Maçonaria e católicos
1. Falando nas Jornadas de formação do clero da sua diocese, no dia 24 de Janeiro,, o Patriarca de Lisboa lembrou a importância da unidade entre os católicos. D. José Policarpo referia-se à unidade na acção pastoral, que não pode estar sujeita a individualismos mais ou menos caprichosos. Mas referia-se, também, à unidade que supõe entender a Igreja a partir da Igreja e não a partir dos próprios desejos e convicções.
2. Estas palavras de D. José Policarpo fizeram-me lembrar a recente polémica em torno da maçonaria. Na ocasião, tive oportunidade de ler declarações de alguns maçons afirmando que não viam qualquer incompatibilidade entre a filiação maçónica e a pertença à Igreja católica. Ora, já em 2005, o mesmo D. José Policarpo escrevia:
“A questão crucial, sobre a qual os católicos têm o direito de esperar uma resposta do seu Bispo, é esta: a fé católica e a visão do mundo que ela inspira, são compatíveis com a Maçonaria e a sua visão de Deus, com o fundamento de verdade e de moralidade e o sentido da história que veicula? E a resposta é negativa. Um católico, consciente da sua fé e que celebra a Eucaristia não pode ser maçon. E se o for convictamente, não pode celebrar a Eucaristia. E a incompatibilidade reside nas visões inconciliáveis do sentido do homem e da história.
A Maçonaria sempre afirmou, e continua a afirmar, a prioridade absoluta da razão natural como fundamento da verdade, da moralidade e da própria crença em Deus. A Maçonaria não é um ateísmo, pois admite um ‘deus da razão’. Exclui qualquer revelação sobrenatural, fonte de verdades superiores ao homem, porque têm a sua fonte em Deus, não aceitando a objectividade da verdade que a revelação nos comunica, caindo na relatividade da verdade a que cada razão individual pode chegar, fundamentando aí o seu conceito de tolerância. A Igreja também aceita a tolerância, mas em relação às pessoas e não em relação à objectividade da verdade”.
4. A Congregação para a Doutrina da Fé também tem doutrina clara sobre o assunto. Em 1983, respondendo a questões relacionadas com o Código de Direito Canónico, afirma o seguinte:
“Foi perguntado se mudou o parecer da Igreja a respeito da maçonaria pelo facto que no novo Código de Direito Canónico ela não vem expressamente mencionada como no Código anterior.
Esta Sagrada Congregação quer responder que tal circunstância é devida a um critério redaccional seguido também quanto às outras associações igualmente não mencionadas, uma vez que estão compreendidas em categorias mais amplas.
Permanece, portanto, imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão.
Não compete às autoridades eclesiásticas locais pronunciarem-se sobre a natureza das associações maçónicas com um juízo que implique derrogação de quanto foi acima estabelecido, e isto segundo a mente da Declaração desta Sagrada Congregação, de 17 de Fevereiro de 1981 (cf. AAS 73, 1981, p. 240-241).
O Sumo Pontífice João Paulo II, durante a Audiência concedida ao subscrito Cardeal Prefeito, aprovou a presente Declaração, decidida na reunião ordinária desta Sagrada Congregação, e ordenou a sua publicação”.
Recorde-se que o então Cardeal Prefeito da Congregação é o actual Papa Bento XVI.
5. Este é o ensino da Igreja, que não está ao dispor de conveniências privadas. Sobretudo quando estas se exibem publicamente, talvez com o objectivo de confundir os mais distraídos.
A China e o Ocidente
1. Não foi notícia por cá, entretidos com a compra da EDP pela chinesa Three Gorges, mas o presidente da República Popular da China, Hu Jintao, lançou recentemente uma campanha contra as influências estrangeiras no seu país, influências que, segundo ele, pretendem ocidentalizar a China e colocam em risco em identidade cultural chinesa.
2. O que o presidente chinês não escreveu no artigo publicado no jornal oficial do Partido Comunista, disse-o em discurso directo e foi depois publicado por um seu subordinado: segundo Hu Jintao, combater a ocidentalização da China é, antes de mais, combater o Cristianismo e, em particular, a Igreja Católica – porque o Cristianismo é, segundo ele, o fundamento da cultura ocidental.
3. Percebe-se, assim, melhor o que leva as autoridade chinesas a apenas admitir uma Igreja Católica Chinesa rigorosamente controlada pelo Partido Comunista (a dita Igreja Patriótica) – e percebe-se a infindável perseguição aos milhões de católicos chineses que não aceitam fazer parte daquela e permanecem firmes na sua união ao Santo Padre e à Igreja universal. Bispos, sacerdotes e leigos têm pago esta firmeza com anos, por vezes décadas de prisão. Grande número deles encontra-se em paradeiro desconhecido, nas mãos dos seus carcereiros. E, entretanto, anda todo o mundo feliz a fazer negócios de milhões com a China, considerando que a sua peculiar interpretação dos Direitos Humanos é perfeitamente normal e aceitável.
4. Eis a grande contradição em que vivemos. Os inimigos do Ocidente (e a China, por mais mesuras e vénias, faz parte desse grupo) consideram o Cristianismo como o verdadeiro fundamento da cultura ocidental. Pelo contrário, entre nós, faz-se tudo para banir o Cristianismo do espaço público – e, lentamente, as nossas sociedades vão-se tornando radicalmente alheias às suas raízes cristãs.
5. Pode não ser a única razão, mas é sem dúvida a mais capaz de explicar a crise permanente em que temos vindo a viver nas últimas décadas. Se continuarmos a seguir o caminho que nos trouxe aqui, dificilmente teremos saída. E haverá, certamente, quem aproveite a nossa decadência e venha ocupar o espaço deixado vazio por nós.
Igrejas abertas
1. D. Ilídio Leandro manifestou o desejo de que as comunidades cristãs consigam organizar-se de modo a manterem as igrejas abertas e acessíveis a quem deseje visitá-las para rezar ou usufruir do seu património. Este desejo do Bispo de Viseu foi expresso no contexto do aumento de assaltos a igrejas que se tem vindo a verificar, situação que muitos temem possa tornar-se ainda mais grave nestes tempos de crise económica e social.
2. As afirmações de D. Ilídio Leandro fizeram-me pensar que, muitas vezes, as comunidades cristãs não aproveitam as suas possibilidades. Fala-se cada vez mais de envelhecimento activo – e é uma ideia a merecer incentivo. Além disso, é cada vez maior o número de pessoas reformadas capazes de dar um contributo muito válido à comunidade. Neste contexto, não será possível às comunidades cristãs organizar equipas de voluntários, capazes de manter abertas as igrejas durante uma parte significativa do dia? É, certamente, possível e desejável.
3. As nossas igrejas, espalhadas por todos os recantos de Portugal, merecem ser mais visitadas e conhecidas. Mantê-las abertas é a única forma de isso acontecer. E, ao mesmo tempo, poderia aproveitar-se a oportunidade, como lembra o Bispo de Viseu, para dinamizar grupos de adoração eucarística, dando expressão àquilo que o Papa Bento XVI vem pedindo: que a adoração eucarística seja uma realidade cada vez mais presente na vida dos católicos, pois também por aí passa a revitalização da fé e a nova evangelização da Europa – duas urgências que a Igreja e os cristãos não podem ignorar.