NA PRAÇA PÚBLICA
por
Elias Couto
A
Declaração de Manhattan
1. No dia 20 de Novembro de 2009, representantes de
várias Igrejas cristãs, reunidos em Nova Iorque,
adoptaram uma declaração, por meio da qual assumem o
compromisso de se oporem às políticas que atentam contra
os valores cristãos fundamentais. Esta Declaração
(consultável em
www.manhattandeclaration.org)
é o primeiro compromisso verdadeiramente ecuménico em
defesa dos valores inegociáveis que resultam da vivência
do Evangelho e da fidelidade à grande Ortodoxia cristã.
Foi assinada, inicialmente, por 219 líderes cristãos
(entre os quais 39 bispos católicos, com os arcebispos
Chaput, de Denver, e Dolan, de Nova Iorque, à cabeça).
Quando escrevo, regista mais de 398700 assinaturas e
continua a somar adesões.
2. A página da internet onde se dá a conhecer a
Declaração abre
com o seguinte texto:
“Os cristãos, sempre que viveram de acordo com os mais
elevados ideais da sua fé, defenderam os fracos e
vulneráveis e trabalharam incansavelmente para proteger e
reforçar as instituições fundamentais da sociedade civil,
a começar pela família.
Nós somos Ortodoxos, Católicos e Cristãos evangélicos que
se uniram, neste tempo, para reafirmar as verdades
fundamentais sobre a justiça e o bem comum e convocar os
nossos concidadãos, crentes e não crentes, a juntarem-se
a nós na sua defesa. Estas verdades são:
1. a santidade da vida humana
2. a dignidade do casamento como união conjugal entre
homem e mulher
3. os direitos da consciência e a liberdade religiosa.
Na medida em que estas verdades são fundamento da
dignidade humana e do bem estar da sociedade, elas são
invioláveis e não-negociáveis. Porque elas estão cada vez
mais debaixo de fogo por parte de forças poderosas na
nossa cultura, somos compelidos hoje a falar claramente
em sua defesa e a comprometermo-nos em honrá-las
plenamente, sejam quais forem as pressões exercidas sobre
nós e as nossas instituições para as abandonarmos ou
aceitarmos cedências em relação a elas. Assumimos este
compromisso não como membros de qualquer força política
mas como discípulos de Jesus Cristo, o Senhor crucificado
e ressuscitado, que é o Caminho, a Verdade e a Vida”.
3. É impressionante a clareza de propósitos dos
signatários desta declaração. É igualmente impressionante
ela ter visto a luz do dia durante o mandato de um
Presidente americano que se apresentou aos eleitores como
alguém chamado a unir e que, apesar disso, se transformou
na referência de todos quantos, em todo o mundo,
trabalham para destruir estas verdades e, com elas, os
fundamentos da própria cultura ocidental. O mais
impressionante, porém, é o facto de tantos líderes
religiosos, representando Igrejas cristãs tão diversas,
terem sido capazes de encontrar terreno comum em verdades
tão simples e, ao mesmo tempo, fundamentais. É um
exercício de verdadeiro ecumenismo ao nível que mais
importa: o da unidade prática, em defesa do essencial e
não negociável da mensagem evangélica.
4. Entre nós, infelizmente, ainda não chegamos a uma
coragem assim – nem a um ecumenismo semelhante. Haverá
razões para isso. Mas já vai sendo tempo de olharmos para
o presente – em vez de continuarmos a carpir os agravos,
reais ou fictícios, do passado – enfrentando com
determinação a tarefa de anunciar juntos Cristo e o seu
Evangelho, sobretudo quando isso implica opor-se
democraticamente aos poderes do momento. Não o fizemos
quando do referendo sobre o aborto; não o fizemos a
propósito do dito “casamento” dos homossexuais...
Seremos, alguma vez, capazes de o fazer?
“Casamento” de homossexuais e o futuro
1. A esquerda que, nestas matérias, nos desgoverna há
demasiado tempo, aprovou no Parlamento o “casamento”
entre homossexuais. Foi na sexta-feira, 8 de Janeiro
deste ano de 2010 – um dia para a história de Portugal,
no seu pior. Um a somar a outros, dos quais o mais
relevante é, sem dúvida, o dia 11 de Fevereiro de 2007,
quando uma pequena percentagem de portugueses que se
deram ao trabalho de ir votar aprovou por maioria a
legalização e liberalização do aborto a pedido. Este dia
assinala o nascimento de um país culturalmente estranho a
si e à sua história. Com ele, os ideólogos da “fractura”,
adeptos da engenharia social e do experimentalismo ético,
perceberam que os portugueses lhes tinham dado “via
verde” para todas as originalidades. E, sobretudo,
perceberam que os cristãos deste país tinham deixado de
ser uma força eleitoral a ter em conta, mesmo nas
questões mais directamente ligadas aos valores que era
suposto serem inegociáveis para eles – porque, em grande
parte, se alheiam, abstêm ou votam a favor da “fractura”.
O desplante com que, em poucas semanas, trataram a
questão do casamento de homossexuais é já uma
consequência. O mesmo desplante será, em breve, usado
para legalizar a adopção de crianças por homossexuais e a
eutanásia, entre várias outras causas “fracturantes” que
a seu tempo veremos surgir e com as quais, tal como
agora, nos prometerão o melhor dos futuros, erguendo
Portugal a novos patamares de “modernidade”.
2. Ao contrário de Nietzsche, que filosofava com um
martelo, mas tirava todas as consequências, estes adeptos
da “fractura” social navegam à vista. Embalam-se com
discursos inflamados sobre “modernidade” – sempre que
regridem mais um patamar civilizacional; “igualdade” –
sempre que, em nome daquela, anulam a diferença que dizem
defender; “liberdade” – sempre que promovem a vontade
individual como medida de todas as coisas; “direitos
humanos” – quando promovem a anulação do humano, reduzido
a pura massa biológica, animal entre animais sujeito
apenas ao desejo e ao instinto. Tentam, assim, arranjar
um substituto para aquilo que destroem, mas encontram-se
apenas com o individualismo egoísta, disfarçado em
palavras eloquentes repletas de vazio. É este o futuro
que os engenheiros das “fracturas” estão a criar – vazio,
desprovido de sentido, feito de interesses ocasionais, ao
sabor de maiorias negligentes e voláteis. Tal como
Nietzsche, usam o martelo para arrasar uma sociedade
cujas raízes desprezam; ao contrário de Nietzsche, porém,
recusam-se a assumir as consequências. Quando a realidade
lhes cair em cima, dificilmente a reconhecerão. Pior
ainda. Na maior parte dos casos, nem serão eles a sofrer
os resultados do vazio ético e moral em que tão
afincadamente vão mergulhando a sociedade – afinal, como
alguns dizem, no futuro estaremos todos mortos. Todos?
Não. Os nossos filhos hão-de sobreviver-nos. Oxalá não
venham a amaldiçoar-nos pelo vazio que lhes legámos.
Casamento
gay e
implicações nas relações Igreja-Estado
1. Há um aspecto relacionado com a legalização do
“casamento” de homossexuais que me parece evidente. As
coisas não ficarão por aqui. As Igrejas, e sobretudo a
Igreja Católica, vão ser o próximo alvo dos
lobby gay –
como, aliás, anunciou, na ocasião, um auto-denominado
Grupo de Católicos Homossexuais. Noutros países, já se
chegou ao ponto de pessoas ou instituições serem
processadas por recusarem ceder os seus espaços para os
ditos “casamentos”. Aqui, mais ano, menos ano, também
chegaremos lá. Se não fosse por outra razão, seria porque
os
lobby gay têm
como alvo preferido e particularmente odiado a Igreja
Católica – e não perderão uma oportunidade para fomentar,
por todos os meios ao seu dispor, a perseguição da mesma.
2. Um aspecto complicado de tudo isto prende-se com o
reconhecimento “automático” da validade civil do
sacramento do matrimónio. Compreende-se a importância
deste reconhecimento, estabelecido na Concordata entre
Portugal e Santa Sé, quando o Estado e a Igreja tinham do
casamento o mesmo entendimento essencial: a união entre
um homem e uma mulher, socialmente reconhecida e aceite,
tendo em vista a constituição de uma família, entre
outras coisas, capaz de gerar filhos – a esta dimensão a
Igreja acrescenta o aspecto sacramental, que não anula,
antes aprofunda aquela, anterior ao mesmo sacramento.
Ora, este entendimento comum deixou de existir, por
iniciativa do Estado. Não seria descabido, por isso,
repensar aquele reconhecimento “automático” dos efeitos
civis do matrimónio – naturalmente, revendo a Concordata,
no que a esta matéria diz respeito. Isso teria um efeito
pedagógico claro, não só nas relações entre a Igreja e o
Estado, mas também para os católicos – e para toda a
sociedade: o sacramento do matrimónio não é, de todo,
equiparável ao casamento civil; aos católicos, se
pretendem viver em paz com a sua consciência e de acordo
com a sua fé, basta-lhes a celebração do sacramento;
civilmente, podem viver conforme lhes parecer mais
adequado – em união de facto, casados ou nem uma coisa
nem outra. Além desta dimensão pedagógica, tal
“separação” acrescentaria uma protecção adicional contra
possíveis processos judiciais por recusa de celebrar
“casamentos” de homossexuais.
3. Esta reflexão, reconheço-o, implica variáveis que não
domino, não sendo especialista em Direito. Além disso,
traduzir-se-ia, se posta em prática, numa verdadeira
ruptura cultural de consequências impossíveis de prever.
Mas, quem sabe?, talvez seja necessário chegar aí. E o
melhor seria estar preparado.
Precisamos de um partido conservador?
1. Quando surgem no debate público as, assim definidas
pela esquerda, questões “fracturantes” – aborto,
eutanásia, experimentação com embriões humanos, divórcio
expresso, uniões de facto, “casamento” de homossexuais...
– partidos como o CDS ou o PSD quase sempre primam pela
ausência, pelas meias palavras envergonhadas ou pela
original “liberdade de voto” dos deputados – a expressão
mais extraordinário já ouvida em democracia. Afinal, das
duas uma: ou os deputados, em 99% dos casos, não votam
livremente, como verdadeiros deputados da nação e
representantes do povo que os elegeu; ou, quando algum
partido promete a “liberdade de voto” aos deputados, isso
significa apenas que, no tema em causa, o partido prefere
não se comprometer, por se tratar de assunto pouco
significativo relativamente à única coisa importante: a
luta pelo poder.
2.
Nesta matéria, o PSD é o exemplo acabado do mimetismo
político. Ainda não vimos um debate sobre valores
civilizacionais no qual este partido tome posição. Os
seus líderes, é certo, costumam afirmar a sua posição
“pessoal” – habitualmente, com uma série de “mas”; o
partido, porém, nunca afirma uma posição de princípio
sobre tais assuntos. Não se percebe se é por não ter
“doutrina” sobre o tema ou apenas por oportunismo e pelo
desejo de não desagradar a ninguém. Muito
apropriadamente, o PSD chama-lhe “questões de
consciência” – como se nas outras os deputados não
tivessem também de respeitar a sua consciência. O
resultado final é a irrelevância do PSD em questões que
configuram a vida em sociedade e definem uma civilização
– e a um partido irrelevante não se confia nada, menos
ainda o próprio voto.
3. Portugal precisa de alternativas ao esquerdismo
destruidor que varre a nossa sociedade e ocupa cada vez
mais as alavancas do poder (político, económico e
comunicacional). Uma alternativa articulada por gente
para quem “conservador” não seja um palavrão e “valores”
um anátema. Gente livre do fundamentalismo laicista,
capaz de perceber a sociedade no seu todo e de apostar
por modos de vida que não tenham como denominador comum a
engenharia social e a destruição sistemática de tudo
quanto tornou grande a civilização ocidental. Entre o que
precisamos e o que temos... fica a dúvida se alguma vez
teremos o que precisamos.