NA PRAÇA PÚBLICA
por
Isaías Hipólito
e
Elias Couto
Rangel e a “renovação da Igreja”
Em entrevista recente ao jornal i online, Paulo Rangel,
conhecido cabeça de lista às Europeias, publicita a sua
posição “progressista” em matéria de “moral de costumes
da Igreja Católica, na não ordenação das mulheres, no não
casamento dos padres”, na “questão dos anticonceptivos”.
Posto que os seus mais directos concorrentes, bem como a
famigerada nova inquisição do terceiro milénio (ILGAs,
República e Laicidade, Bloco, JS? JSD? …) já terão
registado verbete competente sobre o pensamento desta
jovem figura pública em matéria fracturante, sobram ao
eleitor católico estas duas perguntas, das quais haveria
de ser deduzido um sentido para o voto dos católicos:
1. Que vantagem estratégica vislumbra Paulo Rangel – seja
na sua condição de candidato ao PE, seja na de católico
convicto – para a sua candidatura, e para a sua Igreja
Católica, ao vir pronunciar-se sobre matéria do foro
subsidiário de uma confissão religiosa nos termos com que
se pronunciou, justamente numa ocasião tão perigosamente
ruidosa como é a da campanha?
2. Acaso tem Paulo Rangel planos para usar a sua condição
– de figura pública com responsabilidades de
representação do seu eleitorado nos mais altos
fora –
em ordem a catalisar a “grande renovação na Igreja” que,
na mesma entrevista, reivindica?
Cumpre reconhecer que assiste ao católico Paulo Rangel
algum direito de, em privado, reflectir criticamente
sobre as posições do Magistério. Mais do que um direito,
terá até disso dever, caso alguma ilustração teológica e
compromisso eclesial no candidato existam – ignoramos o
seu curriculum pessoal nestes pontos; Rangel, docente na
Universidade Católica (!), refere que lê sobre São Paulo,
só que fica-se sem saber o quê - será Frei Bento
Domingues? Anselmo Borges?... Ou serão autores com
pensamento Paulino, como: J. Gnilka, Murphy-O-Connor,
Ratzinger, D. Manuel Clemente, seu Bispo, …?)
O que naquela entrevista profundamente decepciona este
membro do Corpo de Cristo é mais um exercício fácil de
enxovalho à Igreja a que, em coro com vozes dissonantes
como as de José Manuel Pureza e as de quejandos
“católicos desiludidos da vida”, também este candidato –
comprovadamente brilhante como tribuno em tantas ocasiões
desta tão penosa legislatura para os católicos – parece
ter pateticamente sucumbido diante de um microfone.
II – Bispos, católicos e política
Tendo como referência os três actos eleitorais a
realizar, este ano, entre nós, a Conferência Episcopal
Portuguesa tornou pública uma Nota, assinalando a
importância de os cidadãos participarem nas eleições e de
os partidos políticos se apresentarem com programas e
candidatos sérios. Trata-se de um documento que cai
dentro do expectável, tendo em conta a tradição eclesial,
entre nós, de tratar os temas políticos com “pinças”. Faz
referência à política como “arte nobre”, ao “dever de
votar” dos cidadãos, e em particular dos cristãos, à
pessoa humana como “critério fundamental” da acção
política, aos valores que se espera os políticos
promovam...
Menos comum é os Bispos dedicarem um parágrafo da sua
Nota Pastoral a lembrar explicitamente aos católicos
algumas exigências, na hora de votar: «O eleitor cristão
não pode trair a sua consciência no acto de votar. Os
valores morais radicados na fé não podem separar-se da
vida familiar, social e política, mas devem encarnar-se
em todas as dimensões da vida humana. As opções políticas
dos católicos devem ser tomadas de harmonia com os
valores do Evangelho, sendo coerentes com a sua fé vivida
na comunidade da Igreja, tanto quando elegem como quando
são eleitos».
Era possível, no entanto, ir mais longe, tendo em conta
temas não negociáveis para a Igreja: a defesa da vida
humana desde a concepção à morte natural – e assim, os
católicos não podem, em consciência, votar em partidos e
políticos que defendem e promovem o aborto, a eutanásia,
a experimentação em embriões...; a família, fundada no
casamento entre um homem e uma mulher – e, logo, os
católicos não podem, em consciência, votar em partidos ou
políticos que defendem e prometem promover o “casamento”
de pessoas do mesmo sexo como modelo alternativo de
“família”; a liberdade religiosa – e ficam excluídos
partidos e políticos que, de forma encapotada ou às
claras, procuram limitar a expressão dessa liberdade...
Sendo a política, como reconhecem os Bispos, “a arte do
possível”, não é de esperar que os católicos encontrem
facilmente políticos e partidos nos quais se reconheçam
plenamente. Não é menos certo, porém, que é fácil aos
católicos identificar partidos e políticos nos quais não
se podem reconhecer de modo nenhum. E a estes devem, em
consciência e no exercício da “arte do possível”, recusar
o seu voto – sob pena de virem a ser confrontados com
políticas e leis totalmente estranhas ao seu modo de
vida.
Não vale a pena cultivar ilusões. Os políticos só
entendem uma linguagem: o poder. Ora o poder dos
cidadãos, em democracia, é, em primeiro lugar, o voto e,
com ele, o direito de despedir quem governa e não serve.
Os católicos não podem ter medo de usar o seu voto para
despedir aqueles que os governam e não servem. Precisamos
de assumir, com clareza, que há opções culturais e
civilizacionais para nós irrenunciáveis – e precisamos de
usar o nosso voto para promover essas opções. Precisamos
de assumir que há partidos e políticos que, mercê das
suas opções e propostas de sociedade, nunca poderão ter o
nosso voto. E precisamos de perder o medo de dizer
publicamente, caso a caso, que políticos e políticas se
encontram nessa situação.
Infelizmente, nem sempre isso acontece. Os nossos Bispos,
frequentemente, ocupam-se com discursos mais ou menos
“redondos” que servem para tudo e, logo, para coisa
nenhuma – a Nota Pastoral acima citada é, a este
propósito, uma agradável surpresa, nalguns dos seus
parágrafos. Os sacerdotes, em geral, ou não falam destes
temas ou fazem-no da forma menos eficaz – e, em alguns
casos, defendem publicamente doutrinas contrárias ao
Magistério e à Tradição eclesial. E os leigos católicos,
em grande número, alheiam-se da vida pública – deixando a
outros, com modos de vida diferentes, o poder de,
sozinhos, escolherem os governantes e as políticas a
seguir; ou, pior ainda, caucionam com o seu voto partidos
e políticos totalmente opostos aos ensinamentos da Igreja
e, não raro, claramente apostados em eliminar qualquer
presença da Igreja e dos católicos na vida pública.
Os próximos actos eleitorais serão significativos, a
começar pelas eleições para o Parlamento Europeu. Este,
em vez de ser a expressão máxima da democracia na Europa,
tornou-se um foco de irradiação de tudo quanto atenta
contra a identidade europeia, um lugar onde ganham raízes
todos os progressismos e laicismos fundamentalistas e um
espaço de debate e decisão cada vez mais virulentamente
anti-cristão. Votar nestas eleições e eleger políticos
capazes de contrariar esta tendência é, por isso,
decisivo, também para os católicos. E, apesar disso,
quantos se darão ao trabalho de votar, elegendo políticos
com programas verdadeiramente europeus, ou seja,
respeitadores dos povos e das tradições que constituem as
raízes mais fundas deste continente?
Como
escolher? Atente-se nas palavras do Papa Bento XVI, em
2006, a um grupo de parlamentares europeus, membros do
Partido Popular Europeu:
«... o interesse principal das suas intervenções [da
Igreja Católica] na vida pública centra-se na protecção e
promoção da dignidade da pessoa, e por isso presta
particular atenção aos
princípios que não são negociáveis.
Entre estes, hoje emergem claramente os seguintes:
– protecção da vida em todas as suas fases, desde o
primeiro momento de sua concepção até sua morte natural;
– reconhecimento e promoção da estrutura natural da
família, como uma união entre um homem e uma mulher
baseada no matrimónio, e sua defesa ante os intentos de
fazer que seja juridicamente equivalente a formas
radicalmente diferentes de união que na realidade a ferem
e contribuem para a sua desestabilização, obscurecendo o
seu carácter particular e o seu papel social
insubstituível;
– a protecção do direito dos pais a educar seus filhos.
Estes
princípios não são verdades de fé, ainda que fiquem
iluminados e confirmados pela fé; estão inscritos na
natureza humana, e, portanto, são comuns a toda a
humanidade. A acção da Igreja ao promovê-los não é,
portanto, de carácter confessional, mas dirige-se a todas
as pessoas, independentemente de sua filiação religiosa».
Com estes critérios, e face aos candidatos e partidos em
presença, não será difícil aos católicos, cultivando a
“arte do possível”, votar em consciência e de acordo com
os ensinamentos da Igreja nas eleições europeias do
próximo dia 7 de Junho.
II – Parlamentos “belgas”
Tal
como se previa no apontamento do mês passado, a Bélgica
não é o único país desta Europa narcisista e ensandecida
a ter um Parlamento “belga”. Ciente dos seus pergaminhos
“progres”, a Mesa do Congresso dos Deputados espanhóis
aprovou, para debate parlamentar, uma moção “não de lei”
que condena as declarações do Papa Bento XVI sobre o
combate à SIDA e o uso do preservativo, quando da sua
recente viagem a África. Não vou repetir o que escrevi a
propósito do “episódio” belga. Acrescento, apenas, que
estas atitudes constituem um atentado inadmissível à
laicidade dos Estados e à separação entre Igreja e
Estado. Constituem, também, um perigoso precedente em
relação à liberdade de expressão pública de convicções
éticas, morais e religiosas – pois são os parlamentos,
ditos garantes da liberdade e da democracia, a
pronunciarem-se sobre o que é legítimo ou não dizer-se,
desde um ponto de vista ético e religioso. Não me restam
dúvidas sobre o carácter deste laicismo agressivo e
intolerante, activo um pouco por todo o lado, nos países
Ocidentais – é, actualmente e entre nós, o maior inimigo
da liberdade de consciência e expressão, decidido a impor
à sociedade uma ética laica e ateia, e empenhado em
eliminar qualquer sinal de contradição, individual e
colectivo. É por isso que, ao contrário dos bispos da
Bélgica, não tenho respeito nenhum por estes censores
encartados e pretensos árbitros das consciências
travestidos de parlamentares “progres”.