DESENVOLVIMENTO DO ISLAMISMO NA EUROPA
... a Europa, de facto, está demasiado envelhecida e não tem já convicção suficiente para enfrentar uma «invasão» desse género. O caminho mais seguro e mais humano será, antes, o caminho do diálogo com as facções do islão que estão abertas a dialogar; e o caminho da elaboração de um islamismo europeu, o qual esteja marcado por uma visão do mundo que se foi tornando habitual na Europa que herdámos.
Por João Duque
Nos passados dias 27 e 28 de Abril reuniu-se, em Bordéus e a convite do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), um grupo de responsáveis da Igreja Católica pela relação com as comunidades islâmicas, com a presença de alguns especialistas europeus na matéria. Pretendeu-se fazer o ponto da situação da presença do Islamismo nos países europeus e do diálogo com os diversos interlocutores, assim como apontar caminhos de trabalho futuro, nesta área. Como secretário da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé e Ecumenismo, estive presente e não gostaria de deixar passar a oportunidade sem tecer algumas considerações sobre o que lá foi dito.
1. Antes de mais, convém ter noção de que a presença do islamismo é muito diversificada, no panorama dos países europeus. Representando, actualmente, cerca de 3% a 4% da população, distribui-se desde a situação maioritária (Turquia, Bósnia, Albânia), passando por uma forte presença, na Alemanha (3,5 milhões) e na França (5 milhões) ou uma presença média, como na Itália (1,3 milhões), Espanha (1,2 milhões) ou Inglaterra, até uma presença quantitativamente pouco significativa, como é o caso de Portugal. De um modo geral, podemos dizer que essa presença se organiza segundo três modalidades diferentes:
a) A mais característica é a que resultou e resulta da imigração, sobretudo a partir de países árabes. É claro que, neste contexto, há que registar uma diferença entre os diversos países, seja quanto à origem dos muçulmanos – no caso da Alemanha e Suíça, por exemplo, são sobretudo oriundos da Turquia, no caso da França e da Espanha, são oriundos do norte de África – seja quanto à época da imigração.
Relativamente a este segundo aspecto, o efeito sobre a situação actual é notório. Assim, no caso da França e da Alemanha, tal como de alguns países nórdicos, o surto migratório é mais antigo, havendo já uma geração jovem de muçulmanos nascidos nesses países e aí naturalizados, não podendo ser considerados, portanto, propriamente imigrantes. Nos casos de Itália e Espanha, por exemplo, o surto migratório deu-se, sobretudo, a partir da década de 70, com um crescimento nas últimas duas décadas, o que qualifica as comunidades muçulmanas como comunidades ainda fortemente marcadas pelo estatuto migratório.
b) Na Europa de Leste, há a considerar os casos em que, como resultado da histórica ocupação turca, as populações ainda são maioritariamente muçulmanas, embora não sejam países propriamente muçulmanos, isto é, em que se aplique a lei muçulmana. Nesses países, em que durante muito tempo os cristãos «compraram» a liberdade pagando uma taxa, agora vive-se numa situação de liberdade religiosa, que permite certa convivência pacífica e respeitadora, apesar de alguns movimentos muçulmanos defenderem o regresso à aplicação do direito islâmico. Há a considerar, neste grupo, o caso específico da própria Turquia, em que o cristianismo se encontra sub-representado e em situação algo difícil. Mas isso deve-se, nas palavras do seu representante, mais ao pretenso laicismo do Estado do que ao islamismo. É claro que, em muitas situações, a distinção entre esse laicismo e a afirmação clara do islamismo não é muito evidente. De qualquer modo, o diálogo e a convivência pacífica com os responsáveis muçulmanos é aí mais fácil do que com o Estado, que pretende impor o laicismo como uma espécie de «religião» acima das religiões.
c) Por último, há o caso, por exemplo, de Portugal, em que a comunidade islâmica, tendo sido em tempos uma comunidade migrante – sobretudo da Índia e do Paquistão, para Moçambique e Guiné – não pode já ser considerada como tal, a não ser numa minoria que chega hoje ao nosso país. Assim, os cerca de 40 mil muçulmanos que vivem em Portugal são quase todos portugueses de nascimento, apenas se distinguindo da maioria pela sua confissão religiosa, não propriamente por diferenças culturais significativas – aproximando-se, assim, do grupo dos migrantes mais antigos, que hoje já não manifestam diferenças culturais de peso, em relação aos europeus de sempre.
d) Por último, haveria que considerar o grupo dos europeus conversos ao Islamismo. Sendo embora um grupo quantitativamente menos representativo, exerce uma influência qualitativamente mais forte que muitos outros, como veremos mais adiante.
2. Esta questão da «identidade cultural» conduz-nos a um segundo aspecto, muito marcante na variedade da presença muçulmana na Europa: trata-se da relação mútua entre a Europa (cristianizada e secularizada) e o Islamismo (religioso e, em princípio, não secularizado).
A primeira direcção desta relação tem a ver com a influência da cultura europeia sobre os muçulmanos que estão nela perfeitamente integrados, sobretudo os mais jovens e, entre estes, sobretudo os que nasceram e cresceram já na Europa ocidental. Em muitos casos, esta influência é secularizante, no sentido pejorativo do termo: muitos jovens muçulmanos possuem uma relação muito débil com o seu islamismo, limitando-se a certas práticas rituais ou, em muitos casos, nem sequer a isso (veja-se o estudo italiano: A. Pacini e J. Césari, Giovani Musulmani in Europa, Torino 2005). Mesmo que essa atitude não seja ainda tão representativa no interior do islamismo europeu como é no interior do cristianismo, sobretudo nos países de migração mais antiga, como no caso da França, ela é já notória.
No grupo daqueles que não se afastou do islamismo por indiferença, há também alguma influência positiva da «secularização» europeia, na medida em que vai criando uma mentalidade de certa separação sadia entre religião e estado, possibilitando a criação de uma mentalidade de respeito pela liberdade religiosa e de possível convivência, numa sociedade em que vigora o pluralismo das opções religiosas. Nestes grupos, a vivência do islamismo torna-se, cada vez mais, uma questão pessoal – mesmo individual – segundo o modelo das ocidentais sociedades modernas individualistas. A sua presença pública debilita-se progressivamente, vindo mesmo a desaparecer – inclusivamente nas manifestações simbólicas, como no caso da roupa.
No sentido inverso da relação entre Europa e Islamismo, a presença de grupos muçulmanos, que claramente assumem uma intervenção e uma visibilidade pública, coloca em questão as ideologias secularistas, mesmo laicistas, que animaram muitos países europeus nos últimos séculos. O caso mais flagrante é o da França, ironicamente o berço dessas ideologias laicistas. No caso da Espanha, o avanço do laicismo está ainda a realizar-se, o que não permite reconhecer, de modo sadio e calmo, a possível razão que reside numa posição não secularista, como a do Islão. Mas, no caso da França, que já deixou passar tempo suficiente sobre o processo de secularização, o debate público da questão religiosa, sobretudo impulsionado pelo Islamismo, volta a ser significativo, mesmo do ponto de vista político. O que começa a questionar, fortemente, as bases de uma sociedade completamente laica. Um dos exemplos mais simbólicos é o facto de muitos muçulmanos preferirem colocar os seus filhos em escolas católicas, evocando, como razão, a sua preferência por escolas «onde Deus não esteja ausente». Isso levanta sérias questões a um sistema de ensino que pretenda, verdadeiramente, integrar todos os cidadãos, no respeito pela sua identidade (assunto que, a propósito, já se transferiu para a Sociologia de tradição laica, como no conhecido caso do livro de Alain Touraine, Iguais e diferentes).
Estes dois aspectos da relação mútua apontam para um nível que se orienta, sobretudo, para o futuro. A maioria dos delegados presentes acentuou, essencialmente, este ponto dos desafios futuros.
Por um lado, trata-se de esperar e ajudar na construção de um islamismo «europeu», que assuma, por um lado, os elementos positivos do processo de secularização e, no mesmo sentido, se aprofunde intelectualmente, introduzindo um elemento hermenêutico no interior do islamismo, que recupere certas tradições muçulmanas místicas, teológicas e políticas e que origine uma mentalidade menos literalista ou, por vezes, fundamentalista. Nesse sentido, será necessário colaborar com os grupos islâmicos interessados nesse movimento, evitando que o islão europeu se divida no grupo dos indiferentes (sem peso no seu interior) e o grupo dos radicais, que não assumem possibilidades de convivência com outras religiões.
Por outro lado, trata-se de estabelecer uma certa «aliança» com o islamismo, na crítica a uma sociedade anacrónica e ideologicamente secularista, que já não corresponde ao modelo contemporâneo de vida dos seus cidadãos. É claro que, nesta fase de transição, muitas confusões e equívocos são possíveis. Por isso é que é necessário trabalhar com afinco e com competência.
3. Nesse sentido, em muitos países a Igreja tem desenvolvido estudos especializados sobre o islamismo. Por um lado, em oferta directa, a partir das Faculdades de Teologia, sobretudo através de Institutos ou Centros de Estudos sobre as Religiões e Culturas, ou mesmo em cursos específicos sobre o Islamismo, como no caso da França, da Alemanha e da Suíça. Ao mesmo tempo, há a possibilidade de colaborar com especialistas das universidades públicas, sobretudo com aqueles que se dedicam aos estudos da Sociologia da Religião. Na França, por exemplo, publicam-se uma média de dois livros por semana sobre sociologia do Islamismo... Com esse tipo de publicações poderia fazer-se frente a um outro género, que está também a aumentar na Europa: a literatura apologética e conflituosa, que passa, muitas vezes, pelo insulto directo ao cristianismo...
O trabalho de formação intelectual, sendo sempre necessariamente um trabalho a longo prazo, é o mais eficaz, pois só ele pode alterar mentalidades e, nesse sentido, só ele pode conduzir o islamismo a um outro nível de presença, sem necessidade de falsear a sua identidade.
4. Mas não podemos esquecer que o grupo dos muçulmanos que trabalha o islamismo neste sentido, em ordem a uma mentalidade respeitadora e intelectualmente exigente, é um grupo minoritário na Europa. Nos últimos anos, tem aumentado sobretudo o número daqueles que se encaminha noutra direcção. Por um lado, como reacção ao indiferentismo crescente de certas camadas juvenis, por outro lado, devido aos movimentos mundiais de re-islamização, e ainda devido ao aumento dos conversos ao islamismo (que incluem alguns dos mais radicais e fundamentalistas), as posições têm aumentado em radicalismo. Mesmo o islamismo popular, que é o maioritário, sobretudo em certos bairros das grandes cidades, está fortemente influenciado por estas correntes de pendor essencialmente fundamentalista. Isso tem deixado os especialistas, e todos os que estão envolvidos no processo de diálogo com o islamismo, algo preocupados e algo cépticos em relação ao futuro próximo da presença do islão na Europa.
Estes movimentos encontram-se um pouco por todo o continente europeu, estabelecendo inclusivamente certas redes internacionais (como será o caso do movimento de origem turca, Milli Görüs). O caso da nossa vizinha Espanha é, talvez, para nós, o mais significativo. De facto, mesmo que a comunidade muçulmana em Portugal seja de um estilo e de uma proveniência muito diferentes, a comum pertença à Península Ibérica inclui-nos no processo, para já em curso no sul de Espanha, mas que pode vir a afectar-nos.
Trata-se do processo de ressurgimento e incentivo da mística do «Al-Andalus». De facto, tal como vem exaustivamente descrito numa notável obra recente do especialista espanhol José Luis Sánchez Nogales (El Islam en la España actual, BAC 2008), têm aumentado os grupos e associações muçulmanas que, em Espanha, se centram na ideia da recuperação da Península Ibérica para o Islamismo. Não se trata, de facto, de um mito elaborado por cabeças mais ou menos radicais ou conspiracionistas. Trata-se de uma realidade aberta, com programas claramente publicados (como no caso do livro de Shayj Abdalqadir As-Sufi, El retorno del califato, ou de associações como Yama’a Islámica Al Andalus, Liga Morisca – à qual pertenceu Roger Garaudy...). No dizer do referido especialista, “O islão está muito dividido, em Espanha. Mas não podemos esquecer que a «nostalgia do regresso» existe, mesmo no mais simples muçulmano. O eco dessa nostalgia escuta-se, por vezes: «Al Andalus voltará a ser muçulmano»”.
É claro que estas posições radicais, tendo embora aumentado nos últimos anos, não são a marca exclusiva do Islamismo na Europa. E não adianta caminhar para esta atitude de confronto – mesmo que não possamos esquecer, ingenuamente, que estas posições existem. Aliás, num caminho de confronto, não teremos, talvez, capacidade de resistir à força anímica de grupos que vão assumindo, aos poucos, os destinos do velho continente. É que a Europa, de facto, está demasiado envelhecida e não tem já convicção suficiente para enfrentar uma «invasão» desse género. O caminho mais seguro e mais humano será, antes, o caminho do diálogo com as facções do islão que estão abertas a dialogar; e o caminho da elaboração de um islamismo europeu, o qual esteja marcado por uma visão do mundo que se foi tornando habitual na Europa que herdámos. Mesmo que essa visão do mundo tenha raízes no judaísmo e no cristianismo, isso não impede que possa tornar-se fértil no islamismo de hoje. Até porque o próprio islamismo também nasceu do judaísmo e do cristianismo.
