NA PRAÇA PÚBLICA
por Elias Couto


Citar politicamente a Bíblia em vão...

1.
Estava a ler a edição do Semanário Sol de 21 de Junho e deparei-me com a habitual crónica de Miguel Portas, conhecido bloquista e deputado europeu. Chamou-me a atenção o facto de o texto abrir com duas citações do livro bíblico do Deuteronómio. Mais adiante, nova citação, desta feita do Evangelho segundo S. Mateus. Sabendo que o deputado bloquista não é dado a estas coisas da religião, estranhei, mas... enfim, um ateu também pode citar a Bíblia e fazê-lo por boas razões. Fui lendo e percebi que havia no texto algo... Como dizê-lo? Errado? Fora do contexto?

2. Portas insurge-se, no referido texto, apropriadamente intitulado «Arrogância europeia», contra uma lei ou directiva (é sempre difícil saber o que faz o Parlamento Europeu!) relativa à emigração, recentemente votada no referido Parlamento. E, diga-se em abono do deputado, se a tal lei/directiva prevê aquilo que no seu texto afirma, trata-se, de facto, de uma lei miserável, a merecer repúdio generalizado de pessoas com um mínimo de formação moral, para não dizer cristã. A revolta do deputado bloquista é tanto maior quanto, nas suas palavras, a lei/directiva foi votada por «uma maioria de deputados, na sua quase totalidade cristãos esquecidos...». E aqui é que a coisa descamba.

3. Não defende o Bloco de Esquerda que a religião deve ser relegada para o mero plano das crenças individuais e não ter qualquer relevância nas coisas públicas e, menos ainda, na política? Não defendem estes senhores a supressão de quaisquer símbolos religiosos do espaço público? Não foram estes senhores dos primeiros a erguer a voz contra a possibilidade de se inscrever qualquer referência às «raízes cristãs da Europa» na defunta constituição europeia e em qualquer tratado do mesmo género? Não estiveram eles na primeira linha do linchamento político, pelo Parlamento Europeu, de Rocco Butiglione, candidato a comissário europeu na equipa de Durão Barroso, com o argumento de que era «demasiado católico»? Como é que, agora, de repente, se lembram da putativa condição de «cristãos» de grande número de deputados europeus, só porque votaram uma lei com a qual eles não concordam? Temos um Parlamento Europeu maioritariamente constituído por «cristãos esquecidos»? É no que dá rejeitar as raízes cristãs da Europa, pretender expulsar o cristianismo da praça pública e expulsar, de facto, do Parlamento Europeu ou de qualquer outro lugar político a possibilidade de pensar e agir politicamente sem renunciar às próprias convicções religiosas...

4. Vejamos, agora, o outro lado da questão. Quando os mesmos deputados, hipoteticamente «cristãos esquecidos...», votam leis/directivas que atentam contra outros valores essenciais do cristianismo, onde está a acusação de incoerência por parte dos bloquistas? Quando os tais deputados votam directivas para forçar os países da União a legalizar e liberalizar o aborto, não há incoerência nem nenhuma citação bíblica aplicável? Nem quando fazem o mesmo relativamente ao casamento de homossexuais? Nem quando promovem directivas que atentam directamente contra a família? Nestes casos, claro, os bloquistas consideram muito bem terem deixado as suas convicções religiosas em casa e votarem segundo o politica e culturalmente correcto do momento, obedecendo aos directórios partidários. No caso da lei/directiva sobre a emigração, eis que é um escândalo terem deixado as suas convicções religiosas em casa, «esquecidas», e terem obedecido aos directórios partidários!

5. O que o deputado bloquista pretende fica claro alguns parágrafos adiante, no seu texto. Afirma: «... os responsáveis por esta regressão em matéria de valores fundamentais têm nome. Foram os governos da União, todos sem excepção (estes governantes devem ser todos «cristãos esquecidos», digo eu...); a comissão Barroso (felizmente, não está lá nenhum comissário Butiglione, «demasiado católico», mas mesmo assim devem ser todos «cristãos esquecidos», digo eu...); e uma maioria de deputados onde se encontraram a extrema direita, a direita, os liberais e ainda 49 socialistas...» (devem ser todos «cristãos esquecidos», desde a extrema direita aos 49 socialistas, digo eu...). Miguel Portas, de facto, não está minimamente interessado em saber se os tais deputados são cristãos, judeus, muçulmanos ou outra coisa qualquer. Interessa-lhe, isso sim, dar a entender que os cristãos são incoerentes, hipócritas e que a sua fé não serve para nada quando se trata dos «valores fundamentais» – como se não fossem as Igrejas na Europa a estar na primeira linha, e no terreno, da defesa dos direitos dos emigrantes. E fá-lo, mesmo se para isso tem de fazer politicamente o pino, afirmando exactamente o contrário daquilo que o seu jacobinismo extremista defende.

6. É por estas, e por muitas outras, que vale a pena ter presente aquela palavra evangélica, tão apropriada a estes tempos: «Eis que Eu vos envio como ovelhas entre lobos. Por isso, sede prudentes como as serpentes e sem malícia como as pombas» (Mateus 10, 16).


Crise alimentar... a culpa é das religiões!

1. A sensação geral é de nos encaminharmos para uma catástrofe de proporções inimagináveis. Crise financeira global, petróleo a preços incomportáveis, carestia alimentar, fome e guerra em muitas regiões de África, ameaça de conflito grave no Médio Oriente – tudo com o «aquecimento global» em pano de fundo e a miríade de tragédias a ele associadas pelo alarmismo ecologista mais inflamado. Alguns acreditam mesmo já não haver nada a fazer... excepto, talvez, considerar a extinção da raça humana como solução ideal (há quem o defenda!) e, entretanto, denunciar as religiões pela sua responsabilidade nos males do mundo.

2. A propósito desta segunda linha de acção, há argumentos de antologia. Alguns encontram-se num texto de Oliver Thomas, publicado numa edição de Abril de USA Today e apropriadamente intitulado «Estará a nossa religião a matar-nos». Para não alargar demasiado a exposição da tese, fica um breve resumo: opondo-se ao controlo de natalidade, rejeitando liminarmente o aborto e promovendo as famílias numerosas, as religiões são verdadeiras inimigas da humanidade e, sobretudo, do planeta – pois promovem a sobrepopulação, com todo o cortejo de misérias próprias da mesma (este argumento, verdade seja dita, não tem nada de novo e vem sendo mantra infatigável de gente muito diversa, unida quase sempre pelo preconceito anti-religioso). Entre as religiões mais perigosas, Oliver Thomas cita, sobretudo, a Igreja Católica (nem podia ser de outro modo!), os Mórmones, alguns grupos de Judeus ortodoxos e alguns muçulmanos (esta do «alguns muçulmanos» é original e merecia explicação, mas o Autor fica-se assim... talvez para não «ofender» a sensibilidade demasiado à flor da pele de «alguns outros» muçulmanos).

3. A tese de que há ou vai haver «demasiados humanos» neste planeta vem-se repetindo desde Thomas Malthus (1766-1834) – e vem sendo sucessivamente desmentida. Quem exprime tal convicção, porém, raramente se considera entre os «demasiados», podendo, por isso, fazer algo a respeito – no passado, preferiam, habitualmente, promover a eliminação ou a esterilização das classes inferiores, dos pobres, dos improdutivos; no presente, sentem-se à vontade para promover o aborto de «outros», o controlo de natalidade de «outros», a esterilização de «outros», sobretudo em países ditos pobres ou entre os pobres dos próprios países (entre os ricos, ao que parece, tal não será necessário, pois eles, responsavelmente, já terão assumido a atitude ecologicamente ilustrada de se deixarem extinguir...). O facto de os humanos ocuparem apenas cerca de 3% da superfície da Terra [cf. Jacqueline Kasun – «The War Against Population: The Economics and Ideology of World Population Control» (1998)] não diz nada a estes infatigáveis abortistas, ideólogos do controlo de natalidade e «verdes» tantas vezes extremistas.

4. O ecologismo ideológico tornou-se inimigo do desenvolvimento: não lhe interessa se, nos últimos decénios, milhões de seres humanos deixaram de viver na mais absoluta pobreza. Preocupa-o, sim, que esses seres humanos tenham passado a consumir mais – pois isso só pode ser mau. Também por isso a “globalização” é o inimigo público número um de todas as ideologias conservacionistas, e não apenas das esquerdas radicais – porque, mesmo com todos os seus defeitos, contribuiu largamente para o acesso de milhões de seres humanos a níveis de qualidade de vida nunca antes sonhados. A tais ideologias não lhes interessa se, na maior parte dos casos, a fome é produto de má governação (veja-se o caso do Zimbabwe, que de país auto-suficiente em cereais passou a depender totalmente da ajuda externa), de corrupção e de guerras infindáveis. Para eles, o problema são os humanos – e não se podendo extingui-los, importa pelo menos controlá-los. Se, de caminho, for possível acusar as religiões como causadoras da fome e até do aquecimento global, junta-se o útil ao agradável.

5. Para estas ideologias, os seres humanos não passam de animais poluidores, cujo valor se mede pela «pegada de dióxido de carbono» deixada na atmosfera terrestre... e o que começa por ser um discurso teórico, torna-se rapidamente na proposta de uma lei coerciva e traduz-se no desejo insano de ver o Estado regular tudo e todos – sempre em nome do bem-estar presente e futuro de tudo e todos. Não surpreende, por isso, que, segundo Don Feder («Global Warming: The Left's Latest War on the Family», in GrassTopsUSA.com), em Dezembro de 2007, um professor de obstetrícia australiano (University of Western Australia), tenha incentivado o governo de Camberra a criar uma «taxa por bebé» de 5000 dólares, mais uma «taxa de carbono» anual de 800 dólares, aplicáveis a cada criança nascida em famílias que já tivessem dois filhos...

6. Voltemos à questão inicial: a «culpa» das religiões no desastre ecológico actual e futuro. Apenas duas considerações:
Será assim tão difícil de perceber que, digam as Igrejas o que disserem acerca do controlo de natalidade, contra o aborto e a favor de famílias numerosas, o processo de envelhecimento da população mundial e, a prazo, a sua diminuição em largas partes do mundo, apresenta-se imparável, a começar pela Europa, onde o «Inverno demográfico» veio para ficar?
– Como consequência, será tão difícil de perceber que as Igrejas, ao rejeitarem o aborto, ao promoveram uma paternidade e maternidade responsáveis e ao defenderem a estabilidade e fecundidade familiares, estão a prestar um serviço às sociedades e, ainda mais importante, constituem-se em baluartes da dignidade dos seres humanos, sobretudo dos mais débeis?


Verdades inconvenientes...

1. A propósito da subida vertiginosa dos preços e da crise alimentar que, por isso, se abateu sobre diversas regiões do globo, reuniu em Roma, nos princípios de Junho, uma cimeira global, organizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Na ocasião, Bento XVI dirigiu uma carta aos participantes, lida pelo Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcísio Bertone. Na carta, o Papa exprime a preocupação da Igreja com a situação actual e afirma a necessidade de se buscarem soluções reais – isto é, respeitadoras da dignidade humana. E, a propósito, lembra algumas verdades, para muitos, inconvenientes.

2. A fome e a desnutrição são inaceitáveis num mundo que, de facto, dispõe de níveis de produção, de recursos e de conhecimentos suficientes para acabar com este drama. Não faltam, no mundo, nem alimentos nem capacidade para produzir mais e distribuir melhor os alimentos produzidos. Por isso, em vez de agitar o fantasma da sobrepopulação do planeta, convém erguer antes a bandeira da razoabilidade e da cooperação entre as nações. Na verdade, as políticas erradas, os desgovernos despóticos e, sobretudo, o desprezo pelas populações rurais têm feito muito mais para criar situações de fome, em muitos países, do que qualquer súbita escassez de alimentos. Mesmo entre nós, décadas de desprezo pela agricultura conduziram à destruição da mesma, em grande parte do país. Bastou, porém, uma crise importada de outras paragens para se começar a perceber que campos abandonados, terras incultas e a perda de conhecimentos básicos transmitidos de geração em geração e agora, em muitos casos, perdidos, não é boa política em lado nenhum.

3. É preciso aumentar a disponibilidade de alimentos, valorizando as capacidades dos pequenos agricultores [...]. O aumento global da produção agrícola só será eficaz se for acompanhado pela distribuição eficaz dessa produção e se se destinar primariamente a satisfazer as necessidades essenciais. Trata-se de um caminho que não é fácil, mas que permitirá, além do mais, redescobrir o valor da família rural. A tão acelerada e celebrada deslocalização das populações para as cidades – com o consequente crescimento exponencial das megacidades – é fruto do desprezo pela terra e da subalternização social dos agricultores. Entre nós, por exemplo, raros eram os agricultores que desejavam para os filhos um futuro igual ao seu: trabalhar de sol a sol, sem domingos nem feriados, sem férias... e sem qualquer garantia de não perderem meses de trabalho numa única chuvada ou trovoada mais violenta. Tenho lido sobre a dignidade do agricultor e do trabalho no campo. Meras palavras, de facto, romantizando uma realidade com muito mais de dureza e privações do que de abundância – veja-se de onde saiu, em décadas passadas, o grosso da emigração portuguesa. E a realidade não mudou muito. O citadino continua a olhar o agricultor como ignorante, campónio que mal sabe falar, sempre a pedir subsídios – até se popularizou o dito: «se chove, pedem subsídios; se não chove, pedem subsídios». O crescimento das cidades significa campos ao abandono; restam as grandes multinacionais da agricultura para produzir alimentos... É a globalização, e a gritaria contra o capitalismo neoliberal, agora também a dominar o mercado mundial da produção de alimentos. Mas então, se os campos ficaram vazios, quem há-de alimentar as multidões imensas acantonadas em mundos de betão, onde nem as árvores conseguem medrar?

4. Só a defesa da pessoa permite combater a causa principal da fome, ou seja, esse fechamento do ser humano aos seus semelhantes que destrói a solidariedade... O direito à alimentação é expressão prática de um direito muito mais básico: o direito à vida e o direito a que esta seja protegida pelos poderes públicos. Não tutelar adequadamente o direito à vida introduz distorções culturais e civilizacionais dificilmente reparáveis. Só assim se compreende que num mundo dotado de bens suficientes para todos, muitos não tenham acesso ao essencial: a alimentação quotidiana. Estas distorções culturais tornam-se ainda mais claras quando, sem acautelar devidamente o mercado dos bens alimentares, os mais essenciais começam a ser desviados para a produção de energia – sem nenhuma racionalidade económica que o justifique, apenas em nome dos deuses do ecologismo, para os quais os sacrifícios humanos são muito mais aceitáveis do que a exploração sensata dos recursos energéticos disponíveis.

5. Dá de comer a quem morre de fome; se não lhe deres de comer, mata-lo. (Decretum Gratiani, c. 21, d. LXXXVI). O coração fechado ao outro torna-se destruidor de tudo, até de si próprio. Não vale a pena clamar que há demasiados humanos no planeta. Se fôssemos metade, os problemas continuariam aí, a assombrar-nos, porque o coração humano não se converte facilmente. O grito dos famintos não pode esperar. Há, sem dúvida, reformas profundas a fazer. É preciso dignificar a condição das gentes que trabalham a terra – sobretudo, respeitar o seu trabalho e valorizá-lo adequadamente, pois é essa gente quem alimenta a vida de todos os outros. É preciso prevenir as distorções introduzidas pela especulação nos mercados mundiais de alimentos. É preciso apostar na investigação, para o desenvolvimento de sementes mais produtivas e resistentes aos extremos climatéricos. É preciso valorizar a agricultura tradicional, que mantém os campos ocupados, as terras produtivas e os espaços humanizados. Mas é necessário, sobretudo, “dar de comer a quem tem fome”, agora.