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Viver o celibato como dom, em carisma e para a missão

por Sílvio Couto


Dado que o celibato sacerdotal é, normal, recorrente e confusamente, tema de discussão nos círculos da Igreja e fora deles, pareceu-nos oportuno trazer à reflexão uma breve referência que, na mais recente publicação, demos à estampa – Dom e carisma de ser padre (Prior Velho: Paulinas 2007), nas páginas 133-147. Consideramos apresentar o nosso (mesmo que insignificante) contributo sobre o assunto, transcrevendo aquilo que foi amadurecido, pelo menos, durante três anos e como que reflecte a nossa vivência espiritual em maré de celebração do 25.º aniversário de ordenação sacerdotal, a ocorrer a 17 de Julho. De seguida aferimos, para este espaço, a reflexão aí apresentada.


Atendendo à pessoa do padre, podemos olhar o significado da sua ‘intervenção’ na dimensão eucarística do seu ministério, pois ele é mais do que uma pessoa, ele está
in persona Christi: «Na missa ou ceia do Senhor, o povo de Deus é convocado e reunido, sob a presidência do sacerdote que actua na pessoa de Cristo, para celebrar o memorial do Senhor ou sacrifício eucarístico» (1). O padre oferece, de modo incruento, o memorial da Páscoa do Senhor e como ministro das coisas sagradas é «sobretudo no sacrifício da missa que os presbíteros dum modo especial fazem as vezes de Cristo, que Se entregou como vítima para a santificação dos homens» (2). Nesta aferição contínua ao mistério que celebra sobre o altar, o padre faz-se ele mesmo entrega ao Senhor, que Se ofereceu por ele e o fez ser ministro e servo dos seus irmãos, isto é, sacerdote com coração eucarístico em entrega permanente de vida em Cristo e por Cristo.
«Mediante as palavras e gestos de Cristo, realiza-se o sacrifício que o próprio Cristo instituiu na última Ceia, quando ofereceu o seu Corpo e Sangue sob as espécies do pão e do vinho e os deu a comer e a beber aos Apóstolos, ao mesmo tempo que lhes confiou o mandato de perpetuar este mistério» (3). Este momento da oração eucarística é designado de ‘narração da instituição e consagração’ e, pela dignidade das palavras proferidas – são as do Senhor – reveste-se de grande profundidade espiritual, teológica e de vivência de toda a assembleia (que em sinal de adoração se ajoelha), a começar pelo próprio sacerdote que as profere de forma distinta, intensa e interiorizada.
Após a invocação do Espírito Santo sobre o pão e o vinho (epiclese), meditamos as palavras da consagração sobre cada um destes elementos, agora convertidos verdadeiramente em Corpo e Sangue de Cristo (4).
– «Tomai e comei // Tomai e bebei
– Isto é o meu corpo entregue por vós // este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos, para remissão dos pecados,
– Fazei isto em memória de Mim».
A partir destas palavras poderemos reflectir sobre várias dimensões do padre, sobretudo à luz do sacramento da eucaristia, perscrutando três aspectos mais relevantes do seu ministério:
* cristológico – são as palavras que o Senhor proferiu na última Ceia;
* transpessoal – repercute-se na essência do padre e, mais concretamente, através da vivência do celibato como dom, carisma e missão;
* eclesiológico – tem implicações para toda a Igreja celebrante, sobretudo, na sua relação com o mundo ao qual cada cristão é enviado (5).
Estas dimensões como que se desenrolam concêntricas numa sempre maior consciencialização da riqueza, profundidade e santidade deste momento da eucaristia.
Como refere o Papa Bento XVI, na exortação pós-sinodal
Sacramentum caritatis sobre a Eucaristia, fonte e ápice da vida e da Igreja, há uma estreita relação entre a eucaristia e o celibato sacerdotal pela configuração mais plena do padre a Cristo pela ordenação. «Nesta opção do sacerdote [o celibato] encontram expressão peculiar a dedicação que o conforma a Cristo e a oferta exclusiva de si mesmo pelo Reino de Deus. O facto de o próprio Cristo, eterno sacerdote, ter vivido a sua missão até ao sacrifício da cruz no estado de virgindade constitui o ponto seguro de referência para perceber o sentido da tradição da Igreja Latina a tal respeito. Assim, não é suficiente compreender o celibato sacerdotal em termos meramente funcionais; na realidade, constitui uma especial conformação ao estilo de vida do próprio Cristo. Antes de mais, semelhante opção é esponsal: a identificação com o coração de Cristo Esposo que dá a vida pela sua Esposa. Em sintonia com a grande tradição eclesial, com o Concílio Vaticano II e com os Sumos Pontífices meus predecessores, corroboro a beleza e a importância duma vida sacerdotal vivida no celibato como sinal expressivo de dedicação total e exclusiva a Cristo, à Igreja e ao Reino de Deus, e, consequentemente, confirmo a sua obrigatoriedade para a tradição latina. O celibato sacerdotal, vivido com maturidade, alegria e dedicação, é uma bênção enorme para a Igreja e para a própria sociedade» (6).

1) Leitura cristológica
«Tomai e comei...Tomai e bebei» são palavras rezadas, ‘pessoalmente’, por Jesus na última Ceia e que, em primeiro lugar, se referem à Sua própria entrega. O padre ‘empresta’, em cada eucaristia, a sua boca a Jesus para que estas palavras sejam rezadas n’Ele e por Ele como cabeça em Cristo sumo e eterno sacerdote.
Partindo dos relatos da instituição da eucaristia (Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,14-20; 1 Cor 11,23-27) podemos contemplar a intensidade daquele momento vivido por Jesus com os seus discípulos no contexto da última Ceia. Jesus escolheu a altura da Páscoa para cumprir o que tinha anunciado em Cafarnaum, por ocasião da multiplicação dos pães. «Celebrando a última ceia com os seus apóstolos, no decorrer do banquete pascal, Jesus deu o seu sentido definitivo à Páscoa judaica. Com efeito, a passagem de Jesus para o seu Pai, pela sua morte e ressurreição – a Páscoa nova – é antecipada na ceia e celebrada na eucaristia, que dá cumprimento à Páscoa judaica e antecipa a Páscoa final da Igreja na glória do Reino» (7). Deste modo, as palavras proferidas (em oração e solene recolhimento) na eucaristia são, antes de mais, as palavras de Jesus sobre Si mesmo e que se cumpriram em todo o processo da Sua paixão, morte e ressurreição.
Agora não recordamos somente – isso poderia ser simples memória histórica, como se fosse uma lembrança de acontecimentos do passado – aquilo que Jesus disse ou fez, mas fazemos memorial, isto é, pela acção do Espírito Santo aqueles acontecimentos tornam-se presentes e actuais. Assim, «quando a Igreja celebra a eucaristia, faz memória da Páscoa de Cristo e esta torna-se presente: o sacrifício que Cristo ofereceu na cruz uma vez por todas, continua sempre actual» (8).
Este Cristo de Quem fazemos memorial das suas palavras na consagração é um Cristo vivo e ressuscitado, que, através dos sinais do pão e do vinho, faz presente o memorial do seu sacrifício pascal: o pão representa o corpo de Cristo entregue por nós e o vinho representa o sangue derramado por todos nós, homens pecadores (9). Jesus oferecia-se ao Pai em sacrifício por todos nós, pois o seu Corpo entregue e o seu Sangue derramado duma vez para sempre ‘actualizam-se’ na oferta pessoal por nós em cada eucaristia em que participamos, seja como padre seja como fiéis.

2) Incidência transpessoal – celibato: dom, carisma e missão
«Tomai e comei, isto é o meu corpo entregue por vós...Tomai e bebei, este é o cálice do meu sangue... que será derramado por vós e por todos».
Estas palavras ganham novo significado ao serem proferidas pelo próprio sacerdote, pois tornam o seu ‘corpo entregue’ e ‘sangue derramado’ como a própria vivência, agora em doação de alimento pelos seus irmãos.
Ao rezar aquelas palavras da consagração, o padre assume-as como atitude de apresentação aos outros e de oferta da sua vida entregue e derramada, hoje, como a de Cristo na sua paixão, morte e ressurreição. Embora parecendo um aspecto meramente de somenos, a própria visualização do gesto poderá significar uma atitude de vida (10), sendo também neste aspecto a eucaristia uma escola de vida pessoal, comunitária e eclesial. Se, ao rezar as palavras da consagração como reportadas a Cristo, o padre pode assumir uma atitude de intimidade, ao dizê-las de si mesmo, ele deve levantar o olhar para a assembleia e como que se apresenta, dizendo: tomai e comei, este é o meu corpo entregue por vós e para vós; tomai e bebei, este é o meu sangue derramado por vós e convosco.
Cremos estar contida na intensidade da vivência desta perspectiva das palavras da consagração a fundamentação onto-teológica do celibato sacerdotal, pois ao dizer: «tomai e comei // tomai e bebei // isto é o meu corpo // este é o (meu) sangue // entregue por vós // derramado por vós e por todos», o padre como que diz à assembleia dos irmãos, reunidos para serem alimentados pelo Corpo e Sangue do Senhor, algo de muito profundo e sempre novo: isto/este é o meu corpo que não foi, não é nem deseja ser pertença de ninguém para que possa estar sempre e só ao serviço de Deus naqueles que d’Ele precisam hoje e em qualquer momento da sua vida. A hóstia branca que ele ostenta na mão e o cálice que eleva sobre o altar como que se tornam ainda mais simbólicos quando os apresenta para serem adorados, agora que a hóstia é o Corpo do Senhor e o cálice contém o Sangue de Cristo.

* Celibato: dom de Deus mais do que resignação para ser ordenado padre
O celibato por amor do Reino dos Céus não se reduz a uma mera obrigação (seja proibitiva, seja de menor compromisso com a paternidade) nem pode ser lido por um quadro ‘místico’ de sabor mais ou menos castrador da força de amor aos outros na Igreja e pelo mundo. De facto, aquele ‘corpo entregue por vós’ com que o padre pronuncia as palavras da consagração é mais do que um invólucro físico/biológico (com as suas réstias de maior ou menor beleza ou desconformidade com os modelos em vigor), aquele ‘corpo’ é, sobretudo, pertença exclusiva de Deus para ser sacramento de encontro do mistério divino com a condição humana. Ora, como poderá alguém sentir-se bom ministro do Senhor se alguma vez foi possuído (ou viveu em posse) por quem quer que seja?
É aqui, na radicalidade da entrega – que tantas e tantas vezes exige renúncia, sacrifício, ascese, despojamento e (mesmo) luta – que o presbítero se enraíza numa crescente doação ao serviço de todos. É ainda nesta libertação que se acrisola uma crescente entrega, consciente e responsável para que nada nem ninguém se possa atravessar na disponibilidade para o Reino de Deus (11).
– Quantas vezes encontramos pessoas celibatárias (neste caso, padres) que deixam transpirar um certo azedume mal enquadrado na sua personalidade!
– Algumas vezes as circunstâncias/dificuldades da vida podem criar mecanismos de substituição/compensação para certas lacunas do celibato na vida!
– As diferentes idades podem ter exigências psicológicas e espirituais que nem sempre são (ou foram) bem digeridas ou entendidas... à luz de cada tempo e segundo os desígnios permanentes do Reino de Deus.

* Celibato: carisma em amadurecimento
Concedido o dom do celibato – como consagração profética – o padre aceita, acolhe e vive na consciência de que foi Deus quem o escolheu (cf. Jo 15,16) para que possa ser já neste mundo um sinal do Reino eterno de Deus na glória. Com efeito, foi porque as marcas do Reino se manifestaram na sua vida que o padre aceita viver o desafio do celibato em ordem a manifestar na condição terrena a escolha misericordiosa de Deus sobre si mesmo e para com aqueles que com ele caminham.
O padre não é, neste contexto, um herói assexuado e nem sequer um falhado porque não conseguiu casar, seja porque não teve quem o quisesse, seja porque teve medo de dar o passo de viver com uma mulher. Muito mal fundamentada estaria a opção pelo celibato se ela fosse por medo ou por incapacidade de ser casado. Dir-se-á que nunca poderá ser padre quem não servir para casar (12)!... O celibato exige grande maturidade afectiva e equilíbrio humano, pois é, antes de tudo, sinal da misericórdia de Deus em acto.
Doutro modo, a vida do sacerdote ministerial poderia ser entendida como um refúgio de falhado ou de solteirão mal enquadrado. Efectivamente, a opção pelo celibato exige uma grande humildade, tanto de aceitação dessa opção de vida em Deus e pelos outros, quanto de vivência, isto é, num tempo tão erotizado e fortemente marcado por um certo desregramento no campo da sexualidade/genitalidade, o celibato serve, simultaneamente, de linguagem em mistério e de testemunho em provocação ao materialismo de vida e de valores.
Efectivamente, o celibato não pode ser visto nem entendido e tão pouco vivido como uma fuga seja para o lado (por qualquer ténue ou declarada rejeição dum compromisso – estável, sério e efectivo – afectivo) nem para a frente (por alguma reserva mental ou moral), mas tem de ser correctamente enquadrado na disponibilidade absoluta para o serviço do Reino de Deus. O celibato, como dom profético para a Igreja (13) e sinal de Deus neste mundo, permite ao padre estar em crescente maturidade, sentindo-se pai espiritual e eclesial de tantos/as, que, pela sua entrega, nasceram como filhos e filhas no seio da mãe Igreja.
Como dom aos outros, o padre celibatário gera muitos mais filhos – como diz Jesus: «todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá por herança a vida eterna» (Mt 19,29) – do que a simples condição humana e biológica de ser pai. Como é verdadeira e sempre actual esta palavra! Isso mesmo podemos constatar quanto mais vamos crescendo na idade e (assim o esperamos convictamente) na maturidade.
Num celibato bem enquadrado, tanto psicológica como espiritualmente, não há espaço para (muitas) grandes frustrações nem se notará (na medida do possível) essa ramificação em compensações mais ou menos ‘lícitas’, pois Deus é o Senhor absoluto da nossa entrega de padre chamado a ser ‘sacerdote com coração de irmão’ para com todos os irmãos, seja qual for a simpatia que lhe proporcionem.

* Celibato: liberdade para a missão
Apreendido o significado do celibato carismático – enquanto oportunidade de Deus Se comunicar àqueles que recebem o dom de Deus da entrega ao serviço dos irmãos – podemos interpretar a dinâmica de missão que comporta a vivência do celibato pelo padre (14). Com efeito, o celibato vivido por amor do Reino dos Céus – «Há eunucos que se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus» (Mt 19,12) – leva-nos a passar do mistério da afectividade (15) para o ministério com afectividade, pois o padre enraizado nas palavras da consagração: «tomai e comei isto é o meu corpo entregue por vós», faz-se livre para servir em estado de missão, isto é, como enviado a fazer da missa, que celebra como sacramento de vida e uma força permanente, actualizada e intensa de missão.
À semelhança da disponibilidade de Cristo – que não tinha onde reclinar a cabeça – assim pelo celibato como graça de Deus e carisma acolhido na fidelidade aos dons do ministério sacerdotal, o padre vive a participação no celibato de Cristo, pois «pela virgindade ou pelo celibato observado por amor do reino dos Céus, os presbíteros consagram-se por um novo e excelente título a Cristo, aderem a Ele mais facilmente com um coração indiviso, n’Ele e por Ele mais livremente se dedicam ao serviço de Deus e dos homens, com mais facilidade servem o seu reino e a obra da regeneração sobrenatural, e tornam-se mais aptos para receberem, de forma mais ampla, a paternidade em Cristo. Deste modo, manifestam ainda aos homens que desejam dedicar-se indivisamente ao múnus que lhes foi confiado, isto é, de desposar os fiéis com um só esposo e apresentá-los como virgem casta a Cristo, evocando assim aquela misteriosa união fundada por Deus e que se há-de manifestar plenamente no futuro, em que a Igreja terá um único esposo, Cristo. Além disso, tornam-se sinal vivo do mundo futuro, já presente pela fé e pela caridade, em que os filhos da ressurreição não se casam nem se dão em casamento» (16).
Nesta amostragem daquilo que o Senhor quer fazer em nós e através de nós (padres do Senhor) podemos perceber com grande humildade que não podemos contar somente com as nossas débeis forças, pois com rápida facilidade poderemos ser sinal de escândalo, na medida em que possuímos este dom, apresentamos este carisma e servimos esta missão em frágeis vasos de barro (2 Cor 4,7), para que se perceba ainda melhor que o celibato por amor do Reino de Deus é ‘de Deus’ e não título ou honraria pessoal (17). Neste misto de maturidade e de maturação, poderemos deixar resplandecer através de nós – ‘pobres pecadores’, assim nos confessamos pública, consciente e repetidamente no início de cada eucaristia – o Senhor e Este se possa servir daquilo que somos para Se dar em alimento aos que O procuram em cada missa.
Mesmo que de forma um tanto lacónica deixamos breves questões:
– Será o hábito eclesiástico (18) uma espécie de norma de exclusão, um título de afirmação ou uma singularidade para a vivência do celibato num mundo secularizado e sob uma cultura da indiferença aos sinais com teor religioso?
– Teremos todos – padres, religiosos/as e leigos – a consciência do sinal profético do celibato/virgindade enquanto linguagem de memorial escatológico (19), a partir da celebração da eucaristia?
– Quem vê um padre (seja no geral seja num particular mais conhecido) a celebrar a eucaristia – e sobretudo ao proferir as palavras da consagração – conseguirá captar um homem que vive o que diz e diz o que vive?
Num mundo ávido de sinais, acreditamos que o padre celibatário é desafio, cria mistério e deve tornar-se cada vez mais e, sobretudo, melhor um homem de Deus, tanto porque tem os pés bem assentes na terra, que conhece, ama e serve e como vive com o olhar fito em Deus a quem serve, ama e dá a conhecer.

3) Referência eclesiológica
«Tomai e comei, isto é o meu corpo entregue por vós...Tomai e bebei, este é o cálice do meu sangue... que será derramado por vós e por todos... Fazei isto em memória de Mim»!
Também estas palavras se tornam significativas para todos – sobretudo leigos e religiosos que não são padres – quantos participam na eucaristia. Os fiéis escutam e aceitam o desafio de viverem aquela entrega como alimento em favor de quantos precisam deles, isto é, são chamados a serem comidos e/ou bebidos, tornando-se alimento de quantos precisarem, sejam ou não crentes!
Digamos que, numa visão de âmbito eclesial, cada membro da Igreja – padre ou não – é, simultaneamente, sacerdote e vítima. No altar, o sacerdote – tanto o ministerial como o comum de todo o povo de Deus – oferece Cristo, a vítima suprema: o padre profere as palavras de Cristo (actua ‘in persona Christi’) e faz-se ele mesmo oblação ao seu povo e os membros da assembleia assumem a configuração – espiritual, teológica e eclesial – de serem, a partir das mesmas palavras da consagração, alimento de quantos os receberão como Corpo/Sangue dados em eucaristia a todos, por todos e para todos (20).
Sobre o altar há dois corpos de Cristo: o seu corpo real (corpo nascido de Maria Virgem, ressuscitado e glorificado junto do Pai) e o seu corpo místico (a Igreja), unindo-se, deste modo, Cabeça e corpo da Igreja em oferta ao Pai e conjugando duas oferendas e dois dons pela invocação do Espírito Santo (21): aquilo que deve tornar-se corpo e sangue de Cristo (o pão e o vinho) e aquilo que deve tornar-se corpo místico de Cristo.
Olhamos agora, de forma breve, as duas epicleses a partir, por exemplo, da Oração eucarística III:
Antes da consagração: «Humildemente Vos suplicamos, Senhor: santificai, pelo Espírito Santo, estes dons que Vos apresentamos, para que se convertam no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que nos mandou celebrar estes mistérios».
Depois da consagração: «Olhai benignamente para a oblação da vossa Igreja: vede nela a vítima que nos reconciliou convosco e fazei que, alimentando-nos do Corpo e Sangue do Vosso Filho, cheios do Espírito Santo, sejamos em Cristo um só corpo e um só espírito».
Se, na primeira epiclese, o Espírito Santo é invocado sobre os dons do pão e do vinho, na segunda epiclese, o Espírito é Quem faz irradiar no corpo da Igreja a força dela ser alimento deste mundo, que espera a presença dos cristãos a fazerem da Igreja uma eucaristia contínua, renovada e eterna. Deste modo, podemos fazer com que a santidade da eucaristia faça passar os cristãos, que a celebram, a serem eles mesmos eucaristia com Jesus (22).
Assumindo as exigências das palavras da consagração – «Tomai e comei, isto é o meu corpo entregue por vós...Tomai e bebei, este é o cálice do meu sangue... que será derramado por vós e por todos... Fazei isto em memória de Mim!»
cada participante na eucaristia faz com que a palavra ‘corpo’ signifique ‘toda a vida’ e a palavra ‘sangue’ englobe a ‘entrega até à morte’... tal como Jesus fez por nós e para nossa salvação. Cada um de nós, então, se oferece com tudo quanto o envolve e faz com que aconteça a nossa história: os dons da natureza (tempo, saúde, energias, família), os dons da graça em união com o agradecimento daquilo que Deus faz em nós e através de nós neste mundo ao qual nos envia continuamente (23). Somos, deste modo, enviados a realizar com a vida aquilo que celebramos na eucaristia, isto é, a oferecermos aos nossos irmãos – e o padre por antonomásia – o nosso corpo, deixando-nos comer, e o nosso sangue, aceitando deixar-nos imolar – com quantas mortificações, mordidelas e incompreensões fruto do nosso pecado e das debilidades dos outros! – para a maior glória de Deus em nós e edificação dos outros!
– Quantas vezes a nossa Missa é feita de tantos amargos de confidências e desabafos, problemas e arrelias, pedidos e sufrágios!
– Quantas vezes temos de enfrentar ‘fregueses’ que nem sempre nos compreendem nem nós os compreendemos tão correctamente como seria desejável!
– Quantas vezes aquela hóstia e aquele cálice significam e transbordam – muitas gotas de vinagre! – muito mais do que apresentamos ao Senhor!

Em conclusão
Mais do que assunto de opinião ou de discussão, o celibato sacerdotal é tema de configuração com Cristo Jesus, sacerdote eterno e presença de Deus. Assim, o padre é chamado a viver o dom do celibato por amor do Reino dos Céus numa crescente configuração com Cristo a Quem serve, celebra e apresenta na eucaristia. Na medida em que o padre aprofunda a vivência deste mistério do carisma do celibato por amor do Reino de Deus mais a Igreja poderá crescer em contemplação do mesmo Cristo dado e entregue na eucaristia. Assim o padre se dá pelos seus irmãos e se faz (ou deixa fazer) alimento contínuo e como entrega de pão ázimo de vida eterna. Tal como Jesus viveu a disponibilidade ao Pai até à morte e morte de cruz, assim o padre pelo celibato por amor do Reino de Deus se torna disponível para servir em amadurecimento da sua paternidade afectiva e efectiva.

NOTAS
1. Cf. Instrução Geral do Missal Romano (IGMR), Coimbra, Gráfica de Coimbra, 2003, n.º 27; Concílio Vaticano II, Braga, AO, 1992, 11.ª ed, Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a liturgia, n.º 33. «A nossa oferta, que se faz em memorial, é imagem daquela que Cristo fez de uma vez para sempre. De facto, nós oferecemos sempre o mesmo (Cristo), não uma ovelha hoje e amanhã outra, mas sempre a mesma vítima. Por isso o sacrifício é único» - S. João Crisóstomo, ‘Homilia sobre a Carta aos Hebreus’, in AA.VV. Antologia litúrgica. Textos litúrgicos, patrísticos e canónicos do primeiro milénio, Fátima, Secretariado Nacional de Liturgia, 2004, n.º 2660.
2. Cf. Decreto
Presbyterorum Ordinis sobre o ministério e a vida dos sacerdotes, n.º 13.
3. Cf.
IGMR, n.º 79 d. «Na narração da instituição, a força das palavras e da acção de Cristo e o poder do Espírito Santo tornam sacramentalmente presentes, sob as espécies do pão e do vinho, o corpo e o sangue do mesmo Cristo, o seu sacrifício oferecido na cruz de uma vez por todas» - Catecismo da Igreja Católica, Coimbra, Gráfica de Coimbra, 2000, 2.ª ed., n.º 1353.
4. Sem qualquer outro objectivo que não seja o de referir-nos à questão, não pretendemos abordar a temática discutida da ‘transubstanciação’ nem da ‘transignificação’ - cf. José Saraiva Martins,
Eucaristia, Lisboa, UCP, 2005, pp. 151-188 – antes nos cingimos a que naqueles elementos «o mistério admirável da presença real do Senhor sob as espécies eucarísticas (...) é também claramente expresso na celebração da Missa, não só pelas próprias palavras da consagração, em virtudes das quais Cristo se torna presente» - IGMR, n.º 3. Vide ainda Raniero Cantalamessa, Isto é o meu corpo: a eucaristia à luz do ‘Adoro Te devote’ e do ‘Ave verum’, Lisboa, Paulus, 2006, pp. 35-40; Xavier Léon-Dufour, O pão da vida, Petrópolis, Vozes, 2007, pp. 61-80 (a palavra sobre o pão), pp. 81-103 (a palavra sobre o cálice).
5. Cf. Raniero Cantalamessa,
O mistério da ceia, Aparecida, Santuário, 1993, pp. 24-34; Abílio Pina Ribeiro, Eucaristia, um amor para vive, Prior Velho, Paulinas, 2005, pp. 68-73.
6. Cf. Bento XVI, Exortação pós-sinodal
Sacramentum caritatis, sobre a eucaristia fonte e ápice da vida e da missão da Igreja, Prior Velho, Paulinas, 2007, n. 24.
7. Cf.
Catecismo da Igreja Católica, n.º 1340.
8. «Sempre que no altar se celebra o sacrifício da cruz, na qual ‘Cristo, nossa Páscoa, foi imolado’ (1 Cor 5,7), realiza-se também a obra da nossa redenção. Pelo sacramento do pão eucarístico, ao mesmo tempo é representada e se realiza a unidade dos fiéis, que constituem um só corpo» - Constituição dogmática
Lumen gentium, n.º 3. Cf. Catecismo da Igreja Católica, n.º 1364; Bruno Forte, Sobre o sacerdócio ministerial, Lisboa, Paulistas, 1993, pp. 10-15.
9. Cf. Raniero Cantalamessa,
Isto é o meu corpo: a eucaristia à luz do ‘Adoro Te devote’ e do ‘Ave verum’, pp. 41-42; Jacques Bur, A espiritualidade sacerdotal, Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1998 pp. 118-120.
10. Cf. Raniero Cantalamessa,
A eucaristia nossa santificação, Apelação, Paulus 2005, pp. 25-34; Joseph-Marie Verlinde, Prêtres pour le troisième millénaire, Versailles, Éditions Saint-Paul, 2001.pp. 114-117.
11. «Chamados a consagrarem-se totalmente ao Senhor e às ‘suas coisas’, dão-se por inteiro a Deus e aos homens. O celibato é um sinal desta vida nova, para cujo serviço o ministro da Igreja é consagrado; aceite de coração alegre, anuncia de modo radioso o Reino de Deus» -
Catecismo da Igreja Católica, n.º 1579. Cf. Presbyterorum Ordinis, n.º 16. «O dom admirável do celibato é iluminado e motivado pela assimilação à doação nupcial do Filho de Deus crucificado e ressuscitado na humanidade redimida e renovada» – Congregação para o Clero, Instrução ‘O presbítero, pastor e guia da comunidade paroquial’, Lisboa, Paulinas, 2002, n.º 5.
12. «O celibato, considerado na sua perspectiva concreta hodierna, põe em evidência a necessidade de possuir uma maturidade afectiva humana e, ao mesmo tempo, de viver a continência como expressão da caridade apostólica. Uma continência que não seja interiormente dominada pela caridade apostólica não é de forma alguma evangélica nem poderá, por outro lado, ser praticada pela pessoa consagrada, a qual escolheu o celibato para viver e comunicar a caridade eclesial de forma mais intensa e original. A pessoa célibe, afectiva e espiritualmente amadurecida, não se sente constrangida por uma lei canónica exterior, nem julga as precauções necessárias como prescrição imposta do exterior. A castidade celibatária não é tanto um tributo que se paga ao Senhor, quanto um dom que se recebe da sua misericórdia. A pessoa, que entra neste estado de vida, deve ter a consciência que não assume um peso, mas recebe principalmente uma graça libertadora» - Congregação para a Doutrina Católica, ‘Orientações educativas sobre o celibato eclesiástico’, 16, in AA.VV.
Padres para este tempo, Porto, Comissão Episcopal do Clero, Seminários e Vocações, 1992, pp. 66. Cf. J. A. Flores Santana, Celibato y virgindad por el Reino de Dios, Santiago de los Caballeros, 1994, pp. 16-24.
13. Cf. Jacques Bur,
A espiritualidade sacerdotal, pp. 224-227; Raniero Cantalamessa, Virgindade, Aparecida, Santuário, 1995, pp. 16-21.67-74.
14. Cf. João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal
‘Pastores dabo vobis’ sobre a formação dos sacerdotes nas circunstâncias actuais, Lisboa, Rei dos Livros, 1992, n.º 29, 44 e 50; Valfredo Tepe, Presbítero hoje, Petrópolis, Vozes, 1995, pp. 31-35.
15. Cf. A. M. Alves Martins, ‘Para uma antropologia cristã da afectividade’, in
Communio XXII (2005/4), pp. 435-450; Anselm Grün, El orden sacerdotal – vida sacerdotal, Madrid, San Pablo, 2002 pp. 55-56.
16. Cf.
Presbyterorum Ordinis, n.º 16
17. Cf. Donald Cozzens,
Le nouveau visage des prêtres, pp. 68-77; Raniero Cantalamessa, Virgindade, pp. 81-98; José H. Barros de Oliveira, Tesouros em vasos de barro: sacerdócio e celibato, Carvalhos, Seminário do Coração de Maria, 1999, pp. 216-225.
18. Cf.
Código de Direito Canónico, cân. 284.
19. «Se a eucaristia é o memorial da Páscoa do Senhor, se pela nossa comunhão no altar somos cumulados da ‘plenitude das bênçãos e graças do céu’, a eucaristia é também a antecipação da glória celeste» -
Catecismo da Igreja Católica, n.º 1402.
20. Cf. Raniero Cantalamessa,
A eucaristia nossa santificação, pp. 28-29.
21. «Depois de santificados por estes hinos espirituais, suplicamos a Deus, amigo dos homens, que envie o Espírito Santo sobre os dons colocados no altar, para que faça do pão Corpo de Cristo e do vinho Sangue de Cristo. Pois tudo o que o Espírito Santo toca é santificado e transformado» - S. Cirilo de Jerusalém, ‘Quinta catequese mistagógica’, in
Antologia litúrgica, n.º 1879.
22. Cf. Raniero Cantalamessa,
Isto é o meu corpo: a eucaristia à luz do ‘Adoro Te devote’ e do ‘Ave verum’, pp. 89-93.
23. Cf. Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos
, Ano da eucaristia – sugestões e propostas, Prior Velho, Paulinas, 2004, n.º 23; Raniero Cantalamessa, O mistério da ceia, pp. 30-33.