A família segundo S. Paulo
por
João Duque
«... o
contributo da ideia judaico-cristã de família centra as
relações familiares na igual dignidade e liberdade de
todos os seus membros, dignidade que os respeita como
pessoas diferentes; e centra essas relações em relações
de aliança amorosa, de tal modo que cada um se sinta
parte integrante do outro».
Por João Duque
Os escritos de S. Paulo são especialmente importantes
para toda a tradição cristã, sobretudo pelo facto de
condensarem elementos fundamentais do pensamento judaico,
ao mesmo tempo que lhes conferem uma interpretação
explicitamente cristã. Tudo isto, numa relação fértil de
diálogo crítico com o pensamento helénico envolvente.
Nesse sentido, podem considerar-se uma espécie de
Summa
Theologica
do cristianismo inicial, que viria a marcar todo o
cristianismo posterior.
Ora, um dos temas que aí aparece reflectido – mais
implicitamente do que explicitamente – é o tema da
família. A abordagem de S. Paulo permite-nos ficar com
uma ideia bastante clara das diferenças de concepção de
família, entre o mundo hebreu e o mundo grego, e entre
estes e o cristianismo.
Genericamente falando, o mundo grego antigo partia do
pressuposto de que os seres humanos se dividiam em
diversas naturezas.
Dessas, as mais importantes eram: o homem livre, a mulher
livre, os escravos e as crianças. Todos eles constituíam
a sociedade familiar, sobretudo porque se relacionavam
desempenhando papéis diferentes, consoante as diferentes
naturezas. Considerava-se, por exemplo, que a natureza do
homem era mandar e a da mulher obedecer; a do escravo,
ser propriedade, e a do homem livre, ser proprietário; a
natureza da criança era semelhante à do escravo, pois era
propriedade do pai. A família era o espaço do exercício
dessas relações diversas. Mas estava, sobretudo,
enquadrada no espaço maior, o da polis,
que lhe dava todo o sentido. Assim, a função de cada
natureza humana estava determinada, sobretudo, pelo seu
lugar na polis,
através da prática quotidiana familiar e do seu
contributo para a vida da cidade.
Sob este pano de fundo, conseguiremos avaliar melhor
alguns textos de S. Paulo, que escrevia a partir de
outros pressupostos completamente distintos. É que, para
a tradição judaica, a ideia de família não derivava da
ideia de polis
nem da relação entre as diferentes naturezas humanas. Até
porque, para a tradição judaica, não havia diferentes
naturezas humanas. Todos eram radicalmente iguais,
enquanto igualmente criaturas de Deus. A família humana
era, sobretudo, pensada como imagem, nas relações
inter-humanas, da fundamental relação de Deus com o povo.
Por isso, a aliança
era a categoria básica para compreender a relação
familiar. Entre marido e esposa estabelecia-se uma
relação de iguais, nas suas diferenças fundamentais. Uma
relação de compromisso mútuo livre – e não de
correspondência a certa função ou certo papel
predeterminado pela sociedade. Dessa aliança livre entre
pessoas de igual dignidade é que se construía a sociedade
– e não o inverso. E essa aliança livre destinava-se à
fertilidade, originando seres igualmente livres, que
entram igualmente numa dinâmica de aliança. Os filhos
eram assumidos, sobretudo, como novos filhos de Deus e
membros do seu povo – e não como propriedade dos seus
pais ou cidadãos da sua cidade.
Ora, é a partir deste contexto, agora com o acrescento da
novidade cristã, que S. Paulo escreve. Mas escreve para o
contexto grego, apontando precisamente aquilo que
distingue o cristianismo. Por isso, quando, em
Gálatas
3, 28, diz que «…não há escravo nem livre, não há homem
nem mulher…», pretende precisamente apontar a igualdade
fundamental dos filhos de Deus, cuja relação só pode ser
uma relação de iguais e de seres livres.
Interessantemente, esse capítulo fala da lei como
“pedagogo”. E o pedagogo era, no mundo grego,
precisamente, o encarregado de «dominar» a criança, sem
lhe dar espaço de liberdade, aplicando assim o direito de
propriedade do pai. S. Paulo, ao mesmo tempo que se
distancia desta visão grega, distancia-se da sua
aplicação à lei judaica, se esta for entendida como
eliminadora da liberdade. Pelo Evangelho, em Jesus
Cristo, fomos libertos desse jugo, para assumirmos
compromisso livres, entre iguais, pois só assim estamos
libertos em Cristo.
Esse compromisso é apontado por S. Paulo em termos de
aliança, mas de uma aliança que abarca a integralidade do
ser humano. O exemplo dessa aliança é precisamente a
família humana, apresentada como tal em
Efésios
5, 21ss. Ao mesmo tempo, a aliança entre Cristo e a
Igreja, que permite falar desta como «Corpo de Cristo», é
o modelo de toda a família humana. Mais do que pura
aliança ou contrato entre dois humanos, a família resulta
de uma tal «fusão» entre dois humanos, homem e mulher,
que passam a ser um só, uma só «carne». Porque o seu
modelo o da própria incarnação de Deus em Jesus. Nesse
sentido, a relação entre eles é de amor pleno. «Quem ama
a sua mulher, ama-se a si mesmo; de facto, ninguém jamais
odiou o seu próprio corpo» (Efésios
5, 28). Mesmo a referência de que o «marido é a cabeça da
mulher» (Efésios
5, 23), para além de se enquadrar no esquema de vida da
época, essencialmente patriarcal, deve ser lida na
referência geral à relação ente Cristo e a Igreja. Cristo
é a cabeça da Igreja, dando-se completamente, até à
doação da própria vida. Assim o marido em relação à
esposa. Nesse sentido, ser «cabeça» nada tem de
dominador. Nem «obediência» pedida à esposa é sinónimo de
subordinação, já que é semelhante à da Igreja em relação
a Cristo, única fonte de verdadeira libertação. Ou seja,
o homem e a mulher só serão o que são, na sua diferença
própria, na medida em que forem para o outro e não para
si próprios.
Em conclusão, poderíamos dizer que o contributo da ideia
judaico-cristã de família centra as relações familiares
na igual dignidade e liberdade de todos os seus membros,
dignidade que os respeita como pessoas diferentes; e
centra essas relações em relações de aliança amorosa, de
tal modo que cada um se sinta parte integrante do outro.
Esta ideia de família irá ser apresentada, por S. Paulo,
como modelo de Igreja e, a partir daí, como modelo de
sociedade. A sociedade cristã – e cada comunidade
eclesial – seria uma grande família, assente na dignidade
e liberdade dos seus membros e na relação de aliança ou
responsabilização amorosa entre as pessoas diferentes,
sem anulação das respectivas diferenças e sem afirmação
individualística de cada uma.
Perante este projecto e o seu impacto sócio-cultural,
através da educação das gerações mais jovens para valores
que constituem o fundamento duradoiro de uma sociedade
com futuro, coloca-se-nos hoje um desafio fundamental. Se
abandonarmos, progressivamente, esta ideia de família e a
sua prática, onde conduziremos as nossas sociedades? Não
estarão à espreita, de modo mais ou menos encoberto,
novas formas de escravatura, para fazer regredir um
processo tão moroso e tão benéfico? Parece-me que, assim,
se entende melhor a «teimosia» da Igreja em defender a
família. Para bem da humanidade e não por fixação
ideológica ou por vontade de poder.
João
Manuel Duque é
professor da Faculdade de Teologia da UCP – Braga. É
casado e pai de três filhos
(joaoduque@mail.telepac.pt).
