Viver o celibato como dom, em carisma e para a
missão
por Sílvio Couto
Dado que o celibato sacerdotal é, normal,
recorrente e confusamente, tema de discussão nos
círculos da Igreja e fora deles, pareceu-nos oportuno
trazer à reflexão uma breve referência que, na mais
recente publicação, demos à estampa –
Dom e carisma de ser padre
(Prior Velho: Paulinas 2007), nas páginas 133-147.
Consideramos apresentar o nosso (mesmo que
insignificante) contributo sobre o assunto,
transcrevendo aquilo que foi amadurecido, pelo menos,
durante três anos e como que reflecte a nossa vivência
espiritual em maré de celebração do 25.º aniversário de
ordenação sacerdotal, a ocorrer a 17 de Julho. De
seguida aferimos, para este espaço, a reflexão aí
apresentada.
Atendendo à pessoa do padre, podemos olhar o
significado da sua ‘intervenção’ na dimensão
eucarística do seu ministério, pois ele é mais do que
uma pessoa, ele está
in persona Christi:
«Na missa ou ceia do Senhor, o povo de Deus é convocado
e reunido, sob a presidência do sacerdote que actua na
pessoa de Cristo, para celebrar o memorial do Senhor ou
sacrifício eucarístico» (1). O padre oferece, de modo
incruento, o memorial da Páscoa do Senhor e como
ministro das coisas sagradas é «sobretudo no sacrifício
da missa que os presbíteros dum modo especial fazem as
vezes de Cristo, que Se entregou como vítima para a
santificação dos homens» (2). Nesta aferição contínua
ao mistério que celebra sobre o altar, o padre faz-se
ele mesmo entrega ao Senhor, que Se ofereceu por ele e
o fez ser ministro e servo dos seus irmãos, isto é,
sacerdote com coração eucarístico em entrega permanente
de vida em Cristo e por Cristo.
«Mediante as palavras e gestos de Cristo, realiza-se o
sacrifício que o próprio Cristo instituiu na última
Ceia, quando ofereceu o seu Corpo e Sangue sob as
espécies do pão e do vinho e os deu a comer e a beber
aos Apóstolos, ao mesmo tempo que lhes confiou o
mandato de perpetuar este mistério» (3). Este momento
da oração eucarística é designado de ‘narração da
instituição e consagração’ e, pela dignidade das
palavras proferidas – são as do Senhor – reveste-se de
grande profundidade espiritual, teológica e de vivência
de toda a assembleia (que em sinal de adoração se
ajoelha), a começar pelo próprio sacerdote que as
profere de forma distinta, intensa e interiorizada.
Após a invocação do Espírito Santo sobre o pão e o
vinho (epiclese), meditamos as palavras da consagração
sobre cada um destes elementos, agora convertidos
verdadeiramente em Corpo e Sangue de Cristo (4).
– «Tomai e comei // Tomai e bebei
– Isto é o meu corpo entregue por vós // este é o
cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna
aliança, que será derramado por vós e por todos, para
remissão dos pecados,
– Fazei isto em memória de Mim».
A partir destas palavras poderemos reflectir sobre
várias dimensões do padre, sobretudo à luz do
sacramento da eucaristia, perscrutando três aspectos
mais relevantes do seu ministério:
* cristológico – são as palavras que o Senhor proferiu
na última Ceia;
* transpessoal – repercute-se na essência do padre e,
mais concretamente, através da vivência do celibato
como dom, carisma e missão;
* eclesiológico – tem implicações para toda a Igreja
celebrante, sobretudo, na sua relação com o mundo ao
qual cada cristão é enviado (5).
Estas dimensões como que se desenrolam concêntricas
numa sempre maior consciencialização da riqueza,
profundidade e santidade deste momento da eucaristia.
Como refere o Papa Bento XVI, na exortação
pós-sinodal
Sacramentum caritatis
sobre a Eucaristia, fonte e ápice da vida e da Igreja,
há uma estreita relação entre a eucaristia e o celibato
sacerdotal pela configuração mais plena do padre a
Cristo pela ordenação. «Nesta opção do sacerdote [o
celibato] encontram expressão peculiar a dedicação que
o conforma a Cristo e a oferta exclusiva de si mesmo
pelo Reino de Deus. O facto de o próprio Cristo, eterno
sacerdote, ter vivido a sua missão até ao sacrifício da
cruz no estado de virgindade constitui o ponto seguro
de referência para perceber o sentido da tradição da
Igreja Latina a tal respeito. Assim, não é suficiente
compreender o celibato sacerdotal em termos meramente
funcionais; na realidade, constitui uma especial
conformação ao estilo de vida do próprio Cristo. Antes
de mais, semelhante opção é esponsal: a identificação
com o coração de Cristo Esposo que dá a vida pela sua
Esposa. Em sintonia com a grande tradição eclesial, com
o Concílio Vaticano II e com os Sumos Pontífices meus
predecessores, corroboro a beleza e a importância duma
vida sacerdotal vivida no celibato como sinal
expressivo de dedicação total e exclusiva a Cristo, à
Igreja e ao Reino de Deus, e, consequentemente,
confirmo a sua obrigatoriedade para a tradição latina.
O celibato sacerdotal, vivido com maturidade, alegria e
dedicação, é uma bênção enorme para a Igreja e para a
própria sociedade» (6).
1)
Leitura cristológica
«Tomai e comei...Tomai e bebei» são palavras rezadas,
‘pessoalmente’, por Jesus na última Ceia e que, em
primeiro lugar, se referem à Sua própria entrega. O
padre ‘empresta’, em cada eucaristia, a sua boca a
Jesus para que estas palavras sejam rezadas n’Ele e por
Ele como cabeça em Cristo sumo e eterno sacerdote.
Partindo dos relatos da instituição da eucaristia (Mt
26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,14-20; 1 Cor 11,23-27)
podemos contemplar a intensidade daquele momento vivido
por Jesus com os seus discípulos no contexto da última
Ceia. Jesus escolheu a altura da Páscoa para cumprir o
que tinha anunciado em Cafarnaum, por ocasião da
multiplicação dos pães. «Celebrando a última ceia com
os seus apóstolos, no decorrer do banquete pascal,
Jesus deu o seu sentido definitivo à Páscoa judaica.
Com efeito, a passagem de Jesus para o seu Pai, pela
sua morte e ressurreição – a Páscoa nova – é antecipada
na ceia e celebrada na eucaristia, que dá cumprimento à
Páscoa judaica e antecipa a Páscoa final da Igreja na
glória do Reino» (7). Deste modo, as palavras
proferidas (em oração e solene recolhimento) na
eucaristia são, antes de mais, as palavras de Jesus
sobre Si mesmo e que se cumpriram em todo o processo da
Sua paixão, morte e ressurreição.
Agora não recordamos somente – isso poderia ser simples
memória histórica, como se fosse uma lembrança de
acontecimentos do passado – aquilo que Jesus disse ou
fez, mas fazemos memorial, isto é, pela acção do
Espírito Santo aqueles acontecimentos tornam-se
presentes e actuais. Assim, «quando a Igreja celebra a
eucaristia, faz memória da Páscoa de Cristo e esta
torna-se presente: o sacrifício que Cristo ofereceu na
cruz uma vez por todas, continua sempre actual» (8).
Este Cristo de Quem fazemos memorial das suas palavras
na consagração é um Cristo vivo e ressuscitado, que,
através dos sinais do pão e do vinho, faz presente o
memorial do seu sacrifício pascal: o pão representa o
corpo de Cristo entregue por nós e o vinho representa o
sangue derramado por todos nós, homens pecadores (9).
Jesus oferecia-se ao Pai em sacrifício por todos nós,
pois o seu Corpo entregue e o seu Sangue derramado duma
vez para sempre ‘actualizam-se’ na oferta pessoal por
nós em cada eucaristia em que participamos, seja como
padre seja como fiéis.
2) Incidência transpessoal – celibato: dom, carisma e
missão
«Tomai e comei, isto é o meu corpo entregue por
vós...Tomai e bebei, este é o cálice do meu sangue...
que será derramado por vós e por todos».
Estas palavras ganham novo significado ao serem
proferidas pelo próprio sacerdote, pois tornam o seu
‘corpo entregue’ e ‘sangue derramado’ como a própria
vivência, agora em doação de alimento pelos seus
irmãos.
Ao rezar aquelas palavras da consagração, o padre
assume-as como atitude de apresentação aos outros e de
oferta da sua vida entregue e derramada, hoje, como a
de Cristo na sua paixão, morte e ressurreição. Embora
parecendo um aspecto meramente de somenos, a própria
visualização do gesto poderá significar uma atitude de
vida (10), sendo também neste aspecto a eucaristia uma
escola de vida pessoal, comunitária e eclesial. Se, ao
rezar as palavras da consagração como reportadas a
Cristo, o padre pode assumir uma atitude de intimidade,
ao dizê-las de si mesmo, ele deve levantar o olhar para
a assembleia e como que se apresenta, dizendo: tomai e
comei, este é o meu corpo entregue por vós e para vós;
tomai e bebei, este é o meu sangue derramado por vós e
convosco.
Cremos estar contida na intensidade da vivência desta
perspectiva das palavras da consagração a fundamentação
onto-teológica do celibato sacerdotal, pois ao dizer:
«tomai e comei // tomai e bebei // isto é o meu corpo
// este é o (meu) sangue // entregue por vós //
derramado por vós e por todos», o padre como que diz à
assembleia dos irmãos, reunidos para serem alimentados
pelo Corpo e Sangue do Senhor, algo de muito profundo e
sempre novo: isto/este é o meu corpo que não foi, não é
nem deseja ser pertença de ninguém para que possa estar
sempre e só ao serviço de Deus naqueles que d’Ele
precisam hoje e em qualquer momento da sua vida. A
hóstia branca que ele ostenta na mão e o cálice que
eleva sobre o altar como que se tornam ainda mais
simbólicos quando os apresenta para serem adorados,
agora que a hóstia é o Corpo do Senhor e o cálice
contém o Sangue de Cristo.
* Celibato: dom de Deus mais do que resignação para ser
ordenado padre
O celibato por amor do Reino dos Céus não se reduz a
uma mera obrigação (seja proibitiva, seja de menor
compromisso com a paternidade) nem pode ser lido por um
quadro ‘místico’ de sabor mais ou menos castrador da
força de amor aos outros na Igreja e pelo mundo. De
facto, aquele ‘corpo entregue por vós’ com que o padre
pronuncia as palavras da consagração é mais do que um
invólucro físico/biológico (com as suas réstias de
maior ou menor beleza ou desconformidade com os modelos
em vigor), aquele ‘corpo’ é, sobretudo, pertença
exclusiva de Deus para ser sacramento de encontro do
mistério divino com a condição humana. Ora, como poderá
alguém sentir-se bom ministro do Senhor se alguma vez
foi possuído (ou viveu em posse) por quem quer que
seja?
É aqui, na radicalidade da entrega – que tantas e
tantas vezes exige renúncia, sacrifício, ascese,
despojamento e (mesmo) luta – que o presbítero se
enraíza numa crescente doação ao serviço de todos. É
ainda nesta libertação que se acrisola uma crescente
entrega, consciente e responsável para que nada nem
ninguém se possa atravessar na disponibilidade para o
Reino de Deus (11).
– Quantas vezes encontramos pessoas celibatárias (neste
caso, padres) que deixam transpirar um certo azedume
mal enquadrado na sua personalidade!
– Algumas vezes as circunstâncias/dificuldades da vida
podem criar mecanismos de substituição/compensação para
certas lacunas do celibato na vida!
– As diferentes idades podem ter exigências
psicológicas e espirituais que nem sempre são (ou
foram) bem digeridas ou entendidas... à luz de cada
tempo e segundo os desígnios permanentes do Reino de
Deus.
* Celibato: carisma em amadurecimento
Concedido o dom do celibato – como consagração
profética – o padre aceita, acolhe e vive na
consciência de que foi Deus quem o escolheu (cf. Jo
15,16) para que possa ser já neste mundo um sinal do
Reino eterno de Deus na glória. Com efeito, foi porque
as marcas do Reino se manifestaram na sua vida que o
padre aceita viver o desafio do celibato em ordem a
manifestar na condição terrena a escolha misericordiosa
de Deus sobre si mesmo e para com aqueles que com ele
caminham.
O padre não é, neste contexto, um herói assexuado e nem
sequer um falhado porque não conseguiu casar, seja
porque não teve quem o quisesse, seja porque teve medo
de dar o passo de viver com uma mulher. Muito mal
fundamentada estaria a opção pelo celibato se ela fosse
por medo ou por incapacidade de ser casado. Dir-se-á
que nunca poderá ser padre quem não servir para casar
(12)!... O celibato exige grande maturidade afectiva e
equilíbrio humano, pois é, antes de tudo, sinal da
misericórdia de Deus em acto.
Doutro modo, a vida do sacerdote ministerial poderia
ser entendida como um refúgio de falhado ou de
solteirão mal enquadrado. Efectivamente, a opção pelo
celibato exige uma grande humildade, tanto de aceitação
dessa opção de vida em Deus e pelos outros, quanto de
vivência, isto é, num tempo tão erotizado e fortemente
marcado por um certo desregramento no campo da
sexualidade/genitalidade, o celibato serve,
simultaneamente, de linguagem em mistério e de
testemunho em provocação ao materialismo de vida e de
valores.
Efectivamente, o celibato não pode ser visto nem
entendido e tão pouco vivido como uma fuga seja para o
lado (por qualquer ténue ou declarada rejeição dum
compromisso – estável, sério e efectivo – afectivo) nem
para a frente (por alguma reserva mental ou moral), mas
tem de ser correctamente enquadrado na disponibilidade
absoluta para o serviço do Reino de Deus. O celibato,
como dom profético para a Igreja (13) e sinal de Deus
neste mundo, permite ao padre estar em crescente
maturidade, sentindo-se pai espiritual e eclesial de
tantos/as, que, pela sua entrega, nasceram como filhos
e filhas no seio da mãe Igreja.
Como dom aos outros, o padre celibatário gera muitos
mais filhos – como diz Jesus: «todo aquele que tiver
deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou
campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e
terá por herança a vida eterna» (Mt 19,29) – do que a
simples condição humana e biológica de ser pai. Como é
verdadeira e sempre actual esta palavra! Isso mesmo
podemos constatar quanto mais vamos crescendo na idade
e (assim o esperamos convictamente) na maturidade.
Num celibato bem enquadrado, tanto psicológica como
espiritualmente, não há espaço para (muitas) grandes
frustrações nem se notará (na medida do possível) essa
ramificação em compensações mais ou menos ‘lícitas’,
pois Deus é o Senhor absoluto da nossa entrega de padre
chamado a ser ‘sacerdote com coração de irmão’ para com
todos os irmãos, seja qual for a simpatia que lhe
proporcionem.
* Celibato: liberdade para a missão
Apreendido o significado do celibato carismático –
enquanto oportunidade de Deus Se comunicar àqueles que
recebem o dom de Deus da entrega ao serviço dos irmãos
– podemos interpretar a dinâmica de missão que comporta
a vivência do celibato pelo padre (14). Com efeito, o
celibato vivido por amor do Reino dos Céus – «Há
eunucos que se fizeram eunucos por amor do Reino dos
Céus» (Mt 19,12) – leva-nos a passar do mistério da
afectividade (15) para o ministério com afectividade,
pois o padre enraizado nas palavras da consagração:
«tomai e comei isto é o meu corpo entregue por vós»,
faz-se livre para servir em estado de missão, isto é,
como enviado a fazer da missa, que celebra como
sacramento de vida e uma força permanente, actualizada
e intensa de missão.
À semelhança da disponibilidade de Cristo – que não
tinha onde reclinar a cabeça – assim pelo celibato como
graça de Deus e carisma acolhido na fidelidade aos dons
do ministério sacerdotal, o padre vive a participação
no celibato de Cristo, pois «pela virgindade ou pelo
celibato observado por amor do reino dos Céus, os
presbíteros consagram-se por um novo e excelente título
a Cristo, aderem a Ele mais facilmente com um coração
indiviso, n’Ele e por Ele mais livremente se dedicam ao
serviço de Deus e dos homens, com mais facilidade
servem o seu reino e a obra da regeneração
sobrenatural, e tornam-se mais aptos para receberem, de
forma mais ampla, a paternidade em Cristo. Deste modo,
manifestam ainda aos homens que desejam dedicar-se
indivisamente ao múnus que lhes foi confiado, isto é,
de desposar os fiéis com um só esposo e apresentá-los
como virgem casta a Cristo, evocando assim aquela
misteriosa união fundada por Deus e que se há-de
manifestar plenamente no futuro, em que a Igreja terá
um único esposo, Cristo. Além disso, tornam-se sinal
vivo do mundo futuro, já presente pela fé e pela
caridade, em que os filhos da ressurreição não se casam
nem se dão em casamento» (16).
Nesta amostragem daquilo que o Senhor quer fazer em nós
e através de nós (padres do Senhor) podemos perceber
com grande humildade que não podemos contar somente com
as nossas débeis forças, pois com rápida facilidade
poderemos ser sinal de escândalo, na medida em que
possuímos este dom, apresentamos este carisma e
servimos esta missão em frágeis vasos de barro (2 Cor
4,7), para que se perceba ainda melhor que o celibato
por amor do Reino de Deus é ‘de Deus’ e não título ou
honraria pessoal (17). Neste misto de maturidade e de
maturação, poderemos deixar resplandecer através de nós
– ‘pobres pecadores’, assim nos confessamos pública,
consciente e repetidamente no início de cada eucaristia
– o Senhor e Este se possa servir daquilo que somos
para Se dar em alimento aos que O procuram em cada
missa.
Mesmo que de forma um tanto lacónica deixamos breves
questões:
– Será o hábito eclesiástico (18) uma espécie de norma
de exclusão, um título de afirmação ou uma
singularidade para a vivência do celibato num mundo
secularizado e sob uma cultura da indiferença aos
sinais com teor religioso?
– Teremos todos – padres, religiosos/as e leigos – a
consciência do sinal profético do celibato/virgindade
enquanto linguagem de memorial escatológico (19), a
partir da celebração da eucaristia?
– Quem vê um padre (seja no geral seja num particular
mais conhecido) a celebrar a eucaristia – e sobretudo
ao proferir as palavras da consagração – conseguirá
captar um homem que vive o que diz e diz o que vive?
Num mundo ávido de sinais, acreditamos que o padre
celibatário é desafio, cria mistério e deve tornar-se
cada vez mais e, sobretudo, melhor um homem de Deus,
tanto porque tem os pés bem assentes na terra, que
conhece, ama e serve e como vive com o olhar fito em
Deus a quem serve, ama e dá a conhecer.
3) Referência eclesiológica
«Tomai e comei, isto é o meu corpo entregue por
vós...Tomai e bebei, este é o cálice do meu sangue...
que será derramado por vós e por todos... Fazei isto em
memória de Mim»!
Também estas palavras se tornam significativas para
todos – sobretudo leigos e religiosos que não são
padres – quantos participam na eucaristia. Os fiéis
escutam e aceitam o desafio de viverem aquela entrega
como alimento em favor de quantos precisam deles, isto
é, são chamados a serem comidos e/ou bebidos,
tornando-se alimento de quantos precisarem, sejam ou
não crentes!
Digamos que, numa visão de âmbito eclesial, cada membro
da Igreja – padre ou não – é, simultaneamente,
sacerdote e vítima. No altar, o sacerdote – tanto o
ministerial como o comum de todo o povo de Deus –
oferece Cristo, a vítima suprema: o padre profere as
palavras de Cristo (actua ‘in persona Christi’) e
faz-se ele mesmo oblação ao seu povo e os membros da
assembleia assumem a configuração – espiritual,
teológica e eclesial – de serem, a partir das mesmas
palavras da consagração, alimento de quantos os
receberão como Corpo/Sangue dados em eucaristia a
todos, por todos e para todos (20).
Sobre o altar há dois corpos de Cristo: o seu corpo
real (corpo nascido de Maria Virgem, ressuscitado e
glorificado junto do Pai) e o seu corpo místico (a
Igreja), unindo-se, deste modo, Cabeça e corpo da
Igreja em oferta ao Pai e conjugando duas oferendas e
dois dons pela invocação do Espírito Santo (21): aquilo
que deve tornar-se corpo e sangue de Cristo (o pão e o
vinho) e aquilo que deve tornar-se corpo místico de
Cristo.
Olhamos agora, de forma breve, as duas epicleses a
partir, por exemplo, da Oração eucarística III:
Antes da consagração: «Humildemente Vos suplicamos,
Senhor: santificai, pelo Espírito Santo, estes dons que
Vos apresentamos, para que se convertam no Corpo e
Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que
nos mandou celebrar estes mistérios».
Depois da consagração: «Olhai benignamente para a
oblação da vossa Igreja: vede nela a vítima que nos
reconciliou convosco e fazei que, alimentando-nos do
Corpo e Sangue do Vosso Filho, cheios do Espírito
Santo, sejamos em Cristo um só corpo e um só espírito».
Se, na primeira epiclese, o Espírito Santo é invocado
sobre os dons do pão e do vinho, na segunda epiclese, o
Espírito é Quem faz irradiar no corpo da Igreja a força
dela ser alimento deste mundo, que espera a presença
dos cristãos a fazerem da Igreja uma eucaristia
contínua, renovada e eterna. Deste modo, podemos fazer
com que a santidade da eucaristia faça passar os
cristãos, que a celebram, a serem eles mesmos
eucaristia com Jesus (22).
Assumindo as exigências das palavras da consagração –
«Tomai e comei, isto é o meu corpo entregue por
vós...Tomai e bebei, este é o cálice do meu sangue...
que será derramado por vós e por todos... Fazei isto em
memória de Mim!»
–
cada participante na eucaristia faz com que a palavra
‘corpo’ signifique ‘toda a vida’ e a palavra ‘sangue’
englobe a ‘entrega até à morte’... tal como Jesus fez
por nós e para nossa salvação. Cada um de nós, então,
se oferece com tudo quanto o envolve e faz com que
aconteça a nossa história: os dons da natureza (tempo,
saúde, energias, família), os dons da graça em união
com o agradecimento daquilo que Deus faz em nós e
através de nós neste mundo ao qual nos envia
continuamente (23). Somos, deste modo, enviados a
realizar com a vida aquilo que celebramos na
eucaristia, isto é, a oferecermos aos nossos irmãos – e
o padre por antonomásia – o nosso corpo, deixando-nos
comer, e o nosso sangue, aceitando deixar-nos imolar –
com quantas mortificações, mordidelas e incompreensões
fruto do nosso pecado e das debilidades dos outros! –
para a maior glória de Deus em nós e edificação dos
outros!
– Quantas vezes a nossa Missa é feita de tantos amargos
de confidências e desabafos, problemas e arrelias,
pedidos e sufrágios!
– Quantas vezes temos de enfrentar ‘fregueses’ que nem
sempre nos compreendem nem nós os compreendemos tão
correctamente como seria desejável!
– Quantas vezes aquela hóstia e aquele cálice
significam e transbordam – muitas gotas de vinagre! –
muito mais do que apresentamos ao Senhor!
Em conclusão
Mais do que assunto de opinião ou de discussão, o
celibato sacerdotal é tema de configuração com Cristo
Jesus, sacerdote eterno e presença de Deus. Assim, o
padre é chamado a viver o dom do celibato por amor do
Reino dos Céus numa crescente configuração com Cristo a
Quem serve, celebra e apresenta na eucaristia. Na
medida em que o padre aprofunda a vivência deste
mistério do carisma do celibato por amor do Reino de
Deus mais a Igreja poderá crescer em contemplação do
mesmo Cristo dado e entregue na eucaristia. Assim o
padre se dá pelos seus irmãos e se faz (ou deixa fazer)
alimento contínuo e como entrega de pão ázimo de vida
eterna. Tal como Jesus viveu a disponibilidade ao Pai
até à morte e morte de cruz, assim o padre pelo
celibato por amor do Reino de Deus se torna disponível
para servir em amadurecimento da sua paternidade
afectiva e efectiva.
NOTAS
1. Cf.
Instrução Geral do Missal Romano
(IGMR),
Coimbra, Gráfica de Coimbra, 2003, n.º 27; Concílio
Vaticano II, Braga, AO, 1992, 11.ª ed,
Constituição
Sacrosanctum Concilium
sobre a liturgia, n.º 33. «A nossa oferta, que se faz
em memorial, é imagem daquela que Cristo fez de uma vez
para sempre. De facto, nós oferecemos sempre o mesmo
(Cristo), não uma ovelha hoje e amanhã outra, mas
sempre a mesma vítima. Por isso o sacrifício é único» -
S. João Crisóstomo, ‘Homilia sobre a Carta aos
Hebreus’, in AA.VV.
Antologia litúrgica. Textos litúrgicos, patrísticos
e canónicos do primeiro milénio,
Fátima, Secretariado Nacional de Liturgia, 2004, n.º
2660.
2. Cf. Decreto
Presbyterorum Ordinis
sobre o ministério e a vida dos sacerdotes, n.º 13.
3. Cf.
IGMR,
n.º 79 d. «Na narração da instituição, a força das
palavras e da acção de Cristo e o poder do Espírito
Santo tornam sacramentalmente presentes, sob as
espécies do pão e do vinho, o corpo e o sangue do mesmo
Cristo, o seu sacrifício oferecido na cruz de uma vez
por todas»
- Catecismo da Igreja
Católica,
Coimbra, Gráfica de Coimbra, 2000, 2.ª ed., n.º 1353.
4. Sem qualquer outro objectivo que não seja o de
referir-nos à questão, não pretendemos abordar a
temática discutida da ‘transubstanciação’ nem da
‘transignificação’ - cf. José Saraiva Martins,
Eucaristia,
Lisboa, UCP, 2005, pp. 151-188 – antes nos cingimos a
que naqueles elementos «o mistério admirável da
presença real do Senhor sob as espécies eucarísticas
(...) é também claramente expresso na celebração da
Missa, não só pelas próprias palavras da consagração,
em virtudes das quais Cristo se torna presente»
-
IGMR,
n.º 3. Vide ainda Raniero Cantalamessa,
Isto é o meu corpo: a eucaristia à luz do ‘Adoro Te
devote’ e do ‘Ave verum’,
Lisboa, Paulus, 2006, pp. 35-40; Xavier
Léon-Dufour,
O pão da vida,
Petrópolis, Vozes, 2007, pp. 61-80 (a palavra sobre o
pão), pp. 81-103 (a palavra sobre o cálice).
5. Cf. Raniero Cantalamessa,
O mistério da ceia,
Aparecida, Santuário, 1993, pp. 24-34; Abílio Pina
Ribeiro,
Eucaristia, um amor para vive,
Prior Velho, Paulinas, 2005, pp. 68-73.
6. Cf. Bento XVI, Exortação pós-sinodal
Sacramentum caritatis,
sobre a eucaristia fonte e ápice da vida e da missão da
Igreja, Prior Velho, Paulinas, 2007, n. 24.
7. Cf.
Catecismo da Igreja
Católica,
n.º 1340.
8. «Sempre que no altar se celebra o sacrifício da
cruz, na qual ‘Cristo, nossa Páscoa, foi imolado’ (1
Cor 5,7), realiza-se também a obra da nossa redenção.
Pelo sacramento do pão eucarístico, ao mesmo tempo é
representada e se realiza a unidade dos fiéis, que
constituem um só corpo» - Constituição dogmática
Lumen gentium,
n.º
3. Cf.
Catecismo da Igreja
Católica,
n.º 1364; Bruno Forte,
Sobre o sacerdócio
ministerial,
Lisboa, Paulistas, 1993, pp. 10-15.
9. Cf. Raniero Cantalamessa,
Isto é o meu corpo: a eucaristia à luz do ‘Adoro Te
devote’ e do ‘Ave verum’,
pp. 41-42; Jacques Bur,
A espiritualidade
sacerdotal,
Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1998 pp. 118-120.
10. Cf. Raniero Cantalamessa,
A eucaristia nossa
santificação,
Apelação, Paulus 2005, pp. 25-34; Joseph-Marie
Verlinde,
Prêtres pour le troisième
millénaire,
Versailles, Éditions Saint-Paul, 2001.pp. 114-117.
11. «Chamados a consagrarem-se totalmente ao Senhor e
às ‘suas coisas’, dão-se por inteiro a Deus e aos
homens. O celibato é um sinal desta vida nova, para
cujo serviço o ministro da Igreja é consagrado; aceite
de coração alegre, anuncia de modo radioso o Reino de
Deus» -
Catecismo da Igreja
Católica,
n.º 1579. Cf.
Presbyterorum Ordinis,
n.º 16. «O dom admirável do celibato é iluminado e
motivado pela assimilação à doação nupcial do Filho de
Deus crucificado e ressuscitado na humanidade redimida
e renovada» – Congregação para o Clero,
Instrução
‘O presbítero, pastor e guia da comunidade
paroquial’,
Lisboa, Paulinas, 2002, n.º 5.
12. «O celibato, considerado na sua perspectiva
concreta hodierna, põe em evidência a necessidade de
possuir uma maturidade afectiva humana e, ao mesmo
tempo, de viver a continência como expressão da
caridade apostólica. Uma continência que não seja
interiormente dominada pela caridade apostólica não é
de forma alguma evangélica nem poderá, por outro lado,
ser praticada pela pessoa consagrada, a qual escolheu o
celibato para viver e comunicar a caridade eclesial de
forma mais intensa e original. A pessoa célibe,
afectiva e espiritualmente amadurecida, não se sente
constrangida por uma lei canónica exterior, nem julga
as precauções necessárias como prescrição imposta do
exterior. A castidade celibatária não é tanto um
tributo que se paga ao Senhor, quanto um dom que se
recebe da sua misericórdia. A pessoa, que entra neste
estado de vida, deve ter a consciência que não assume
um peso, mas recebe principalmente uma graça
libertadora» - Congregação para a Doutrina Católica,
‘Orientações educativas sobre o celibato eclesiástico’,
16, in AA.VV.
Padres para este tempo,
Porto, Comissão Episcopal do Clero, Seminários e
Vocações, 1992, pp. 66. Cf. J. A. Flores
Santana,
Celibato y virgindad por el Reino de
Dios,
Santiago de los Caballeros, 1994, pp. 16-24.
13. Cf. Jacques Bur,
A espiritualidade
sacerdotal,
pp. 224-227; Raniero Cantalamessa,
Virgindade,
Aparecida, Santuário, 1995, pp. 16-21.67-74.
14. Cf. João Paulo II, Exortação apostólica
pós-sinodal
‘Pastores dabo vobis’
sobre a formação dos sacerdotes nas circunstâncias
actuais, Lisboa, Rei dos Livros, 1992, n.º 29, 44 e 50;
Valfredo Tepe,
Presbítero hoje,
Petrópolis, Vozes, 1995, pp. 31-35.
15. Cf. A. M. Alves Martins, ‘Para uma antropologia
cristã da afectividade’, in
Communio
XXII (2005/4), pp. 435-450; Anselm Grün,
El orden sacerdotal – vida sacerdotal,
Madrid, San Pablo, 2002 pp.
55-56.
16. Cf.
Presbyterorum Ordinis,
n.º 16
17. Cf. Donald Cozzens,
Le nouveau visage des
prêtres,
pp. 68-77; Raniero Cantalamessa,
Virgindade,
pp. 81-98; José H. Barros de Oliveira,
Tesouros em vasos de barro: sacerdócio e
celibato,
Carvalhos, Seminário do Coração de Maria, 1999, pp.
216-225.
18. Cf.
Código de Direito Canónico,
cân. 284.
19. «Se a eucaristia é o memorial da Páscoa do Senhor,
se pela nossa comunhão no altar somos cumulados da
‘plenitude das bênçãos e graças do céu’, a eucaristia é
também a antecipação da glória celeste» -
Catecismo da Igreja
Católica,
n.º 1402.
20. Cf. Raniero Cantalamessa,
A eucaristia nossa
santificação,
pp.
28-29.
21. «Depois de santificados por estes hinos
espirituais, suplicamos a Deus, amigo dos homens, que
envie o Espírito Santo sobre os dons colocados no
altar, para que faça do pão Corpo de Cristo e do vinho
Sangue de Cristo. Pois tudo o que o Espírito Santo toca
é santificado e transformado» - S. Cirilo de Jerusalém,
‘Quinta catequese mistagógica’, in
Antologia litúrgica,
n.º 1879.
22. Cf. Raniero Cantalamessa,
Isto é o meu corpo: a eucaristia à luz do ‘Adoro Te
devote’ e do ‘Ave verum’,
pp. 89-93.
23. Cf. Congregação para o Culto Divino e a Disciplina
dos Sacramentos,
Ano da eucaristia – sugestões e
propostas,
Prior Velho, Paulinas, 2004, n.º 23; Raniero
Cantalamessa,
O mistério da ceia,
pp. 30-33.
