Cristo e a Cidade
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Metamorfoses do sagrado e «Música Sacra» cristã (II)


O sagrado e o profano, numa relação mais estreita do que habitualmente é assumida. A sacralização de realidades que nada acrescentam à realização da pessoa, antes a escravizam e diluem: a moda, o sistema mediático e os seus rituais. A música sacra, elemento central do sagrado cristão, libertadora da pessoa e definidora de um modo de ser comunidade cristã que celebra a sua fé.


Por João Duque

2. Metamorfoses do sagrado

Para ser sintético e porque apenas pretendo esboçar os caminhos de um possível estudo de aprofundamento e reflexão, que me parece urgente, limitar-me-ei a algumas indicações sobre predominantes formas actuais do sagrado ou da sua possível perversão – ou melhor, formas que podem conduzir a uma relação destrutora com o sagrado.

1. Em primeiro lugar, poderemos considerar o «sagrado mediático». Trata-se de uma metamorfose que coloca o absoluto da nossa orientação de sentido no mundo construído virtual-mediaticamente, no interior de um processo de consumo, em que se permutam objectos com ideias e identidades. Trata-se, no fim de contas, de uma versão do sagrado que sacraliza os sistemas (neste caso, o sistema mediático, como sistema de consumo), tornando as pessoas meros elementos que, fascinada e tremendamente, são sugados e devorados pelo fogo de um sagrado totalizante. O ser humano, colocando desse modo a esperança da salvação nesse sagrado sistémico, é anulado como primordial mediação do sagrado, estando condenado simplesmente à perdição no sistema. O sagrado manifesta, aí – simulando a sua face criadora e salvadora – a sua vertente destrutora. E o indivíduo, sem recurso a mediações, é simplesmente afogado num oceano sem fundo nem margens.
Os sistema mediático-consumista articula-se, também, em determinadas formas de arte – ou pseudo-arte – em que a música, juntamente com a imagem, adquirem saliente importância. E, no mundo dos significados assim criados, instaura-se uma nova forma de «música sacra», agora ao serviço de um sagrado específico, precisamente o da sacralização dos sistemas em causa. E esses sistemas desenvolvem as suas liturgias, nas quais se enquadra uma forma específica de música, como sagrado adjectivo, ao serviço de um sagrado maior, precisamente o do respectivo sistema.
É precisamente neste ponto que se levanta a questão fundamental: ao serviço de que sagrado nos encontramos, quando praticamos música, ou contemplamos uma imagem? E, visto pelo outro lado, consoante o sagrado que adoramos, quais as suas mediações fundamentais? Será que todas as mediações são igualmente válidas para todo o tipo de sagrado? Ou não estaremos, ao utilizar as mediações de um sagrado, para nos relacionarmos com outro, a perverter essa mesma relação? Qualquer uso de música no contexto do sagrado cristão – sobretudo no contexto da celebração desse sagrado – deveria colocar-se sempre a questão fundamental: em que contexto sacralizante nos inserimos, ao praticarmos determinados estilos musicais? E se esse estilo for, precisamente, o mediático-consumista – teremos consciência das profundas consequências desse uso?

2. Disse, acima, que o sagrado sistémico devora o indivíduo, que perante ele se encontra sem mediações. Ora, essa situação conduz-nos a um outro aspecto da metamorfose contemporânea do sagrado: trata-se da sacralização do
self ou da auto-realização individual, como valor absoluto da existência. Toda a realidade envolvente, inclusive os outros seres humanos, são colocados ao serviço dessa auto-realização, ganhando aí o seu sentido. O sujeito individual, na pretensa auto-fabricação da sua identidade e da sua felicidade, torna-se então a medida de todas as coisas, substituindo, pela qualificação sacralizante de si, o próprio sagrado substantivo.
As artes passam, então, a ser avaliadas em função desse uso. Mas como o critério dessa avaliação é sempre e apenas cada sujeito individual, no seu gosto subjectivo determinado por um desejo de horizontes individualistas, então a arte não passará de uma projecção fruitiva desse desejo. A música, especialmente, é reduzida aos limites da simples fruição subjectiva, como reflexo daquilo que cada sujeito já espera e deseja. O imprevisto, a interpelação exterior, a surpresa de uma alteridade não esperada (como a da inovação semântica introduzida por uma verdadeira obra de arte) – tudo isso é banido do mundo concentrado no
self como sagrado, cuja ditadura tudo determina.
Em realidade, apercebemo-nos, paradoxalmente, que os desejos individuais coincidem quase todos num gosto massificado, cujo ideal de felicidade se torna monótono e monolítico, profundamente banalizado e reduzido à superfície do efeito fácil. Por isso, as duas metamorfoses do sagrado contemporâneo, no que à arte diz respeito – e à música em particular – acabam por coincidir, coincidindo a sacralização consumista e mediática com a sacralização dos desejos individuais, através de um mecanismo publicitário complexo. A perdição no sistema e pelo sistema, acaba por constituir apenas uma face da mesma moeda, cujo outro lado é, precisamente, a perdição no
self, já que um ser humano centrado absolutamente em si mesmo está condenado à destruição – pela infertilidade da auto-fixação e pela vulnerabilidade daí resultante, que coloca os indivíduos à disposição de sagrados manipuladores e escravizantes, nunca libertadores da pessoa.

3. A «música sacra», pelo menos no contexto do sagrado bíblico, de que participa o sagrado cristão e que constituiu a fonte do seu desenvolvimento ao longo da história ocidental, poderá ser vista como uma espécie de ruptura salvífica, relativamente ao sagrado mediático e ao sagrado individualista. Através do seu estatuto de mediação da transcendência, ela surge como um excesso, instaurado numa relação multifacetada: relação ao Deus que nos precede e, por isso, excede; relação ao excesso de uma tradição, na qual sempre nos inserimos e que constitui marca da nossa identidade, mesmo antes de qualquer afirmação do
self; relação a uma comunidade, no interior da qual adquire sentido o nosso ser, como pessoa individual. Aliás, a relação à comunidade é, no contexto da música sacra cristã, especialmente importante, entre outros aspectos, pelo facto de que, a música sacra cristã, enquanto tal, não se produz objectivamente, mas recebe-se. Ou seja, em primeiro lugar, é a recepção de determinadas obras musicais pela comunidade cristã, assumindo-as como sacras, que lhes explicita a sua dimensão «sagrada». Nesse sentido, não é o compositor – muito menos o executante e o seu gosto individual – que, directamente, adjectiva as suas obras de sacras, mas a própria comunidade viva. O compositor, por seu turno, procura corresponder a essa recepção, ao longo da história, recebendo ele mesmo, de modo criativo, certas características da música recebida e, por isso, compreendida como sacra.
Essa tripla relação – a Deus transcendente, à tradição que precede e à comunidade que recebe – concretamente vivida na relação a determinados trechos musicais, determina a identidade desses trechos, de tal modo que a ruptura de excesso introduzida pela música sacra, como ruptura salvífica realizada pelo próprio sagrado originário, se transforma numa espécie de critério da sua qualificação como música sacra, no interior do sagrado cristão. Uma música que não provoque, no sujeito, este triplo êxodo de si mesmo, em direcção a uma alteridade fundamental, dificilmente pode ser assumida como sacra, pelo menos no sentido do sagrado bíblico-cristão. E se não o é, como usá-la liturgicamente, sem o risco de pervertermos a nossa relação ao sagrado? Estaremos, assim, na transição da música sacra para a música especificamente litúrgica.
De facto, o «culto» ou a celebração litúrgica é sempre o espaço-tempo em que acontece, renovadamente, essa ruptura salvífica, enquanto dom excessivo. Por isso, os seus elementos constituintes, como elementos de uma acção celebrativa, deverão ser mediação desse acontecer, de forma real-simbólica, isto é, de forma significante e eficaz. Mas, se apenas nos reconduzem a nós mesmos e aos mecanismos sistémicos que nos dominam, como poderão significar e realizar, de forma performativa, a salvação que esperamos e que nos transcende?
Esta problemática deveria, a meu ver, constituir o pressuposto, a partir do qual poderá iniciar-se o debate sobre o significado da música sacra e sobre os modos da sua realização, no interior de cada tradição cultural.
Para concluir, poderíamos afirmar que toda a música sacra cristã – incluindo a música litúrgica – deve ser, antes de mais,
boa música, sendo arte que inova o sentido e, desse modo, surpreende e excede as expectativas meramente subjectivas ou massificadas; e deve ser, também, relacionada com a sua própria tradição, pois é nessa tradição que a música sacra cristã se torna mediadora do sagrado cristão, sem o que nem teríamos noção do que fosse esse sagrado; e deve ser – sobretudo se litúrgica – orientada para o serviço da comunidade, essencialmente na celebração – não no sentido de que cada comunidade, como grupo, define a sua música, mas no sentido em que a verdadeira música sacra cristã serve a própria identidade cristã da comunidade, servindo a verdade da sua celebração.
Compreendida a música sacra nesse sentido, é um elemento central do sagrado cristão, como sagrado libertador da pessoa, em relação a todos os sagrados escravizantes. Do ponto de vista musical, a própria obra de arte é, assim, liberta de escravaturas menos dignas, como a dos média e do consumo, ou a dos gostos subjectivos – normalmente massificados. No serviço ao verdadeiro e único sagrado substantivo, a música é libertada para si mesma, porque chamada a ir além de si mesma.