Da ignorância académica: as religiões
por Clara Costa Oliveira
O motivo
pelo qual é necessário providenciar cultura religiosa no
nosso mundo prende-se com a sobrevivência da nossa
civilização, antes mesmo da nossa sobrevivência como
cristãos.
Sendo professora universitária há cerca de vinte anos, a
ignorância e preconceito dos estudantes e docentes
universitários sobre as religiões tem sido uma constante,
que não me deixou de espantar, ao longo deste tempo. Já
anteriormente detectara esta situação enquanto docente de
Filosofia no ensino secundário, mas o contexto rural no
qual leccionava iludiu-me acerca da proporção da questão.
Ao abrigo da gestão matricial da Universidade do Minho,
formei professores e educadores de infância, técnicos
superiores de educação, biólogos e médicos, ao nível da
graduação.
No que respeita à formação pós-graduada, colaborei na de
educadores de adultos formais e não formais (sem serem
professores), educadores para a saúde (professores,
médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fisiatras,
terapeutas da fala, assistentes sociais, psicólogos,
etc.), na de pedagogos sociais, na de epistemólogos, na
de professores de Matemática. Tenho ainda dado formação a
técnicos de instituições não académicas e até a empresas,
onde a maior parte do público se enquadra naquelas
categorias profissionais, ainda que tenha tido o
privilégio de trabalhar com pessoas de outras áreas
académicas e profissionais (algumas delas sem formação
académica).
Face a todo este público posso, infelizmente, afirmar que
a ignorância sobre as grandes religiões do mundo que
tenho encontrado é esmagadora (e não me refiro apenas ao
público da Universidade do Minho, pois tenho colaborado
com universidades de outras cidades do país).
Poderíamos até supor que esta questão seria diferente no
que se refere ao cristianismo, dadas as circunstâncias
culturais do nosso país, mas infelizmente tal não
acontece. Ainda que os evangélicos que agora se revelam
assumidamente no mundo académico possuam uma notória
vantagem sobre conhecimento bíblico face aos outros
estudantes, mesmo neles raramente se encontra um
conhecimento mais profundo da sua fé.
Entre aqueles que se dizem crentes (ainda que não saibam
em quê) e aqueles que se crêem ateus, não tenho
verificado grande diferença; de um modo geral, raramente
possuem um discurso coerente e sobretudo informado sobre
aquilo que legitimamente acreditam ser as suas crenças
religiosas. O que tenho encontrado como ponto comum mais
usual é a identificação do cristianismo com o catolicismo
romano (que também não sabem caracterizar) e a
identificação desta denominação cristã com o seu clero.
Muitos dos jovens que têm sido meus alunos acreditam
serem ateus por não estarem de acordo com o comportamento
dos padres que conhecem. Pedindo desculpa pelo absurdo da
proposição que acabei de compor, tenho que
lamentavelmente reafirmar o que ela diz.
Identifico-me bastante com estes jovens pois não tive
formação religiosa cuidada por parte de meus pais, e não
fui bem acolhida na paróquia que frequentava na minha
adolescência. Vivi no entanto integrada numa família
alargada com valores éticos inquestionáveis por serem tão
naturalmente integrados na existência concreta de meus
familiares. Ser bom e justo sempre foi um imperativo,
sabendo desde cedo que tal não é fácil e muito menos
reconhecido. Mais uma razão para ser um imperativo.
A busca por compreender uma ética que vivia de forma
incorporada levou-me a estudar as religiões, a procurar
diferentes locais de culto em Portugal e sempre que
viajava. Aos poucos identifiquei-me inquestionavelmente
como cristã, ainda que com muitas dúvidas raciocinativas.
E continuei à procura… fui acolhida na comunhão anglicana
já perto dos trinta anos.
O que me faz pois confusão quanto aos jovens que tenho
encontrado não é a ignorância religiosa na qual vivem,
mas sobretudo o conforto com que nela vivem. Muitos
deles, no entanto, sentem que os dias lhes ‘sabem a
pouco’, sentem o amor de Deus a querer tocá-los mas estão
como sujeitos à cegueira branca que tão bem relatou
Saramago! Quando a morte de alguém que amam lhes bate à
porta (e tal acontece, infelizmente, muito cedo,
usualmente), rebentam por dentro num desassossego e raiva
auto-destruidores.
Aqueles que se encontrem livres da responsabilidade
perante esta situação, que atirem a primeira pedra…eu não
o farei, certamente.
A falta de noções fundamentais de História universal
encontra-se na base desta questão. A incapacidade em
relacionarem informações que adquiriram em disciplinas e
contactos diferentes, outro dos pontos a realçar. Assim,
por exemplo, muitos dos estudantes que tenho encontrado
não sabem por que são cristãos, verbalizando que isso se
deve ao facto de Jesus ter morrido na cruz, não tendo
pois a noção de quão usual esse facto era no momento
histórico em que Jesus viveu. Outros afirmam que Jesus
ressuscitou e isso fez a diferença; quando lhes lembro a
história de Lázaro ressuscitado (que alguns se lembram
vagamente de ouvir na catequese), não me sabem explicar
por que razão seguem Jesus de Nazaré como sendo o Cristo
e não Lázaro. Aliás, a maior parte deles não sabe o que
‘Cristo’ significa, afirmando muitas vezes que quer dizer
‘aquele que sofreu muito’ ou pondo até a hipótese de se
tratar de um nome de família…
A alegria da Sua ressurreição na sua estreita ligação com
a nossa salvação é algo identificado por poucos deles,
raros. No entanto, muitos fizeram a catequese e vários
são catequistas.
Eis aonde queria chegar: como é que tal é possível? Que
testemunho andamos a dar uns aos outros? Como podemos
deixar que a genuína fé que vemos brotar de muitos deles
se afogue nesta ignorância fomentada e alimentada por Dan
Brown e outras obras de autores do género que hoje
proliferam?
A questão é contudo pertinente do ponto de vista
cultural, tout
court.
Não é preciso ser cristão para querer saber aquilo em que
se funda a fé dos cristãos. Não é preciso ser
evolucionista para se conhecer a teoria da evolução das
espécies darwiniana. Gerações de jovens com escolaridade
obrigatória, com curricula
apinhados de áreas curriculares, imersos na Internet
desconhecem no entanto os mitos base da sua civilização:
a religião judaico-greco-cristã e a teoria da evolução
das espécies.
O problema não se aplica apenas aos jovens, sejamos
honestos! Quantos de nós leram a Bíblia (na totalidade) e
a célebre obra de Darwin? Faz falta? Acredito que sim,
pois vivemos imersos nas suas crenças e muitas vezes em
crenças que nos afirmam lá estar fundamentadas. A quem
não pensa pela própria cabeça não há canudo que lhe
valha! Thomas Merton afirmava que da lucidez emergia a
compaixão e só depois era possível a nossa total perda no
amor de Deus…sem lucidez nada é possível!
Assumi a responsabilidade de proporcionar uma sessão
sobre as cinco principais religiões mundiais (tendo em
conta o número de crentes) todos os anos lectivos a todas
as turmas que tiver a meu cargo. A maior parte das vezes
consigo fazê-lo articuladamente com os conteúdos
programáticos usuais; outras vezes surge como uma sessão
um pouco alternativa. Curiosamente, é sempre muito bem
acolhida, mesmo que no último contexto. O principal
problema é calá-los…Assim, é possível leccionar história
da educação ocidental centrando-nos na evolução do
cristianismo, formar médicos e enfermeiros estudando o
que as várias religiões nos têm a dizer sobre o
sofrimento, sobre a vida e a morte, etc.
Outro desafio que tenho enfrentado é a discussão sobre os
textos adoptados como canónicos e outros como gnósticos,
por exemplo, por ser uma questão que tem sido muito
aproveitada na manipulação cultural dos jovens. Li e
estudei os textos não canónicos e quando lecciono a
referida sessão lectiva, levo sempre «The other Bible»,
para consultarem ou até para levarem para casa, para
lerem. Explico-lhes que houve razões para escolher
determinados textos pela tradição, tal como as há para a
adopção da teoria da biologia molecular como paradigma da
saúde/doença actuais em vez da teoria dos humores dos
gregos antigos. Existem autoridades sobre as matérias que
decidem sobre elas; é claro que existem jogos de poder
nestas decisões (na religião e na ciência) e por isso
mesmo devemos ler outros textos, em nome da referida
lucidez. Da minha parte, após a leitura dos ‘outros’
textos bíblicos considero que globalmente houve uma boa
escolha, ainda que pense que deviam ter sido incluídos um
ou outro texto que não o foram (como o evangelho da
Verdade).
A principal tarefa prende-se contudo com a formação ao
nível das paróquias e das escolas. Cabe às primeiras a
responsabilidade de educar o seu povo, possibilitando a
criação de comunidades cristãs. Para tal, não é preciso
possuir grandes números de aderentes, mas antes exercer
essa tarefa com devoção e humildade, recorrendo a outras
pessoas da paróquia que possuem cultura bíblica que terá
que ser mais importante que a doutrinária.
Num país com escola pública com tantos anos de frequência
obrigatória, cabe-lhe uma função educadora que nem sempre
lhe reconhecemos. Sendo a escola pública laica (e com tal
concordo), tal não pode significar eleger como um dos
seus tabus as religiões. Elas existem desde que existe a
nossa espécie (o que não acontece, por exemplo, com a
ciência), pelo que a história das religiões é muito
importante de ser aprendida por qualquer criança/jovem.
Para tal, precisaremos de atribuir colectivamente mais
valor às áreas curriculares conectadas com a História,
mas também de exigir que escolas que possuem nos seus
projectos educativos expressões tão bonitas como “educar
para a autonomia”, “educar para a paz” cumpram a
responsabilidade de não deixar de cumprir as suas funções
na área religiosa. Obviamente que tal exige pouca
doutrina e muita História e por isso defendo que tais
conteúdos devem ser leccionados em áreas como a História
e a Filosofia.
O motivo pelo qual é necessário providenciar cultura
religiosa no nosso mundo prende-se com a sobrevivência da
nossa civilização, antes mesmo da nossa sobrevivência
como cristãos.
Num mundo humano em auto-destruição em nome de Deus(es),
educar as pessoas a procurar a continuidade que existe em
todas as religiões (sem omitir as diferenças) constitui
um passo importante para a pacificação. Torna-se urgente
percebermos todos como as três religiões do Livro se
encontram histórica e teologicamente ligadas entre si, e
compreender os contextos históricos que as afastaram
(ainda que haja questões teológicas para tal,
obviamente).
Assumir as responsabilidades de todos nós quanto a esta
temática faria muito mais pelo real ecumenismo do que
encontros entre autoridades eclesiais de diferentes
denominações cristãs e de outras religiões.
Clara
Costa Oliveira é Prof.
Associada da Universidade do Minho (Instituto
de Educação e
Psicologia e Escola de Ciências da Saúde).
Licenciada
em Filosofia e Mestre em Epistemologia pela UCP e
doutorada em Filosofia
em Educação pela Univ. do Minho. Possui
várias publicações no país e no estrangeiro, com destaque
para dois dos seus
livros: A Educação como processo auto-organizativo
(1999), Lisboa: Instituto
Piaget; Auto-organização, Educação e Saúde (2004).
Coimbra: Ariadne.
