DEUS NA CIDADE
(Para os tempos longos da Humanidade - IV)
... esta possibilidade de ir além – sem com isso renunciarmos à razão – nem sequer nos é estranha, mais ainda, deveria ser para nós como o ar que respiramos. De facto, uma tal possibilidade encontra na Bíblia o seu terreno particular de expressão.
Por Elias Couto
Retomo a série de reflexões cujo título é uma afirmação de João Paulo II, a propósito do Jubileu do Ano 2000: “Estava perfeitamente convencido – e ainda o estou mais agora! – de trabalhar para os ‘tempos longos’ da humanidade” (Mane nobiscum Domine, 6), série que teve, até ao momento, três capítulos: “Para os tempos longos da humanidade” – Junho de 2008; “Cristofobia na Europa” – Julho de 2008; “Fé e transformação do Mundo” – Maio de 2009.
1. Haverá ainda lugar para o anúncio do Evangelho?
No século XX, a violência certeira do “se não há Deus, tudo é permitido”, de Dostoievsky, atingiu-nos em toda a sua crueza. São disso, exemplos paradigmáticos, o holocausto nazi e o gulag estalinista. Tratando-se de exemplos paradigmáticos, importa não omitir aquilo que neles os torna paradigma: a exterminação organizada, cientificamente programada, racionalmente executada. Não há, nestes casos, nenhum delírio de violência, nenhuma explosão de cólera popular, nenhuma epidemia de medos ancestrais e contagiosos, como aqueles que conduziram, em séculos passados, à “caça às bruxas” ou às perseguições aos judeus, acusados de envenenadores e causa da peste. No caso do gulag, e sobretudo do holocausto, o que se perfila é, simplesmente e metodicamente, a técnica e a racionalidade ao serviço do extermínio de grupos humanos inteiros.
Este paradigma encontra a sua expressão última e absoluta nos campos de extermínio nazis e no holocausto – a shoa é um absoluto de mal. Não o afirmo por qualquer simpatia desculpabilizante do marxismo, de que o leninismo e o estalinismo são filhos naturais – como aconteceu tantas vezes, e ainda acontece, em algumas elites europeias. Afirmo-o porque, realmente, o holocausto é da ordem do horror indizível: o extermínio de um povo, programado até ao pormenor mais ínfimo, com uma frieza sem precedentes, utilizando os meios técnicos mais avançados de então, procurando o mínimo de gastos e o máximo de eficiência – a “solução final”. E isto, sem nenhum motivo imediatamente perceptível: na situação em que se encontravam, não constituíam uma ameaça, nem militar nem económica (já haviam sido espoliados dos seus bens) – apenas porque haviam sido relegados para a categoria das não-pessoas... É da ordem do “mal absoluto”, porque é da ordem da recusa absoluta do outro na sua diferença, da absoluta ausência de ética – o mal levado à simplicidade mais linear, por isso, mais absoluta.
Estes paroxismos de mal lembram que a pretensão da “morte de Deus” não é sem consequências. A ela não pode deixar de se seguir, como muito claramente percebeu Nietzsche, a morte do homem, doravante entregue à vontade de poder, à tirania do desejo e, até, à hubrys da liberdade. Na cultura actual (refiro-me, como sempre, nestas reflexões, ao mundo ocidental), domina, em grande parte, esta hubrys, que prescinde de Deus, gerindo o quotidiano como se Ele não existisse. E o cristão, que continua a viver do Deus vivo, Deus de vivos, não pode deixar de se sentir interpelado. Terá Deus, finalmente, sido expulso do mundo? Terá o seu silêncio algum sentido? Terá lugar, ainda, o anúncio do Evangelho?
2. Deus escondido... “Quem és tu, para me interrogares?”
No Antigo Testamento, alguns dos momentos mais solenes da revelação de Deus revestem um claro aspecto de “não-desvelamento”: quando Abraão é convidado a deixar tudo e partir, Deus nada diz sobre Si mesmo nem sobre o destino da viagem – Deus diz “Deixa” e Abraão parte; quando Moisés, no episódio da sarça ardente, pede um nome, a resposta é em forma de promessa: “Eu sou Aquele que serei”, aquele que Me irei revelando na tua vida e na tua história; quando o mesmo Moisés, no Horeb, pede para ver o rosto de Deus, apenas lhe é permitido ver Deus pelas costas; quando Isaías se vê confrontado com a sua vocação e com a glória de Deus, apenas consegue balbuciar: “Vós sois, na verdade, um Deus escondido”; quando Job pede contas a Deus, a resposta é: “quem és tu, para me interrogares?”; e quando Jesus é interrogado sobre o seu messianismo, diante do Sinédrio, nada diz, mesmo perante os testemunhos falsos dos seus acusadores...
Deus não necessita de escravos e não deseja controlar os seus filhos. Ele marca o ritmo da história, misteriosamente, mas quem a escreve somos nós, não por virtude de algum “fado” ou “destino”, mas em virtude da nossa liberdade: somos senhores do nosso destino e o futuro não está escrito, aguarda as páginas que nós havemos de preencher. Podemos mesmo falar de uma ausência de Deus – desde que não tenhamos a pretensão de transformar essa ausência em indiferença ou ignorância. Esta ausência é da ordem do percebido – percebemos Deus como ausência, pois devemos viver o nosso quotidiano na liberdade, fazendo escolhas, tomando decisões, humanizando-nos. Essas escolhas, essas decisões, esse trabalho de humanização, porém, apenas são possíveis por participação no poder criador de Deus, e porque Deus lhes dá consistência – mesmo que não tomemos consciência disso.
Os grandes génios do cristianismo não esqueceram esta lição, mesmo aqueles que procuraram ir mais fundo na reflexão sobre Deus: lembro apenas Santo Agostinho (mais íntimo do que o meu próprio íntimo; quando julgas ter compreendido Deus, nada sabes sobre Ele), S. Tomás de Aquino, Nicolau de Cusa...
Nicolau de Cusa via com extrema clareza a impossibilidade de levar a cabo com êxito um discurso positivo sobre Deus, cuja absoluta transcendência não se deixa circunscrever nos limites apertados de nenhum discurso, filosófico, teológico ou científico: pelo contrário, é na transcendência divina que tais discursos se encontram e unificam — mas não se pense que Deus está nessa unificação; para usar a expressão de um filósofo actual (Emmanuel Lévinas), embora retirando-a do seu contexto, a unificação de que falava Nicolau de Cusa é, quando muito, o rasto de Deus... Não é por acaso que a sua principal obra filosófica se chama De docta ignorantia (Tratado sobre a ignorância sábia). Não é também por acaso que este cardeal, tendo vivido quando a Idade Média conhecia o ocaso e se erguiam no horizonte as novidades do Renascimento e dos tempos modernos, produz uma obra toda ela de fronteira, sem renunciar ao que a Tradição tinha de verdadeiramente válido, mas também sem recusar ver o mundo novo que se anunciava e começava já a fazer-se realidade. Também neste aspecto, vale a pena contactar com este pensador, nós que enfrentamos tempos não menos difíceis mas, por isso mesmo, igualmente aliciantes...
3. Enviados à cidade
Nós, cristãos, somos permanentemente desafiados a falar de Deus, a dizer coisas sobre Ele. Para sermos fiéis à nossa Tradição, não podemos cair no fideísmo (um acto de fé que recusa pensar) nem no racionalismo (uma razão que recusa deixar-se questionar do exterior de si mesma). O nosso “falar” de Deus, sempre necessário, não se esgota nem se pode confundir com um discurso que pretende “compreender” Deus. Isso não retira legitimidade ao falar d’Ele nem à necessidade de O pensar. E porquê? Porque, citando de novo Emmanuel Lévinas no título de uma das suas obras, “Deus vem à ideia”, isto é, o nome de Deus – o nome que está acima de todo o nome – impõe-se-nos: não é um produto nosso, impõe-se-nos – vem-nos de uma dimensão que nos é estranha e exterior, mas à qual é impossível escapar.
“Deus vem à ideia”, o nome de Deus introduz-se no nosso discurso, mesmo quando pretendemos negá-lo e, portanto, precisamos de tentar dizer o indizível – conscientes de que o nosso dito é sempre infiel Àquele que pretendemos dizer. Uma tal tentativa não poderá deixar de ser também filosófica – sob pena de não ser coisa nenhuma – mas, ao mesmo tempo, deverá percorrer outros caminhos que não os da filosofia segundo a qual aprendemos a pensar. E esta possibilidade de ir além – sem com isso renunciarmos à razão – nem sequer nos é estranha, mais ainda, deveria ser para nós como o ar que respiramos. De facto, uma tal possibilidade encontra na Bíblia o seu terreno particular de expressão.
Tomo o exemplo do livro de Jonas, uma das mais deliciosas narrativas da Bíblia. Neste livro bíblico, Nínive, capital da Assíria, representa a cidade má por excelência, porque inimiga do povo de Israel e, portanto, inimiga de Deus. Pois bem, é a esta cidade que Deus envia o profeta Jonas. Diante da ordem divina, o profeta, com medo, foge (cfr. Jonas 1, 1-3). Porquê arriscar a vida numa missão inútil? Nínive é lugar de pecado e terreno infértil, onde a palavra de Deus não poderá dar fruto e o perigo espreita os enviados do Altíssimo. A fuga de Jonas serve-lhe de pouco e ele acaba às portas da cidade – pois para Deus, até Nínive tem direito a escutar a sua voz, por meio do profeta! Sem alternativa, Jonas entra naquela «grande cidade aos olhos de Deus» e anuncia o castigo divino para dali a quarenta dias.
Enviados à «Cidade», nós, Igreja, podemos ser tentados a fugir, como Jonas, mas acabaremos também, como ele, às portas da mesma, para anunciar o Evangelho de Cristo. Como Jonas, devemos fazê-lo sem subterfúgios nem hesitações – «Completou-se o tempo, o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e acreditai na Boa Nova» (Marcos 1, 5). Teremos, certamente, de «atravessar a cidade, clamando», como Jonas. Só assim tornaremos visível e audível a Palavra de Deus – não tanto através dos templos, dos cartazes, das procissões… (embora tudo isso seja necessário, e hoje mais do que noutros tempos), mas sobretudo por meio do acolhimento do outro, em particular daqueles que estão nas margens da «Cidade» opulenta que todos nos afadigamos a construir. Será a nossa conversão eclesial ao próximo, ao jeito da parábola do Bom Samaritano (Lucas 10, 25-37), a dar a medida da nossa capacidade para tornar visível e audível o anúncio do Reino de Deus.
Jonas tem um sucesso inesperado, os habitantes de Nínive fazem penitência e Deus desiste do castigo prometido. Jonas irrita-se com Deus, por ter desmentido a sua pregação, e diz-Lho claramente. Com ironia infinita, o Eterno mostra-lhe quanto os seus caminhos de profeta estão longe dos caminhos de Deus. Todos nós, secretamente, temos um pouco deste Jonas ansioso por testemunhar o castigo divino aplicado à «Cidade» pecadora – e, não raro, achamos que Deus é demasiado indulgente com os pecadores e demasiado exigente connosco. Mas Deus é assim e só nos resta aprender com Ele o amor por todas as criaturas e a esperança de que «todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tim 2, 4). Assim desprendidos de nós e da crença na justiça da nossa causa, estaremos disponíveis para acolher a justiça de Deus, revelada em Jesus Cristo, que não veio «chamar os justos, mas os pecadores» (cfr. Lucas, 6, 32). A «Cidade» tem direito a esperar de nós nada menos do que isto. O que virá depois, já não nos diz respeito – é entre Deus e a «Cidade».
