NA PRAÇA PÚBLICA
por
Elias Couto
João
Paulo II e Pio XII proclamados
“veneráveis”
1. Alegra-me abrir esta crónica com um título assim.
Apesar de todas as tentativas para atrasar os processos
de beatificação, quer de João Paulo II, quer de Pio XII,
o decreto que os proclama “veneráveis” – primeiro passo
para a beatificação – foi firmado por Bento XVI, a 19 de
Dezembro.
2. Quanto a João Paulo II, aos gritos de “Santo, já” que
assinalaram a sua morte e funeral, seguiu-se a dispensa
dos cincos anos previstos na lei da Igreja para abrir o
processo de beatificação. Depois disso, porém, notícias
dispersas começaram a sugerir que certos grupos, dentro e
fora da Igreja, não esqueceram o seu pontificado nem o
quanto esse pontificado lhes custou, em perda de
protagonismo eclesial ou de influência e poder político.
Tudo ia no sentido de, lentamente, criar um ambiente que
pudesse ensombrar o pontificado, pôr em causa as decisões
do Pontífice, quando não a sua honorabilidade. A ideia
era, certamente, conseguir o arrastar do processo, para
que na memória dos fiéis se fosse esbatendo a profunda
marca deixada por João Paulo II,
o Grande.
3. Relativamente a Pio XII, a questão apresentava-se
ainda mais complicada, tendo em conta a “lenda negra” que
o associa ao holocausto nazi, pelo menos como
simpatizante do nazismo e como indiferente em relação à
sorte dos judeus durante a segunda guerra mundial. Esta
lenda não passa de uma criação dos serviços secretos dos
antigos regimes comunistas da Europa Leste, sob as ordens
do KGB. Estes usaram o conto d’O
Vigário (peça
teatral que, nos anos 60 do século XX, veio fazer do papa
um aliado de Hitler, ao arrepio de tudo quanto até então
tinha sido dito sobre ele) como arma de arremesso para
dar início a uma campanha de mentiras e meias verdades
que transformaria Pio XII numa espécie de Eichmenn de
batina, instalado no Vaticano. E, assim, o homem que
provavelmente mais fez para salvar os judeus da Europa
perseguidos pelos nazis viu-se relegado à categoria de
esbirro de Hitler; e um dos maiores Papas do século XX
foi transformado numa espécie de nódoa na história do
papado, de quem era preferível não falar. Esta campanha
acabou por ser “comprada” por grupos judeus influentes,
que não mais a largaram, mesmo depois de milhares de
documentos terem sido trazidos à luz do dia em abono da
acção do Papa – ao ponto de as mais respeitáveis
instituições judaicas, como o museu do Holocausto, em
Israel, insistirem em retratar Pio XII segundo o modelo
fabricado pelo
Vigário.
Hoje, são estes grupos, com o auxílio de gente da Igreja
apostada em fazer do pré-Vaticano II uma espécie de longa
noite católica, os maiores opositores da beatificação de
Pio XII. Que grupos judeus pouco crentes na bondade da
Igreja Católica ajam assim, compreende-se. Que encontrem
católicos dispostos a secundá-los, é uma pena, à luz
daquilo que a investigação histórica vai mostrando cada
vez com maior clareza: a grandeza do Papa Pio XII e a sua
imensa coragem, escondida pelo manto da discrição.
4. Felizmente, temos Bento XVI. No seu estilo suave e
firme, mostrou, mais uma vez, que não é Papa para agradar
à opinião pública, nem para fugir aos “escândalos”, mas
para fazer o mais correcto, no tempo oportuno. Oxalá este
decreto seja rapidamente seguido pela conclusão dos
processos de beatificação dos dois Papas, para que mais
possa brilhar a santidade da Igreja. Em tempos tão
conturbados, quando as forças do mal, empenhadas em
desferir golpes sempre mais demolidores contra a mesma
Igreja, encontram em tantos sacerdotes e até nalguns
bispos instrumentos perfeitamente adequados aos seus
desígnios, bem precisamos de ver erguerem-se estas
figuras de pastores fortes, destemidos e santos, como
exemplo de fidelidade a Cristo e ao seu Evangelho e de
amor à Igreja e à Humanidade.
Minaretes, um referendo... e a Europa
1. Já o tenho escrito nestas crónicas. Há um preconceito
generalizado no Ocidente, e sobretudo na Europa, segundo
o qual tudo quanto contribua para tornar invisíveis as
nossas raízes culturais cristãs se justifica em nome da
democracia, da laicidade, da igualdade e da diversidade
cultural e religiosa do mesmo Ocidente; ao contrário,
tudo quanto pareça, mesmo remotamente, adverso ao Islão
instalado no Ocidente é entendido como sinal de uma
qualquer fobia – fruto do preconceito cristão que se
pretende eliminar. Esta esquizofrenia cultural não se
encontra, de modo algum, nos países islâmicos em relação
ao Islão, mas já se tornou um modo de vida no Ocidente –
e é amplamente aproveitada por grande número de grupos
islâmicos radicalizados, que jogam sistematicamente a
carta da vitimização para exigir aquilo que, nos países
islâmicos, nem sequer chega a ser hipótese teórica para
as minorias religiosas.
2. Este preconceito funcionou, de novo, na maior parte
dos ditos e escritos a propósito do referendo suíço que
proibiu a edificação de minaretes nos locais de culto
islâmicos erigidos no país. As reacções mais comuns
trataram o facto como uma manifestação de populismo
antidemocrático e xenófobo e como um exemplo mais dos
perigos da democracia “directa” – por democracia directa
entende-se a “mania” dos suíços de fazerem referendos por
tudo e por nada, em vez de se limitarem a votar, de
quatro em quatro anos, nas elites “esclarecidas” que,
após as eleições, põem e dispõem nos parlamentos, sem
querem saber do povo para coisa nenhuma.
3. Proponho aos leitores irmos além desta mania elitista,
segundo a qual o “povo” é genialmente sábio sempre que
vota de acordo com o que eu penso (entenda-se este “eu”
no sentido das elites culturalmente dominantes); e
absurdamente estúpido sempre que vota ao contrário.
Talvez assim seja possível ler um pouco mais a fundo os
resultados do referendo suíço e perceber as raízes de um
voto tão ao arrepio das classes bem pensantes – senhoras,
segundo se julgam, do certo e do errado – às quais o
“povo” deveria seguir de olhos fechados, elites que a si
mesmas se atribuíram a missão de “libertar” esse mesmo
“povo” de preconceitos e conservadorismos inaceitáveis na
Europa civilizado do século XXI – noutros tempos, isto
seria tarefa de marxistas e do proletariado, mas
actualmente as coisas encontram-se bastante mais
confusas.
4. Os direitos humanos não são referendáveis – desde que
tenhamos uma noção restrita destes direitos, como
direitos naturais, e não uma abordagem positivista dos
mesmos, ao sabor de maiorias conjunturais, de modas
culturais ou de ideologias dominantes. A liberdade
religiosa – entendida como direito natural a praticar, em
privado e em público, a própria fé – não é referendável.
Neste sentido, creio acertado dizer que o referendo suíço
sobre a edificação de minaretes, entendidos estes como
símbolo religioso público, deveria ter sido evitado. Tal
não aconteceu – mas não vejo razões para tão grande
escarcéu por parte das elites bem pensantes da Europa,
sobretudo se pensarmos que as mesmas têm promovido
decisões parlamentares e judiciais e até referendos por
meio dos quais se legaliza a violação do direito humano à
vida – direito fundamental primário e origem de todos os
outros.
5. É sabido que o Islão não reconhece a separação entre
Estado e religião, tal como é praticada nas democracias
ocidentais. Para o Islão, Estado, sociedade, família,
indivíduos, todos se regem pelos mesmos princípios, cuja
origem é o Alcorão, pois nenhuma lei humana pode estar
acima da lei divina. Vivendo em países que têm outro
entendimento sobre o modo de organizar a vida em
sociedade, os muçulmanos adaptam-se apenas o suficiente
para viverem em paz, mas não renunciam à ideia de que,
mais tarde ou mais cedo, os não crentes deverão
converter-se ou, pelo menos, ser obrigados a viver
segundo as normas do Islão – seja na Europa, seja na
América, seja no Médio Oriente.
6. Os minaretes, neste contexto, desempenham também um
papel de afirmação política, socialmente visível – a
afirmação de um Islão à conquista dos não crentes, seja
por meios pacíficos, seja, para os mais fundamentalistas,
por meios violentos. É esta afirmação pública que começa
a assustar os povos de vários países europeus,
confrontados com um Islão inassimilável e empenhado em
alterar radicalmente, não apenas a paisagem religiosa,
mas também a paisagem política desses países. A velha
afirmação de que a Europa acaba onde terminam as torres
das catedrais e começam os minaretes já deixou de fazer
sentido e já nem sequer se sabe onde começa e acaba a
Europa – como fica bem claro, quer na subserviência da
intelectualidade europeia face ao Islão, quer na ideia
impossível de integrar a Turquia na União Europeia.
Percebe-se, por isso, o que levou, em 2008, o ditador
líbio Muammar Kadhafy a afirmar:
Temos 50 milhões de muçulmanos na Europa e há sinais de
que Deus proclamará o Islão na Europa sem armas nem
conquistas. Com o passar dos anos, 50 milhões de
muçulmanos a viver na Europa transformarão a Europa e
convertê-la-ão num continente islâmico. Deus permitiu que
uma nação islâmica, a Turquia, se junte agora à União
Europeia. Esses 50 milhões de muçulmanos tornar-se-ão,
assim, cem milhões de muçulmanos na Europa. A Bósnia é
membro da União Europeia [sic] e é um país islâmico: ou
melhor, pelo menos 50% da sua população é muçulmana. As
estatísticas mostram que há milhares de mesquitas na
Europa. Temos milhares de organizações e sociedades
islâmicas na Europa (...). Tenho aqui algumas
estatísticas. Hoje há na Europa 50 milhões de muçulmanos,
14.000 mesquitas e centros islâmicos e 1500 sociedades e
organizações islâmicas. Com o passar do tempo, estes
números continuarão a aumentar, além dos números
correspondentes à Bósnia, Turquia e Albânia. Assim, as
palavras que Deus proclamou no Corão estão a converter-se
em realidade: “Foi Ele quem mandou o seu Enviado com a
Orientação e com a religião verdadeira, para que
prevaleça sobre todas as outras religiões, apesar dos
pagãos” (citado
por Horácio Vásquez-Rial,
Islam 2010,
www.libertaddigital.com).
Alguns podem considerar Kadhafy um ditador para não ser
levado a sério, mas que ele acredita nisto, não há
dúvida. E não é, de longe, o único.
7. A questão levantada pelo referendo suíço não é,
portanto, apenas um problema de liberdade religiosa
desrespeitada pelo voto popular. Subjacente, está a
identidade da Europa, essa tão fugidia quanto desprezada
questão civilizacional colocada entre parêntesis pelas
elites europeias quando decidiram negar ao Cristianismo
qualquer papel na definição do presente e do futuro da
Europa e assacar-lhe a responsabilidade de todos os males
reais ou imaginários do seu passado. A pretensão de
começar uma Europa do zero – fazendo, quando muito, um
aceno simpático ao mundo greco-romano pré-cristão – nunca
seria sem consequências. Privados das suas raízes mais
fundas, confrontados com uma emigração de povoamento por
comunidades orgulhosas das suas raízes culturais e
religiosas e nada dispostas a renunciar a elas, os povos
europeus encontram-se desarmados para o combate cultural
que lhes é imposto – mais ainda porque as suas elites
desertaram desse combate e pretendem reescrever a
História europeia à luz dos seus preconceitos
ideológicos. Não admira que surjam reacções como a suíça.
Fosse o mesmo tema levado a referendo noutros países
europeus, os resultados seriam certamente semelhantes.
Papa
sem hipóteses... na Comunicação Social
1. É um caso raro de ódio e preconceito. Quando não faz
ou não diz... é culpado de omissão. Quando faz ou diz
algo... é julgado não em função do que faz ou diz mas
daquilo que é suposto estar escondido. Quando busca a
reconciliação e a unidade... é culpado de procurar a
reconciliação e a unidade com gente que deveria ser
ostracizada por todos. Quando define linhas de orientação
claras... é culpado de definir linhas de orientação
claras, pois trata-se de uma atitude conservadora e
retrógrada, pois hoje ninguém precisa de linhas de
orientação, menos ainda rigorosas e claras. Quando dá
passos inovadores no difícil caminho do ecumenismo... é
culpado de inovar, pois era suposto que tudo permanecesse
como está.
2. Bento XVI não tem qualquer hipótese junto dos grandes
Meios de Comunicação Social, que conseguem fazer um
escândalo até de um obscuro documento papal esclarecendo
aspectos técnicos de um pormenor do Direito Canónico
relativo à celebração católica do casamento entre uma
parte católica e outra não católica – pormenor, aliás,
apenas importante para estudiosos do Direito Canónico e
de muito difícil compreensão para não especialistas. Pois
até este documento os jornalistas da nossa praça,
especializados em não perceber nada sobre os temas mais
comuns da vida da Igreja, quanto mais sobre questões
técnicas de Direito Canónico, usaram fazer escândalo,
anunciando que o papa proibiu os casamentos entre
católicos e não católicos.
3. O problema, de facto, não era o documento em si, que
tais jornalistas nem se deram ao trabalho de tentar
perceber. Interessava, sobretudo, colocar de novo Bento
XVI sob a luz dos holofotes, para o mostrar como o
incurável tradicionalista, conservador, inimigo da
liberdade, arauto duma Igreja inimiga do progresso que os
grandes meios de comunicação social entronizaram no lugar
de João Paulo II e nunca mais largaram. Neste caso, sendo
um documento promulgado por tal Papa, nem valia a pena
ler. Só podia ser mais uma proibição, uma condenação,
qualquer coisa de mau, vindo de um homem deste calibre.
4. No fim de contas, nada de novo debaixo do Sol. Mesmo
assim, não deixa de merecer reflexão o modo como tantos
jornalistas cultivam ódios de estimação. Porque se fazem
isto com o Papa, e com a Igreja Católica em geral, não
podem deixar de o fazer com outros. E, sendo assim, fica
a pergunta: que informação nos andam a vender estes
jornalistas, sob a capa da objectividade, do rigor e da
isenção?