Cristo e a Cidade
Um sítio ecuménico que não representa nenhuma Igreja cristã particular; sítio de cristãos empenhados em contribuir, de modo sereno mas eficaz, para tornar presente no espaço público a voz da Igreja de que são membros, na fidelidade ao seu Magistério, propondo-se fazê-lo sem renunciar às exigências da razão nem às da fé cristã.

ELEIÇÕES E CONSEQUÊNCIAS

1. As eleições de 5 de Junho abriram uma nova página na vida política, em Portugal. Pela primeira vez, o centro-direita tem condições para levar por diante uma reforma do país que vá de encontro à sua concepção de sociedade e também às necessidades reais de Portugal. Compreende-se que as atenções de todos estejam centradas nos temas económicos e na urgência de cumprir as reformas a que Portugal se comprometeu, face ao Fundo Monetário Internacional e à União Europeia. Estas reformas, porém, de nada servirão se o novo governo não se empenhar numa reforma mais funda e essencial: libertar o país da dependência da ideologia marxista, que tem condicionado toda a vida económica e social dos portugueses desde Abril de 1974.

2. Se no âmbito da actividade estritamente económica esta necessidade é evidente, há outras onde não surge como tal, mas que são decisivas. Cito apenas dois exemplos: o ensino e a família. O modelo de ensino existente está centrado na escola de iniciativa estatal, é burocratizado, tem tendências pouco democráticas e, sobretudo, apresenta-se empenhado em asfixiar a liberdade de iniciativa particular e cooperativa e a liberdade de aprender. Este sistema, de inspiração claramente marxista, precisa de ser substituído por outro que promova a liberdade de ensinar e de aprender e liberte as escolas, sejam de iniciativa estatal ou não, da burocracia asfixiante do monstro que é o Ministério da Educação.

3. Quanto à família, as últimas décadas viram nascer uma série de políticas anti-família, cujo resultado mais evidente é o facto de Portugal ser, hoje, um país envelhecido, com taxas de natalidade muito abaixo do nível necessário à renovação das gerações. Estas políticas, tão do agrado de algumas elites e do progressismo reinante, são mais gravosas para o futuro do país do que as políticas económicas ruinosas em que temos andado embalados, acumulando dívidas e vivendo acima das possibilidades. Precisam, por isso, de ser substituídas por políticas alheias às “engenharias sociais” de tipo marxista, empenhadas em criar o “homem novo”. Precisam, sobretudo, de ser substituídas por políticas que respeitem as famílias e as deixem em paz, não pretendendo substituí-las por conceitos ditos progressistas que nada têm a ver com a família, célula base da sociedade – sob pena de não haver sociedade que sobreviva à decadência e morte das famílias.

4. O programa de governo apresentado pela coligação PSD-CDS na Assembleia da República confirmou, da parte do Executivo, a vontade de avançar no caminho antes referido. Um caminho que encontrará resistências em sectores organizados da nossa sociedade, sectores que continuam a escrever segundo a velha cartilha do marxismo, mesmo depois da falência deste. E encontrará uma resistência menos evidente, embora mais generalizada, por parte da maioria dos portugueses, sempre dispostos a dizer mal do Estado mas incapazes de se imaginarem sem a tutela do mesmo Estado.

5. O referido programa centra-se, como é natural, nas questões financeiras e económicas. Mas também apresenta páginas significativas sobre outras matérias, entre elas a educação e a família. No âmbito das políticas educativas, nota-se claramente um desejo de regressar ao essencial: exigência, disciplina, ensino a sério, verdadeira autonomia das escolas... Percebe-se também o desejo de uma efectiva colaboração entre os vários elementos do sistema: escolas de iniciativa estatal, escolas de iniciativa cooperativa e escolas de iniciativa privada. Que o ministro Nuno Crato defende estas perspectivas e é capaz de as implementar, é evidente. Que encontrará resistências, a começar no próprio ministério, também é evidente. Será o ministro capaz de superar as resistências, o apego ao “eduquês” que ele tão activamente denunciou e os interesses instalados?...

6. Gostei de ver no programa de governo uma clara preocupação com a família e a natalidade – lendo-se até que as questões relacionadas com a família devem ser transversais aos vários ministérios, de modo a que nenhuma política sectorial seja “inimiga” da família. Infelizmente, esta preocupação aparece acompanhada pelo já quase inevitável discurso sobre as questões de “género”. Ora, se algo caracteriza a ideologia de género é o facto de ser inimiga da família, da natalidade e, em alguns casos, até da liberdade. Se há ideologia que incorporou, em termos “novos”, o jargão marxista do “homem novo” e que, portanto, promove activamente a “engenharia social”, é esta. Se há ideologia cujo objectivo último é destruir a família tal como ela se plasmou ao longo de séculos na cultura ocidental, é esta. Sendo assim, ou a sua presença no programa de governo é apenas um reflexo do linguajar politicamente correcto agora em uso ou nada do que se diz no programa de governo sobre uma política amiga da família será aplicado – porque não será aplicado o princípio fundamental de uma política amiga da família: deixar as famílias em paz e criar as condições para que elas possam, livremente, realizar-se como tal.

7. Portugal precisa de mudar o seu paradigma económico e social. Este governo tem condições para o fazer – pelo menos, para dar início a essa mudança. Fazê-lo será dotar Portugal de algo que nunca teve, verdadeiramente: uma sociedade livre do peso do Estado, capaz de caminhar por si própria e com uma alternativa política e socialmente liberal (conservadora) face ao marxismo autoproclamado progressista, instalado em todos os sectores da nossa sociedade e transformado em travão do desenvolvimento do país e em agente destruidor das raízes mais fundas da sociedade.

Indignados

1. Os protestos dos chamados “indignados” pululam um pouco por toda a Europa, mas sobretudo nos países onde são maiores as dificuldades económicas. Trata-se de manifestações que escapam ao controle dos partidos e até das forças sindicais. Concentram-se sobretudo no protesto, por vezes violento. E revelam uma notável dependência de ideologias passadistas, pouco amigas da democracia, embora passem o tempo a falar dela.

2. Nestas manifestações, há gente marcada pelo desemprego e que gostaria de trabalhar... Mas há também muita gente cujo ideal de vida é a permanente dependência do Estado. Há gente genuinamente preocupada com a qualidade dos regimes democráticos. Mas há também muita gente que se alimenta de ideologias anti-democráticas e despreza a democracia representativa. Há gente que deseja participar activamente na vida cívica. Mas há também muita gente que gostaria de conseguir o poder para acabar com a democracia.

3. Grande parte dos indignados, com o seu apego ao paternalismo do Estado, aos subsídios e aos empregos vitalícios, faz-me lembrar uma conversa com o meu filho de sete anos. Dizia ele, vendo um bebé ao colo da mãe: “Como eu gostava de ser bebé!” “Porquê?” – perguntou-lhe a minha esposa. “Porque a minha vida era muito menos complicada e não tinha trabalhos de casa para fazer!” – respondeu o meu filho, com toda a simplicidade.

4. Nas suas reivindicações, os indignados fazem-me lembrar esta atitude infantil – mas sem a sinceridade das crianças. Por isso, embora os entenda, não tenho simpatia nenhuma pelas ideias e objectivos que os movem. Sobretudo porque, sendo jovens, na sua maioria, não acrescentam nada de novo, antes aprofundam os vícios sociais que nos trouxeram à situação actual: falar de democracia directa e de “referendos” imediatos é simplesmente repetir slogans de outras eras, que marcaram o seu caminho a sangue; falar de segurança no emprego é, em muitos casos, um artifício para promover a estatização da economia e da sociedade; dizer “não” a “esta” democracia por não ser representativa torna-se, com facilidade, um sim aos populismos ditatoriais de todo o género. A crise económica e social é uma realidade. Mas não se resolve rejeitando o que de melhor conseguimos com o sistema democrático, em nome de “amanhãs” utópicos, claramente passadistas e que, no passado, acabaram sempre em banhos de sangue.

Secularização

1. O Presidente de Conselho Pontifício para a Nova Evangelização, D. Rino Fisichella, esteve em Portugal no início de Junho, participando nas jornadas pastorais do episcopado português. Nas suas intervenções lembrou que, para grande parte dos nossos contemporâneos, Deus deixou de ser uma questão – foi arrumado no canto das velharias inúteis e ficou aí esquecido. E a Igreja ainda não aprendeu a lidar com esta sociedade que esqueceu Deus e foi tratar da sua vida.

2. É claro que, em épocas de crise económica, como a que vivemos, toda a gente olha para as instituições da Igreja em busca de algum auxílio material – sobretudo porque sabem que, na Igreja, haverá sempre quem dedique a vida ao serviço dos mais desprotegidos. Até o Estado laicista olha com simpatia a Igreja, nestas alturas – olha a Igreja como se ela fosse uma grande Organização Não Governamental que, com pouco dinheiro, faz muito pelos mais pobres.

3. Que a Igreja esteja sempre ao serviço dos mais pobres, é normal, faz parte da sua identidade. Mas isso não a deve impedir de falar de Deus aos homens, continuando a anunciar-lhes Jesus Cristo e o seu Evangelho. Porque não haverá saída para a crise sem que as pessoas e as sociedades reencontrem os valores que as fizeram prosperar. E, digam o que disserem os sábios destes tempos esquecidos de Deus, entre esses valores está o Evangelho cristão, como seu fundamento – sem ele, tudo se resume a modas e a maiorias de ocasião, destinadas a cair, mais tarde ou mais cedo, como o gigante com pés de barro derrubado por uma pedra insignificante.