REGRESSAR AO ESSENCIAL… E OUTROS TEMAS!
1. O PAPA BENTO XVI, VISITANDO VENEZA, no dia 9 de Maio, recomendou aos cristãos daquela região italiana: “Sede zelosos daquilo que fez e continua a fazer grande esta terra”, isto é, a tradição cristã. E acrescentou: dai testemunho do Evangelho na vida quotidiana, com delicadeza, alegria e coragem.
Nessa mesma semana, milhares de portugueses percorreram as estradas do nosso país a caminho de Fátima. Muitos fizeram largas dezenas de quilómetros a pé, cumprindo promessas, mas sobretudo dando vida ao sentido cristão da peregrinação. E, apesar dos equívocos que, não raro, alimentam estas jornadas – equívocos sempre a necessitar de evangelização – estes milhares de peregrinos peregrinando a Fátima, mês após mês, ano após ano, são testemunhas vivas das raízes cristãs que fizeram Portugal e, ainda hoje, o alimentam. Em muitos casos, é certo, essas raízes vão perdendo a vitalidade e escondem-se, envergonhadas, diante dos poderes deste mundo. Importa, por isso, escutar com atenção as palavras de Bento XVI acima citadas: “Sede zelosos daquilo que fez e continua a fazer grande esta terra”. Dai testemunho do Evangelho na vida quotidiana, com delicadeza, alegria e coragem.
Nestes tempos difíceis, há muita gente a dizer que temos de regressar ao essencial. Nesse “essencial”, parece-me, a maioria não inclui as raízes cristãs do nosso país. Mas Portugal não se entende sem o Cristianismo. E talvez por isso, porque, em grande parte, rejeitámos aquilo que permite entendermo-nos, talvez por isso hoje tenhamos tanta dificuldade em perceber quem somos e sobretudo que povo e país queremos ser.
2. TEMAS INADIÁVEIS e incontornáveis são, entre nós, por estes dias, os números da dívida pública, do Produto Interno Bruto e de coisas semelhantes. A campanha eleitoral ameaça resumir-se a tais números ou, nos casos piores, à tentativa de mistificar a urgência dos números e a responsabilidade de quem os colocou em tão deplorável estado. Acontece que os números, por mais odiosos, retratam uma realidade – a nossa, país arruinado e perigosamente à beira da bancarrota. Não parece sensato, por isso, fazer de conta e, como dizia um famoso futebolista, “dar um passo em frente”, quando nos encontramos à beira do precipício. Neste caso, o “passo em frente” seria recompensar os responsáveis pela miséria a que chegámos, confiando-lhes a gestão do dinheiro que nos foi emprestado para acudir àquela e, se possível, sair dela. As sondagens, porém, mostram muitos portugueses dispostos a “dar o passo em frente”! Haverá explicações sábias para tal, ao alcance dos politólogos, ou teremos de procurar respostas mais prosaicas e menos simpáticas para a democracia?
3. DE REPENTE, UM TEMA INEGOCIÁVEL saltou para a campanha eleitoral: a legislação sobre o aborto.
Como se sabe, na última meia dúzia de anos, a esquerda e a extrema-esquerda, enquanto destruíam a economia e as finanças nacionais, ocuparam-se a legislar sobre temas “fracturantes”, apresentados como condição sine qua non para a modernização do país e a felicidade de todos: a legalização e liberalização do aborto a pedido; a lei do chamado casamento entre pessoas do mesmo sexo; a lei da deseducação sexual nas escolas; a lei do divórcio expresso; a equiparação entre uniões de facto e casamento; a tentativa de asfixiar o ensino particular e cooperativo...
Entrevistado num programa da Rádio Renascença, o Presidente do PSD admitiu a necessidade de analisar o modo como a lei do aborto está a ser cumprida... E, caso haja uma iniciativa de cidadãos a esse respeito, considerou que o Parlamento não se poderia esquivar a pronunciar-se sobre um novo referendo. Para as bandas da esquerda e da extrema-esquerda, esta declaração tornou-se “viral”, como agora se diz em linguagem da internet, com toda a gente jurando que jamais haverá “retrocesso” na “conquista civilizacional” representada pelo aborto.
É curioso observar como esta gente tem um sentimento de posse, relativamente à democracia. Por um lado, tratam a ética como uma questão de maiorias. Por outro, não descansam enquanto não conseguem uma “maioria” que aprove as suas peculiares concepções de progresso civilizacional – entre as quais avulta o direito a matar legalmente, à custa do Estado, isto é, de todos os cidadãos, as crianças não nascidas, segundo o livre arbítrio da mulher grávida (com direito a isenção de taxa moderadora no hospital e a –pasme-se! – subsídio de maternidade). Finalmente, conseguido o objectivo, passam a considerar o mesmo intocável, não admitindo que uma outra “maioria” possa decidir de modo contrário.
A esquerda socialista e a extrema-esquerda de qualquer denominação consideram o aborto legal, gratuito, a pedido, uma “conquista” inegociável. Convém, por isso, recordar aos católicos que, à luz da sua fé, há também alguns temas inegociáveis, entre os quais avulta, precisamente, a defesa da vida humana desde a concepção até à morte natural. E, ao votar, o católico não pode deixar de se interrogar sobre o que fizeram e prometem fazer, nesta matéria, os políticos em busca do seu voto. Feito este exame, deve ser consequente, recusando o seu voto a partidos que agridem continuamente as suas convicções mais profundas. Não o fazer é pactuar com o mal. E já vai sendo tempo de, entre nós, começarmos a chamar as coisas pelo nome, em vez de as deixarmos num indistinto borrão cinzento, onde o mal e o bem se confundem e tudo parece igual.
4. O EX-PRESIDENTE MÁRIO SOARES, político dado a fúrias e indignações várias, tem vindo a enfurecer-se, repetidamente, com os políticos europeus actuais, verberando a sua mediocridade. Num destes acessos mais recentes, não teve pejo em citar o presidente francês, Sarkhozy, o primeiro-ministro italiano Berlusconi... e até, para minha surpresa, a primeira-dama francesa, Carla Bruni – a qual, tanto quanto sei, não desempenha funções políticas de nenhum tipo. A fechar, citou a Chanceler Merkel, da Alemanha, hoje em dia, objecto de todas as fúrias dos socialistas portugueses e não só.
Nesta denúncia da mediocridade dos líderes europeus, foi pena Mário Soares ter-se esquecido do primeiro-ministro espanhol, Zapatero – que acabara de ver o seu Partido Socialista copiosamente derrotado nas eleições locais e regionais. E foi pena ter-se esquecido de outros socialistas que têm governado por estes lados, sem honra nem glória. Esta é, porém, uma sina muito comum às fúrias de Soares, bem mais condescendente com a mediocridade, medida em números, dos seus camaradas ideológicos do que com a “cáfila” neoliberal, causadora, na sua opinião, de todos os males económicos de que padecem a Europa e o mundo
Diga-se, a propósito, que as glórias dos antigos líderes europeus – como Willy Brandt, François Miterrand, Jacque Delors, ou, com a devida vénia, Mário Soares – são, em grande parte, uma lenda forjada num tempo muito diferente daquele que estamos a viver. Provavelmente, se governassem hoje, seriam tão medíocres como alguns dos actuais – e, nalguns casos, foram mesmo medíocres, tendo lançado as bases do descalabro moral que vem corroendo a Europa e ameaça, hoje, até os seus fundamentos económicos.
5. MAIO FICOU MARCADO PELO ANÚNCIO da morte de Osama Bin Laden, às mãos das tropas especiais norte-americanas. Estava numa cidade do Paquistão, vivendo escondido à vista de todos. Este anúncio foi recebido com declarações de satisfação pela maior parte dos líderes europeus e, nos Estados Unidos, foi mesmo festejado na rua, como se de uma vitória desportiva se tratasse.
Osama Bin Laden foi um dos piores criminosos que o mundo conheceu nas últimas décadas. O ódio, a destruição e a morte que espalhou pelos quatro cantos do mundo, em nome do Islão, tornaram-no merecedor de condenação por qualquer pessoa de boa vontade. Apesar disso, foi profundamente triste ver multidões histéricas, nas ruas de Nova Iorque e Washington, celebrando a sua morte.
Que diferença entre estas multidões celebrando a morte de um homem e aquela que se reuniu em Roma para celebrar a vida, a bondade e a santidade de outro homem, o Papa João Paulo II. Em Roma não havia histeria nem gritos... Havia lágrimas de saudade e alegria, sentia-se a paz que brota de uma vida levada por amor até ao fim... Havia o sentimento de que o ser humano é capaz de tanto bem, quando se entrega confiadamente nos braços de Deus...
Comparando a celebração da vida de João Paulo II e a celebração da morte de Osama Bin Laden, torna-se evidente que não faz sentido celebrar a morte violenta de ninguém, menos ainda daqueles cuja vida se gastou entregue ao ódio e à destruição. Teria sido bem mais digno acolher a notícia da morte de Bin Laden com a serenidade de quem sabe que a justiça dos homens não é a última palavra.
Nas ruas de Nova Iorque e de Washington celebrou-se a vitória da violência... E a violência, mesmo quando somos obrigados a usá-la em legítima defesa, é sempre uma derrota da humanidade.
6. “ACREDITA EM DEUS? NÃO? PARABÉNS...”, é a frase de abertura de uma notícia breve, publicada recentemente na revista “Sábado”. E segue explicando: um “estudo” realizado nos Estados Unidos demonstra que a crença em Deus é inversamente proporcional à qualidade das relações sexuais. Logo, o ateu tem as melhores relações sexuais – e está de parabéns – e o crente a sério, as piores – e é um pobre coitado.
É impressionante o dinheiro gasto em “estudos” deste tipo. É ainda mais impressionante haver gente disponível para ser “estudada” deste modo. O mais extraordinário, porém, é o modo como as conclusões são apresentadas, sem qualquer argumentação, apenas o básico para influenciar os leitores. Neste caso, ao que parece, a culpa de os crentes terem piores relações sexuais é mesmo da “culpa”, ou seja, do sentimento de “culpa” desenvolvido pelos crentes ao terem relações sexuais.
Desculpem! Sentimento de culpa?! Por causa de quê? Por desfrutar de algo de extraordinariamente bom e saudável que Deus concedeu aos homens e às mulheres? Por que hão-de os crentes sentir-se culpados? Por viverem em plenitude a sua sexualidade, segundo a vocação a que Deus os chamou?
Uma explicação possível é os autores do “estudo” considerarem relações sexuais de qualidade aquelas sem propósito, sem responsabilidade para com o outro, ocasionais, amorais e imorais... E considerarem que os ateus se sentem bem neste tipo de relações, enquanto os crentes não. Quanto aos ateus, não sei. Quanto aos crentes, de facto, se viverem assim a sua sexualidade, não perdem nada em experimentar um salutar sentimento de culpa, pois será por aí o caminho da conversão.
Em qualquer caso, não se percebe a razão dos “parabéns” para os ateus. Afinal, o valor da sexualidade integra-se na vida, como um todo. E, vendo a quantidade de neuroses, angústias e relações falhadas tão características da nossa cultura descristianizada, não parece que o ateísmo massificado tenha assim tantas vantagens. Mesmo quanto à qualidade dos comportamentos sexuais.