METAMORFOSES DO E «MÚSICA SACRA» CRISTÃ
(Parte I)
O sagrado e o profano, numa relação mais estreita do que habitualmente é assumida. A sacralização de realidades que nada acrescentam à realização da pessoa, antes a escravizam e diluem: a moda, o sistema mediático e os seus rituais. A música sacra, elemento central do sagrado cristão, libertadora da pessoa e definidora de um modo de ser comunidade cristã que celebra a sua fé.
Por João Duque
Introdução
A expressão «Música Sacra» é, sem dúvida, uma expressão deveras ambígua. Não quer isso dizer que essa ambiguidade seja, à partida, apenas negativa. Parece-me, antes, tratar-se de uma ambiguidade potenciadora de significados. Isso pode ter efeitos claramente benéficos, mormente quando se trata de questões da arte.
De facto, se reduzíssemos a questão à identificação entre «música sacra» e música litúrgica – ou «música de Igreja» (Kirchenmusik), como preferem as línguas germânicas – poderíamos ter grande parte da questão resolvida, mesmo que sobrasse ainda muito por solucionar, sobretudo do ponto de vista pragmático. O mesmo se diga quanto ao alargamento, embora mais difuso, à questão da música religiosa, mesmo que aí aumentasse significativamente a ambiguidade. De facto, o que é música religiosa – a que possui um conteúdo específico relacionado com uma religião concreta? Ou terá toda a música, como tal, certo carácter religioso? Mas não implicaria isso uma espécie de sacralização da música, o que nos levaria a um conceito de música sacra sem limites? Nesse sentido, poderíamos mesmo dizer que a noção de «música sacra» será mais vasta do que a de música religiosa e que a de música litúrgica, o que nos colocaria em terreno de contornos pouco nítidos.
Ou então, noutra perspectiva quase inversa, a noção de «música sacra» seria até mais restrita do que a litúrgica e a religiosa. De facto, para determinada percepção técnica do conceito – embora sem consenso definitório – nem toda a música litúrgica (muito menos a religiosa) seria «sacra», na medida em que uma determinada tradição cultural, sobretudo no interior do Cristianismo, foi identificando a música sacra com determinadas formas e mesmo com determinados estilos que, não sendo de delimitação rigorosa, permitem fazer uma distinção suficientemente clara entre um cântico litúrgico em vernáculo – como um salmo responsorial – e música propriamente sacra, próxima à gregoriana ou à grande tradição polifónica, mesmo se em linguagem contemporânea. Admito, contudo, que este sentido restrito de «música sacra» não seja muito frequente, limitando-se a um círculo de especialistas, sobretudo cultores habituais do chamado “grande tesouro da música sacra”, com alguma dificuldade de aí incluir certos simplismos litúrgicos actuais.
Contudo, penso que o rico leque de significações escondidas na ambiguidade do termo em discussão – e cujo debate se pretende continuar, para além do muito já debatido, nesse ponto – poderá ser sobretudo fértil, se situarmos a questão ao nível de uma outra ambiguidade, ainda mais originária e não apenas semântica: trata-se da ambiguidade do próprio sagrado, de que a «música sacra» será apenas uma das manifestações ou realizações. Por isso, proponho uma abordagem à questão, concentrando-me especificamente neste âmbito. Para tal, proponho uma breve reflexão sobre dois aspectos: a ambiguidade do próprio conceito de sagrado, assim como da realidade a que se refere; e as metamorfoses das manifestações – ou pseudo-manifestações – do sagrado, na cultura contemporânea, com as repercussões que isso pode ter no mundo musical. A partir dessa reflexão, retirarei algumas conclusões para a questão da música sacra cristã, em geral, e para a música litúrgica, em particular.
1. Conceito(s) de sagrado
Relativamente ao conceito de sagrado, bastaria referir, para simplificar a questão, o facto de que, sobretudo na nossa língua (mas também em muitas outras), sagrado pode ser um substantivo e um adjectivo; para além disso, e mais do ponto de vista semântico, pode ser assumido como elemento ou realidade destruidora ou criadora.
1. Enquanto substantivo, o termo «sagrado» tem como referente um não-referente: significa, precisamente, aquela realidade inabarcável pelos nossos conceitos, mas da qual tudo provém e para a qual tudo se encaminha. Por definição, essa realidade é diferente do mundo, pois é sua origem. Ser diferente significa, neste caso, ser transcendente. A dimensão do sagrado – ou do místico, para falar com Wittgenstein – seria algo que se mostra, precisamente, no facto de haver realidade, mas que não pode ser dito na linguagem, de forma directa.
Por relação à transcendência do sagrado, o real originado por ele é, em sentido ontológico fundamental, profano, isto é, não se identifica com o sagrado originante. Esta distinção é que possibilita a superação de todos os paganismos, no sentido de uma secularização que estabelece, claramente, a distinção entre o tempo e a eternidade, entre o imanente e o transcendente. Esta fundamental profanidade de todo o real, pelo facto de só a origem ser sagrada ou santa, sendo uma das características da ontologia bíblica, não permite a aplicação do termo sagrado, enquanto substantivo, a nenhuma realidade imanente, seja ele do âmbito do utilitário quotidiano, seja do âmbito luxuoso das artes.
2. Mas, a questão não é assim tão simplista. Se o sagrado fosse apenas substantivo, não seria para nós sequer uma questão, pois nem dele ideia teríamos. Se podemos falar em sagrado como dimensão ou realidade inabarcável e inacessível, enquanto origem que nos precede, é porque na nossa realidade, que constitui objecto de experiência e de formulação linguística, há manifestações desse sagrado. Não são o sagrado, em si, mas são mediações suas, presenças reais dessa origem inominável.
Essas manifestações, enquanto realidades imanentes ao real em que existimos, são originariamente profanas, isto é, diferentes do sagrado substantivo. Mas são, por processos diversos, qualificadas ou adjectivadas de sagradas, devido à sua relação simbólico-mediadora com o sagrado originário. Nesse sentido é que nós usamos mais frequentemente o termo sagrado ou sacro, tal como na adjectivação da música como sacra.
Em primeiro lugar, convém pois salientar que a música sacra não é, em si, o próprio sagrado, pois isso significaria uma absolutização idolátrica de uma realidade imanente. O que terá acontecido, sobretudo, na avaliação da dimensão salvífica da arte, em geral, e da música, em particular, por parte da estética romântica e de certa modernidade (na música, um dos casos mais emblemáticos foi, sem dúvida, o de Richard Wagner). Mas poderíamos falar, também, sobre sacralizações contemporâneas da música, sobretudo nos grandes festivais de música rock, que animam os verões. Ora, a perspectiva de que a música não é em si sacra liberta a possibilidade de que toda a música o poderá vir a ser, em sentido adjectivo.
Mas, por outro lado e quando falamos do sagrado, não é menos importante o facto de que ao sagrado originário apenas o podemos experimentar indirectamente, através das suas mediações ou manifestações. Por isso, a adjectivação de realidades imanentes é absolutamente fundamental para a possível experiência do sagrado substantivo, como experiência de salvação e de sentido.
Ora, por se tratar de experiência de sentido, a adjectivação de realidades imanentes como sagradas, sendo relativa ao sagrado substantivo, não é aleatória nem total. De entre o conjunto de tudo o que constitui o real, são seleccionadas e qualificadas diversas realidades, que passam a constituir para nós manifestação do sagrado. O processo dessa selecção – que podemos denominar como transfiguração das realidades – é complexo e longo, constituindo a história de uma tradição e cultura. Por isso é que, no interior desse processo e dessa cultura, nem tudo é sagrado adjectivo, mas apenas aquilo que constitui, para os seus membros, manifestação e presença do sagrado substantivo fundamental.
Assim sendo, se a profanidade global de toda a realidade – na sua diferença em relação ao sagrado substantivo – permite, teoricamente, a sacralização adjectiva de tudo, o certo é que isso nunca acontece nem poderia acontecer, pois não permitiria distinguir nada como manifestação da origem. Assim, embora fundamentalmente toda a música seja neutra – porque não é o sagrado originário – e potencialmente toda seja sacra – pois pode tornar-se manifestação desse originário – o certo é que o processo histórico e cultural nunca permite que assim o seja, sendo as obras musicais compostas sempre no interior de um mundo de sentido, que as torna símbolos de significados vastíssimos. É nesse contexto que determinadas obras adquirem o estatuto de sacras – consoante a tradição em que se inserem e consoante o sagrado substantivo a que se referem. Ignorá-lo seria forçar a própria cultura, para já não falar na própria tradição religiosa. Mesmo a inovação contida em cada obra, nunca abandona totalmente o contexto – o solo da tradição – da sua qualificação significante ou simbólica.
3. Se a adjectivação de sagrado se dá, sempre, por referência ao sagrado originário – à dimensão fundamental de sentido de uma dada comunidade humana, ou mesmo de toda a humanidade – então a música sacra participa, ainda, da ambiguidade inerente ao próprio conceito de sagrado, como tal e independentemente de ser substantivo ou adjectivo.
Já Rudolf Otto se referia ao sagrado como tremendo e fascinante. Fascinante, porque tremendo, e tremendo, porque fascinante. Mas, para além disso, fascinante porque pode superar o tremendo da nossa condição – e tremendo porque pode anular completamente essa superação. Por isso, só por si e sem posterior qualificação, o sagrado é profundamente ambíguo, porque ambivalente: pode ser destrutor, até ao âmago do ser; e pode ser, precisamente, a origem desse mesmo ser. Tudo depende do modo de relacionamento que com ele possuímos.
De facto, a pretensão e o desafio de qualquer realidade sagrada – e, sobretudo, do sagrado substantivo – é, em relação aos humanos, absoluta – ou tudo ou nada. Esse seu carácter absoluto pode assumir, entre nós, dois aspectos: ou absolutizamos um sagrado abstracto, dissolvendo o nosso mundo, a nós mesmos e aos outros, nesse sagrado imediato, que queima como o fogo; ou absolutizamos a nossa realidade – seja a sociedade, um grupo, uma religião, um partido, uma cultura, uma nação, ou nós mesmos – sacralizando assim realidades imanentes, em si não sagradas, portanto. No fundo, o problema reside na pretensa relação imediata com o sagrado substantivo, seja por dissolução de nós nele mesmo, seja por dissolução dele mesmo no mundo da nossa imediatez.
Ora, a relação ao sagrado, como absoluto em si, não nos é possível directamente, sem que morramos – isto é, sem que deixemos de ser nós ou, em nome desse sagrado, eliminemos os outros, como acontece com os totalitarismos em nome de «deus»; mas, por outro lado, a sacralização de realidades imanentes – como foi o caso da polis, do imperium, da nação, da raça, da ciência ou da economia e mesmo da arte – não é menos perigosa e destrutora. Se, na primeira forma, o «sagrado» sacrificará os humanos ao absoluto, nesta forma os humanos são sacrificados uns aos outros ou a simples forças sociais ou cósmicas, elas mesmas absolutizadas como sagrado substantivo.
O «perigo» do sagrado é, nessa dupla face, um perigo constante em toda a relação que com ele se instaura, se não houver os devidos cuidados. Para evitar este perigo destrutor do «sagrado», é necessário estabelecer mediações, passagens, umbrais para o sagrado, que nos permitam experimentá-lo sem nos sacrificarmos a nós nem aos outros. É nesse contexto mediador – por adjectivação de realidades como sagradas – que se situa a música, assim como outras artes e outras realidades. Mas não se trata de mediações meramente extrínsecas, aleatórias ou mágicas. Todas essas realidades se tornam mediações do sagrado, devido à especial relação que possuem com o sagrado substantivo e devido ao significado que possuem para as comunidades, no centro das quais se encontra a pessoa humana, mediação primordial do sagrado originário, pelo menos segundo a visão bíblica do sagrado.
Ora é com base nesta relação fundamental com o sagrado originário e com a sua mediação primordial, que é a pessoa, que podemos esboçar uma criteriologia do sagrado, no contexto da cultura contemporânea, com a finalidade de analisar as metamorfoses a que este conceito foi sujeito e com a intenção de propor uma crítica dessas metamorfoses, com efeitos claros sobre a questão da «música sacra».
(Segunda parte no próximo mês)
