidade, perdem a infinidade que não possuem e que na realidade os possui a eles. Não sendo escolhida, a infinidade que os sustenta perde-se – e, como já se aludiu, eles próprios no processo. Ou mais positivamente, a infinidade que coincide com a eternidade, isto é, o Ser que nunca cessa de existir, e que sustenta a liberdade humana, é chamado a ser realizado através da prática e do compromisso. Conhecer alguma coisa verdadeiramente significa fundamentalmente tornar-se como essa mesma coisa através de participação volitiva.

Para apreciar completamente o argumento de Blondel, admito que seria necessário partilhar a visão teológica que lhe está subjacente. Segundo a fórmula deste autor, o conhecimento de Deus e da Sua realidade significa escolher persistentemente em circunstâncias concretas que correspondem a uma realidade maior e mais universal, mas que é ainda assim pessoal. Esta realidade reside de facto no sujeito pensante e “querente” que gradualmente chega ao entendimento da sua natureza enquanto o
vinculum substantial através do qual a inteligibilidade das suas acções e do seu “eu” dependem ultimamente. Entre cada novo “insight” e entre cada nova decisão consequente, um espírito de abnegação acompanha o processo à medida que o sentido de comunhão se alarga e se aprofunda.
A tradição cristã desde cedo compreendeu a cumplicidade entre humildade e conhecimento divino[30]. Isto significa que o Deus que é revelado nas Escrituras simplesmente não é visível para um
voyeur curioso que tenta espreitar o interior a partir do exterior. Pensadores na linha de Russell que, antes e depois dele, permanecem de fora espreitando para dentro, tomam uma postura semelhante à de um voyeur – de facto, como o Herodes a quem Jesus foi enviado por Pilatos (Lucas 23): espera-se de Deus uma espécie de performance ou espectáculo; falhando nisso, é julgado não ser apto para nenhum fim prático e portanto digno de ser rejeitado – e eventualmente muito mais do que isso[31]. A verdade da questão encontra-se muito mais perto da muito citada máxima de Chesterton: “O Cristianismo nunca foi realmente testado e julgado insuficiente; foi considerado difícil e por isso não foi tentado”. À luz do pensamento de Blondel, Chesterton poderia ter sido interpretado como implicando que é precisamente através do “tentar” e através das dificuldades resultantes, que a realidade concebida pelo Cristianismo irá encorajar a mente e o coração para ceder a iniciativa ao divino que está sempre omnipresente, presente lá e cá. De facto, como T. S. Eliot escreve em “East Coker”:

[…] Here or there does not matter
We must be still and still moving
Into another intensity
For a further union, a deeper communion … .

[…] Cá ou lá não importa
Devemos estar quietos a ainda movermo-nos
Para uma outra intensidade
Para uma união maior, uma comunhão mais profunda….

É mais do que evidente que a rede de conceitos específica através da qual o Cristianismo funciona pode ser rejeitada. Isto é algo que todos reconhecemos prontamente. Contudo, o argumento é que fazê-lo implica uma perda considerável. A perda em questão não se confina a uma problemática religiosa que envolve a salvação. Envolve também uma auto-limitação imposta na capacidade da mente humana saber realmente aquilo que a atrai espontaneamente e que deseja saber, e é isso que é especialmente importante no contexto deste ensaio. Tanto Tomás de Aquino como Blondel partilham esta convicção que, para mais, corresponde ao que John Calvin chamou de sensus divinitatis[32]. Poderíamos pensar acerca desta crença básica do teísmo Cristão da seguinte maneira: para quase todo o tipo de objecto, o conhecimento precede o amor, ou simplesmente, necessitamos de conhecer algo antes de podermos vir a amar esse algo; em relação a Deus, todavia, o amor precede o conhecimento na medida em que um amor incipiente por Deus é parte constituinte do saber e do querer humano, mesmo que não estejamos conscientes disso e – como Wolterstorff pensa – mesmo que dispersemos a nossa atenção nas mais variadas direcções. Não obstante, amar Deus é a condição para O conhecer, e por isso a prática, o compromisso, e a eventual aquisição das virtudes teológicas aparecem como factores incontornáveis no processo. Assim, o conhecimento divino surge como uma resposta gradual, um desejo que não pode ser apropriadamente compreendido no plano da imanência pura. De facto, o desejo de localizar a discussão ontológica estritamente no âmbito da imanência pura implicará inevitavelmente uma postura voyeurista em relação aos esforços da humanidade para articular e lidar com um outro âmbito de eventos, nomeadamente aqueles revelados nas Escrituras que para uma ontologia de imanência pura pareceriam completamente extrínsecos no seu próprio relato da realidade. Pelo contrário, enquanto a metafísica teística enquanto disciplina filosófica se vê obrigada a não forçar a inclusão prematura desses dados revelados na mundivisão que propõe, pressupõe contudo que o sobrenatural se encontra presente no seio da natureza em geral e da natureza humana em particular. Por outras palavras, postula uma causa maior, eminente e sempre generosa, cuja finalidade é elevar e dar graça, insinuando a oferta radical de um Dom que não deve ser, e que não era para ser, recusado.

Manuel Sumares é Professor Associado da Faculdade de Filosofia, UCP – Braga. É Presbítero da Igreja de Inglaterra.

Mark Nicholas Wolterstorff, Art in Action: Toward a Christian Aesthetic (Grand Rapids: Eerdmans, 1980), p. 87.
2 Alister McGrath, The Twilight of Atheism: The Rise and Fall of Disbelief in the Modern World (New York: Doubleday, 2003). As publicações acerca dos movimentos de Ortodoxia Radical e Epistemologia Reformada, com os quais Wolterstorff é identificado, seguem a mesma direcção teológica.
3 Betrand Russell, Why I Am Not a Christian: And Other Essays on Religion and Related Subjects (London: George Allen & Unwin, 1957).
4 Five Views on Apologetics (Grand Rapids: Zondervan, 2000), organizado por Seven Cowan e incluindo na discussão as perspectivas dos teólogos de tradição protestante, constitui uma tentativa de apresentar as minuciosas (de facto, até demasiado minuciosas) diferenças entre as diferentes estratégias apologéticas. Contudo, mesmo depois de tudo o que foi dito, estas podem ser agrupadas em pressuposicionalismo e evidencialismo.
5 Acerca disto, o capítulo de Alasdair MacIntyre, “Too Many Thomisms?” em Three Versions of Moral Enquiry (Notre Dame: Univ. of Notre Dame Press, 1989) e de Fergus Kerr After Aquinas: Versions of Thomism (Oxford: Blackwell, 2002) são particularmente importantes. John Milbank, que vê a nouvelle théologie de Henri de Lubac, “o teólogo mais revolucionário do séc. XX”, como antecipando o futuro, oferece um argumento sustentado em favor da necessidade de rever e renovar a interpretação do pensamento de Aquino através do seu realinhamento na sua legítima perspectiva teológica. Cf. Truth in Aquinas (London: Routledge, 2000) e The Suspended Middle: Henri de Lubac and the Debate Concerning the Supernatural (Grand Rapids: Eerdmans, 2006).
6 Russell, p. 3.
7 Russell, p. 172.
8 Cf,, Alvin Plantinga, Warranted Christian Belief (Oxford: Oxford Univ. Press, 2000).
9 Russell, p. 16.
10 Russell, p. 147. Sobre o assunto da necessidade que caracteriza o espaço lógico das proposições formais e a contingência do mundo dos factos empíricos, podemos reconhecer a influência de Russell sobre Wittgenstein no seu Tractatus Lógico Philosophicus. Ainda que seja verdade que Russell escreveu o prefácio do livro, também é verdade que Wittgenstein, em última análise um filósofo de maior valor, voltara a trabalhar os conceitos de tal maneira que, mesmo bem antes de Philosophical Investigations e On Certainty, as pretensões do positivismo lógico já estavam sendo subvertidas. De qualquer forma, Wittgenstein partilhará com Russell a mesma visão minimalista de causalidade que haviam herdado de Hume.
11 Russell, p. 151-52. A animosidade de Russell em relação à ideia de causalidade no âmbito da investigação científica já tinha uma longa história. Já em 1912, Russell havia argumentado que a palavra “causa” podia muito bem ser eliminada do vocabulário das ciências exactas: não são as causas que devem reter a atenção dos cientistas mas sim as leis. Cf, “On the Notion of Cause”, reimpresso em Mysticism and Logic (London: Longmans and Green, 1918), págs. 180-228.
12 Russell, p. 151, p. 152.
13 Russell, p. 39.
14 Russell, p. 41.
15 Refiro-me ao livro Darwin’s Dangerous Idea de Daniel Dennett e à teoria dos memes de Richard Dawkins. A definição de Rorty do Homem em termos de capacidade poética e autocriação, que ele vê claramente como envolvendo uma luta pelas melhores ideias e vocabulário, faz parte do quadro mental pós moderno. No que diz respeito ao apoio de Russell ao darwinismo e à sua consequente recusa de um padrão ontológico intrínseco que mantenha as coisas nos seus lugares segundo o seu tipo, isso pode ser visto no seguinte: “[desde] o tempo de Darwin, compreendemos muito melhor o porquê de os seres vivos estarem adaptados ao seu ambiente. Não é que o seu ambiente tenho sido feito adequado para eles, mas que estes se tenham desenvolvido para lhe serem adequados, e esta é a base da adaptação. Nada disto prova um desígnio/design.” (p.6)
16 Russell, p. 159.
17 Russell, pp. 12-14.
18 Russell, p. 19.
19 Russell, p. 44.
20 O monismo anómalo é uma tese pela qual Donald Davidson é famoso. Richard Rorty adaptou o conceito para os seus próprios fins que, entre outros, incluem definir a espécie humana nos termos da sua capacidade poética e sem as restrições implicadas no postular de universalidades como intrinsecamente pertencentes à realidade.
21 Russell, p. XIII.
22 Russell, p. 160.
23 Russell, p. 171.
24 Russell, p. 122. A determinada altura da sua discussão com Russell, o padre Copleston revelou alguma grosseria ao fazer uma referência a Murder in the Cathedral (p. 148) de T. S. Eliot. Era bem conhecido que Russell mantinha relações extra-conjugais com a primeira mulher de Eliot, Vvienne, com o pretexto de a estar ajudando a superar as suas inibições sexuais. O resultado foi a destruição do casamento e o agravamento da doença mental de que sofria [Cf., Lyndall Gordon, T.S. Eliot: An Imperfect Life (New York: Norton, 1998) ]. De qualquer modo, Russell ignorou a alusão a Eliot e continuou argumentando.
25 Russell, p. 43.
26 Russell, p. 158.
27 Esta ideia foi formulada por Blondel assim: “L’homme aspire à faire dieu: être dieu sans Dieu, être dieu et avec Dieu, c’est le dilemme.” L’action (1893) (Paris: PUF, 1973), p. 351.
28 “Que d’hommes, semble-t-il, n’ont plus rien au Coeur pour rien d’absent! Et le grand effort de la pensée moderne ne tend-il point à justifier cette assurance de l’homme en face de sa destinée?” Maurice Blondel, p. 361.
29 Blondel, p. 363.
30 Rowan Williams oferece-nos um inspirador relato da tradição sob este ponto de vista em Wound of Knowledge: Christian Spirituality from the New Testament to St. John of the Cross (London: Darton, Longman and Todd, 1979).
31 A.N. Wilson, um homem na mesma linha que Russell, traça o processo no qual se supõe que Deus tenha morrido em God’s Funeral (New York: Norton, 1999).
32 Em Warranted Christian Belief, Plantinga faz bom uso ecuménico desta convicção em relação à tendência intrínseca dos seres humanos para Deus. O modelo Aquino/ Calvino que usa pode ser estendido para incluir dados como foi revelado nas Escrituras.