Cristo e a Cidade
Um sítio ecuménico que não representa nenhuma Igreja cristã particular; sítio de cristãos empenhados em contribuir, de modo sereno mas eficaz, para tornar presente no espaço público a voz da Igreja de que são membros, na fidelidade ao seu Magistério, propondo-se fazê-lo sem renunciar às exigências da razão nem às da fé cristã.

Nós e a visita do Santo Padre

Quando alguns – quantos é muito difícil saber – desejam que nós deixemos de confiar nele, o Santo Padre vem chamar-nos à Verdade, ajudar-nos a fazer o exame de consciência diante dela, confirmar-nos nela. É oportunidade preciosa para reforçarmos a nossa identidade cristã católica, que também se exprime num grande amor à Igreja através dum grande amor ao Santo Padre.

Por Pedro Miranda

Recentemente, um jornalista perguntava a um bispo se o recente e persistente bombardeamento de informação sobre os escândalos de pedofilia dentro da Igreja não afectaria o ambiente da visita do Santo Padre a Fátima e a Portugal. Não é meu objectivo recordar a resposta, mas antes reflectir acerca do contexto e significado da pergunta. De facto, a proximidade da visita papal terá naturalmente aumentado a oportunidade para a exploração até à exaustão do tema e para o realce e destaque que os meios de comunicação social nacionais foram dando a episódios de alcance muito limitado, como os apelos à demissão do Papa pelo turco que tentou matar João Paulo II ou aos projectos de levar o Papa a tribunal, cuja visibilidade lá fora imagino que tenha sido bem menor.

Um pequeno episódio de que fui testemunha faz-me ver com mais realismo as consequências destes escândalos, erigidas depois em objectivo bem definido, subjacente aos esforços obstinados por responsabilizar e incriminar o Santo Padre e os mais próximos colaboradores. Estando eu num ajuntamento de pessoas com muitas crianças por ali a brincar, eis que um menino aí dos seus sete anos choca comigo, por trás. Virei-me e ele, atrapalhado, justifica-se aflitivamente com o colega que o tinha empurrado, ao que eu respondi com uma palmadas nas costas, como se de um rapagão se tratasse e dizendo-lhe que não fazia mal; logo de seguida, ouço o colega dizer-lhe: não tenhas medo, este padre não é daqueles... Este até estava por mim, mas fica evidenciado qual o processo que se desencadeia e que, bem aproveitado, pode ser potenciado e levado bem mais longe. A confiança, agora com reservas, que ainda se pode dispensar a um padre, pode vir a ser completamente invalidada em relação ao Papa. Esse é de facto o objectivo: minar a nossa confiança naquele com a maior responsabilidade de nos unir. E não tenhamos dúvidas de que, entre os mais pusilânimes ou de menor formação ou com menos experiência de serviço explícito à Igreja, não poucos sentirão essa confiança abalada.

Só há uma maneira de demonstrar aos que o perseguem, que esse objectivo não será nunca atingido, para que possamos, pelo menos provisoriamente, afastar essa invasão: é tornar claro que os nossos pastores, com especial realce para o Papa, têm apenas um modo de nos unir, que é apontar e conduzir-nos para a Verdade de Jesus Cristo, que é onde nós estamos bem e felizes, e perante a qual eles também têm que ser julgados e responder.

Faz-me isto lembrar aquele passo da alegoria do Bom Pastor, do Evangelho de S. João: “As minhas ovelhas escutam a minha voz: Eu conheço-as e elas seguem-Me. Dou-lhes a vida eterna, e nem elas hão-de perecer jamais, nem ninguém as arrancará da minha mão. O que o meu Pai Me deu vale mais do que tudo e ninguém o pode arrancar da mão do Pai. Eu e o Pai somos Um” (10, 27-30). Para aquele que reconhece o bem que dá a felicidade na Verdade em Jesus Cristo, de facto, nada o arrancará das suas mãos e nenhum mal lhe acontecerá nem nunca perecerá. É assim que Jesus é Pastor, e só fazendo-se intérpretes e sacramento disto mesmo é que os pastores da Igreja são pastores. Quando porventura alguma vez começassem a ensinar e a promover o erro em vez da verdade, então perderíamos a confiança neles e estaríamos perdidos, porque à mercê de correntes e vagas que nos podem separar daquilo que “vale mais do que tudo”.

Mas não; não foi isso que aconteceu ao longo de dois milénios de história, apesar de todos os pecados e infidelidades da Igreja, nem é isso, evidentemente, o que está a acontecer. A humildade, frontalidade e clareza com que o Papa Bento XVI fala à Igreja e ao mundo inspiram uma confiança inabalável; o sentido da fé de que goza todo o povo de Deus encontra no ensino e na palavra de Bento XVI um eco cristalino que confirma, alegra e impele.

Quem fala assim como que com o coração nas mãos, como cito a seguir, só pode inspirar confiança: “Adulta não é uma fé que segue as ondas da moda nem a última novidade; adulta e madura é uma fé profundamente radicada em Cristo. É esta amizade que nos abre a tudo o que é bom e nos dá o critério para discernir entre verdadeiro e falso, entre engano e verdade” (Homilia na missa Pró eligendo Romano pontífice, 18 de Abril de 2005). “A expressão fé adulta, nas últimas décadas, tornou-se um slogan conhecido. Ouvimo-lo com frequência como sinónimo de quem já não dá ouvidos à Igreja nem aos seus Pastores, mas decide escolher aquilo em que quer ou não acreditar; portanto, uma fé ad hoc. E esta fé adulta é apresentada como coragem de se expressar contra o Magistério da Igreja. Ora, na realidade, para isto não é preciso ter coragem, porque se pode ter sempre a certeza de receber elogios públicos. Pelo contrário, coragem é aderir à fé da Igreja, apesar de ela contrariar os ‘esquemas’ do mundo contemporâneo. (...). Assim, faz parte da fé adulta, por exemplo, empenhar-se pela inviolabilidade da vida humana desde o primeiro momento, opondo-se de forma radical ao princípio da violência, precisamente também na defesa das criaturas humanas mais indefesas. Faz parte da fé adulta reconhecer o matrimónio entre um homem e uma mulher para toda a vida, como ordenamento do Criador, restabelecido novamente por Cristo. A fé adulta não se deixa arrastar para aqui e para ali por qualquer corrente. Ela opõe-se aos ventos da moda. Sabe que estes ventos não constituem o sopro do Espírito Santo.” (Homilia de 28 de Junho de 2009).

Quando alguns – quantos é muito difícil saber – desejam que nós deixemos de confiar nele, o Santo Padre vem chamar-nos à Verdade, ajudar-nos a fazer o exame de consciência diante dela, confirmar-nos nela. É oportunidade preciosa para reforçarmos a nossa identidade cristã católica, que também se exprime num grande amor à Igreja através dum grande amor ao Santo Padre.

Pedro Miranda nasceu em 1964. Licenciado em História da Arte, Teologia e Mestre em Ciências Musicais. Presbítero da diocese de Coimbra.