NA PRAÇA PÚBLICA
por
Elias Couto
Pedofilia de alguns clérigos e consequências para a
Igreja
1. Declaração
de interesse, para
que não haja equívocos. A pedofilia activa (ou seja, o
abuso de crianças com fins sexuais) é moralmente
repugnante, eticamente indefensável e, entre nós, um
crime, à luz das leis civis. Para quem olha a vida a
partir da relação com o Deus revelado em Jesus Cristo, a
pedofilia é, ainda e sobretudo, um pecado particularmente
grave, incluído naquela dura maldição evangélica sobre o
escândalo dos mais pequeninos: “Quem escandalizar um
destes pequeninos, que crêem em Mim, melhor lhe fora que
lhe pendurassem ao pescoço a mó de um moinho e que o
lançassem ao fundo do mar” (Mateus
18,
6). Quando praticada por cristãos, mais ainda por
presbíteros ou pastores de qualquer Igreja cristã, a
pedofilia não pode deixar de ser vista, para além de
outras considerações, como uma manifestação do maligno,
sempre em acção para destruir a Igreja de Cristo – acção
tanto mais eficaz quanto mais servidores encontra entre
os membros da mesma Igreja.
2.
Nos
últimos anos, escândalos sucessivos têm trazido à luz
comportamentos pedófilos por parte de alguns sacerdotes
da Igreja Católica. Não me detenho sobre o mal causado às
vítimas de tais comportamentos – em muitos casos,
irreparável –, pois trata-se de vivências pessoais sobre
as quais não adianta qualquer especulação. Também não me
detenho sobre os casos de acusações falsas, com
consequências indizíveis na vida dos acusados. Olho
sobretudo para os estragos, a ruína que esta minoria tem
provocado na Igreja. E olho, também, para uma constante
que vai emergindo destes escândalos: o modo como os
bispos das Igrejas locais reagiram, dando cobertura aos
sacerdotes implicados, tentando encobrir as situações,
mudando os referidos sacerdotes de local de trabalho,
como se tal fosse suficiente para resolver a situação.
Como diz o profeta: “as sentinelas são cegas, nada
percebem; todas elas são como cães mudos, incapazes de
latir; vivem a resfolegar deitados, gostam de dormir”
(Isaías
56,
10). Tais bispos revelaram-se, com frequência, mais
preocupados em preservar a instituição Igreja do que em
cuidar dos membros mais fracos dos seus rebanhos, dos
pequeninos confiados à sua guarda. No fim, nem salvaram a
face da Igreja, antes colaboraram na sua ruína, nem
cumpriram o dever primeiro de pastores a quem foi
confiado o rebanho. Portaram-se como “cães mudos” perante
os lobos – e os lobos, tinham sido eles mesmos a
colocá-los no meio do rebanho.
3.
Algumas observações finais. A maioria absoluta dos
sacerdotes católicos são homens de extrema dedicação à
causa do Evangelho e prestam um serviço inestimável à
Igreja, à sociedade e aos seus irmãos, sobretudo os mais
pobres e marginalizados. Não merecem, de todo, o labéu
que, socialmente, lhes pretendem colar por causa de
alguns. Sendo, porém, a Igreja constituída por pecadores,
há-de haver sempre seus filhos e filhas que são motivo de
escândalo para a mesma Igreja e para o mundo. Bento XVI
tem demonstrado particular firmeza na condenação da
pedofilia por parte de clérigos e na exigência face aos
Bispos, para que cumpram rigorosamente o seu dever de
pastores. É mais uma demonstração de que a Igreja, nem
sempre a tempo, é certo, procura combater os males de que
enferma. O mesmo já não se pode dizer da hipocrisia
socialmente reinante, a qual, enquanto faz notícias de
primeira página com o escândalo de alguns clérigos,
promove no seu seio todas as aberrações éticas e morais e
não dá sinais de repensar o caminho. Depois, como é
evidente, precisa de “bodes expiatórios” (René
Girard dixit)
que a ajudem a lidar com a sua má consciência – e a
Igreja Católica é, habitualmente, o mais fácil, porque
visível e sempre à mão.
Bento
XVI, pedófilos e disparates jornalísticos
1. Em
discurso recente ao Pontifício Conselho para a Família, o
Papa Bento XVI reafirmou a gravidade dos comportamentos
que atentam contra a dignidade das crianças: “Ao longo
dos séculos, a Igreja, a exemplo de Cristo, promoveu a
tutela da dignidade e dos direitos dos menores e
ocupou-se deles de muitos modos. Infelizmente, em vários
casos, alguns dos seus membros, agindo em contraste com
este empenho, violaram esses direitos: um comportamento
que a Igreja não deixa e não deixará de deplorar e
condenar. A ternura e o ensinamento de Jesus, que
considerou as crianças um modelo que se deve imitar para
entrar no reino de Deus (cf. Mt
18,
1-6; 19, 13-14), constituíram sempre um apelo urgente a
nutrir um respeito profundo e atenção cuidadosa por elas.
As palavras duras de Jesus contra quem escandaliza um
desses pequeninos (cf. Mc
9, 42)
empenham todos a nunca baixar o nível desse respeito e
amor”. Esta afirmação foi naturalmente entendida como uma
referência aos comportamentos pedófilos de alguns
sacerdotes católicos, particularmente falados, nos
últimos, tempos, devido ao que aconteceu na Irlanda.

3. O resultado não é a imagem do Papa como alguém que procura educar e alertar para o necessário respeito pela dignidade das crianças. Antes, e de novo, a imagem do Papa fundamentalista, capaz de dizer as maiores barbaridades. Com exemplos destes, não vale a pena esperar nada de bom para o futuro.