Ano Europeu do Diálogo Intercultural: para uma
humanização da cultura no espaço
público
por José Luís Gonçalves
«A
articulação palavra pronunciada e o rosto do outro ser
humano (Lévinas) que o verdadeiro diálogo intercultural
pressupõe constituem uma alternativa antropológica à
dissolução identitária do sujeito contemporâneo no espaço
público».
1.
Num mundo em acentuada homogeneização
comunicacional
e em esbatimento
identitário
aparente com um enfraquecimento
da pluralidade
cultural-contextual,
fará ainda sentido propor um Ano
Europeu do Diálogo Intercultural
se a interculturalidade faz do processo de aculturação o
lugar antropológico por excelência na relação com o
outro? Para responder a esta questão, importa já não
tanto partir de uma análise instrumental da cultura, mas
apontar para uma dimensão ontológica desta (lugar da
significação de si e dos outros) porque em tempos de
globalização estas duas dimensões se (re)constroem e
validam dialecticamente. Se ao ‘homem das raízes’ sucedeu
contemporaneamente o ‘homem das antenas’, o intercultural
não pode resvalar para um discurso universalista que
aconteça no campo de uma racionalidade funcional e
utilitária da dimensão instrumental da cultura, mas deve
esforçar-se por mergulhar no núcleo ético-mítico da
cultura de referência de cada sujeito para o compreender
e conhecer. Este compreender e conhecer concebem-se, pela
mediação cultural, numa perspectiva relacional, segundo
Todorov: «se compreender não for acompanhado de um
reconhecimento do outro, como sujeito, tal compreensão
arrisca-se a ser utilizada para fins de exploração e,
deste modo, o saber será subordinado ao poder».
2.
A uniformização cultural contemporânea em curso e a
racionalidade instrumental que a suporta exprimem-se, por
exemplo, na uniformização idiomática das tecnologias da
comunicação (cf. Internet), configurando um sujeito que
se sente cada vez mais passageiro num mundo
comunicacional de reenvios semióticos, sujeito diluído,
sem origem ou pertença. A dinâmica intercultural
instaurada, para fazer jus à dignidade humana, reclamará
um regresso às línguas-mãe que representam uma subversão
à homogeneização em curso na medida em que estão
carregadas de peso semântico, convertendo a linguagem em
veículo de transmissão simbólica de experiências
significativas – porta de acesso ao outro – constituindo
uma certa fenomenologia natalícia, uma espécie de
ontologia
inicial
dos interlocutores dialogantes. A articulação
palavra
pronunciada
e o rosto do
outro ser humano
(Lévinas) que o verdadeiro diálogo intercultural
pressupõe constituem uma alternativa antropológica à
dissolução identitária do sujeito contemporâneo, composto
das seguintes características:
Um
diálogo de componente místico (e não no registo
previsível da razão monológica e unidireccional) porque
vive da força de antecipação e de expectativa que rodeia
os interlocutores antes do diálogo e no acto deste se
manifesta dom mútuo, circularidade de sentidos –
confrontação e conflito que reconstroem identidades –, e,
por isso, desvelação de si e do outro, finitude posta a
nu, e, contudo, mistério de si e do outro por decifrar.
Um diálogo repleto de jogo de símbolos e de
representações (e não uniformização idiomática) que para
serem expressos requerem distância de si e correlação com
o outro, oscilando entre a promessa de ser compreendido e
a desilusão da relatividade comunicada. Jogo de palavras
e de silêncios na busca da verdade culturalmente situada
– e, por isso, relação assimétrica –, uma verdade
interpessoal que obriga e julga as alteridades
dialogantes.
Um diálogo prenhe de significação ética (e não somente
estetização da realidade ou simpatia relacional) porque
jogo de promessa e de responsabilidade, de entrega e de
recusa, que altera – pela empatia – e objectiva – pela
descentração – os interlocutores para se reencontrarem no
‘nós’
de uma fusão de
horizontes
possível na busca da verdade (Gadamer), recuperando as
noções de distância e de diversidade. Diálogo que se move
no espaço da opção entre a solidão e a comunidade, de
algo totalmente dado e ainda totalmente por cumprir,
fruto de um árduo compromisso e risco da
não-reciprocidade, mas que pressupõe sempre a alteridade
como relação ética primeira (Lévinas).
Um diálogo que promete uma pátria comum no reconhecimento
do outro ser humano (e não de um sujeito incolor do mundo
das imagens). Diálogo que sendo culturalmente situado,
perpassa a estrutura cultural porque é, no mesmo
movimento, separação prometedora do outro na escuta e
ânsia de compreensão profunda por uma razão
pática
na comunicação de si. Diálogo onde acontece o ser pela
palavra/comunicação no sentido Buberiano,
entre
os dois interlocutores numa tensão dialógica de
mesmidade
e outridade
configuradora de uma antropologia do inter-humano mais do
que de uma ontologia da relação.
3.
Acreditamos que toda as iniciativas sócio-políticas como
esta do Ano Europeu para o Diálogo Intercultural encerram
em si uma utopia antropológica. Mas encruzilhadas
identitárias do sujeito e da relação deste com a
alteridade identificadas na globalização em curso
requerem, sobretudo no espaço público, respostas que o
‘salvem’ do solipsismo comunicacional, do nihilismo
existencial, do fechamento em horizontes de sentido
único, de uma identidade monolítica e universalista
veiculada em modos de relação eivadas de uma
racionalidade funcional objectivante da alteridade. A
noção de interculturalidade aqui brevemente enunciada
oferece horizontes de construção antropológica no espaço
público que em tempos de globalização podem constituir um
espaço alternativo que subverte a homogeneização cultural
e a exclusão social em curso. São as sociedades plurais e
em mestiçagem cultural progressiva quem proporciona as
possibilidades de relações intersubjectivas em que
há personalização
e não só socialização.
Contemporaneamente, o isolamento e o anonimato dos
sujeitos-cidadãos
convertem-se numa das chaves que impedem a humanização da
cultura se o espaço público não favorecer uma dinâmica
crescente de comunicação que marcará a distância
progressiva – e não negação – a respeito da sua família,
da pátria, dos valores recebidos. Estes dois movimentos
interactivos – pertença ao grupo e ‘fuga’ do mesmo –
possibilitam, pela mediação do outro, um caminho de
liberdade, segundo Erich Fromm. A relação intercultural
assim concebida, a partir de pessoas singulares e de
identidade plural mas em dinamismo de reconfiguração
relacional, instaura um ethos
comum: as mundivisões não são impostas unilateralmente
mas configuram-se na interacção comunicante dos sujeitos.
A comunicação intercultural estimulará a emergência
destas singularidades, numa relação tensional dinamizada
por uma reformulação antropológica permanente, para lá
dos esquemas culturais rígidos ou diluídos.
José
Luís Gonçalves é
professor adjunto da Escola Superior de Educação de Paula
Frassinetti, professor convidado da Faculdade de Educação
e Psicologia da UCP – Porto e Investigador da FCT.
